FONTE DA VIDA (The Fountain, 2006) | Uma Reflexão Sobre Vida e Morte

FONTE DA VIDA (The Fountain, 2006) | Uma Reflexão Sobre Vida e Morte

 

A morte sempre foi e ainda é um tabu a ser desconstruído. Se hoje falamos abertamente sobre sexo, depressão, suicídio (ainda que engatinhando) e eutanásia, tabus que outrora eram tidos como intocáveis, falar da morte ainda gera desconforto à maioria das pessoas, mesmo sabendo que ela faz parte da nossa vida desde o dia em que nascemos. Nossa finitude faz com que saibamos que nossa vida hoje pode ser limitada ao agora, e que o amanhã pode não existir.

 

Dependendo da crença da pessoa, o conceito de morte pode mudar drasticamente, inclusive alterando a percepção de vida do indivíduo. Algumas crenças de Religiões Tradicionais Chinesas acreditam em uma vida de paz após a morte, uma que um indivíduo possa alcançar através da realização de rituais específicos e por mostrar grande honra aos seus antepassados. Já os Astecas acreditavam que quando morressem, entrariam em qualquer um dos 3 lugares que acreditavam que fossem onde passariam a vida após a morte –  Mictlan, Tlalocan, ou o Sol. Já Bíblia Sagrada mostra que os mortos não estão cônscios de absolutamente nada, não podendo ter qualquer tipo de atividade pós morte.

 

O filósofo grego Sócrates refletiu a morte por volta do século 5 a.C com as seguintes palavras:

“Porque morrer é uma ou outra destas duas coisas – ou o morto não tem absolutamente nenhuma existência, nenhuma consciência do que quer que seja. Ou, como se diz, a morte é precisamente uma mudança de existência e, para a alma, uma migração deste lugar para outro”.

 

A verdade é que a morte sempre gerou discussões acerca, afinal ela afeta a todos os seres vivos. Mas quando se trata da morte, seja a nossa seja de alguém próximo a nós, o tema ganha espinhos dolorosos que ferem profundante quem se propõe a aborda-la. A morte então torna-se inaceitável e indiscutível.

 

O psicólogo José Barros de Oliveira no seu livro Ansiedade Face à Morte: Uma Abordagem Diferencial reflete:

“A aceitação da morte constitui certamente um dos maiores sinais de maturidade humana, daí a necessidade duma educação sobre a morte, duma “ars moriendi”, porque a morte, paradoxalmente, pode ensinar a viver.” ― Oliveira, J. Barros (2002). Ansiedade face à morte. Uma abordagem diferencial. Psychologica, 31, 161-176.

 

E é esse paradoxo que Darren Aronofsky busca em seu filme FONTE DA VIDA (The Fountain, 2006). No filme, Tommy (Hugh Jackman) é um médico cirurgião obcecado em encontrar a cura de um câncer que atinge sua esposa, Izzi (Rachel Weisz).

OBSESSÃO PELA VIDA / MORTE

Assim como todo filme de Darren Aronofsky, a obsessão de seus protagonistas é tema central da história. Tommy não aceita a morte como transição, como descanso eterno nem como ciclo natural da finitude humana. Isso faz com que dedique totalmente sua vida a vencer a morte, se  esquecendo da própria vida. Isso fica bem claro em uma cena logo no começo do filme, onde Izzi convida Tommy para passear um pouco do lado e fora, mas Tommy não vê sentido em fazer aquele passeio sabendo que em poucos dias, sua amada Izzi poderá estar morta. Ele se abdica de viver para encontrar maneiras não deixar Izzi morrer.

 

Outro momento onde Tommy reage negativamente a existência da morte é quando Izzi pergunta o que ele acha do conceito de que a morte é um ato de criação. Tommy sente o impacto daquelas palavras e desconversa, fugindo de confronto da realidade – da realidade exposta pelo psicólogo citado no começo do texto – que “a morte, paradoxalmente, pode ensinar a viver”.

 

ESTRUTURA NARRATIVA

FONTE DA VIDA não é um filme estruturalmente clássico. Há uma certa complexidade em sua estrutura que trabalha 3 linhas temporais paralelas. A primeira linha temporal refere-se ao século XVI durante inquisição espanhola. Ali, um Conquistador (Hugh Jackman) recebe a ordem da Rainha (Rachel Weizs) de localizar a Árvore da Vida, citada no livro bíblico de Gênesis 3:24. Segunda a Rainha, essa Árvore tem o poder da acabar com a morte e conceder imortalidade a quem a encontrar.

 

A segunda linha temporal é a principal e refere-se a linha de Tommy e sua esposa com câncer. E a terceira e mais misteriosa passa-se em um período não definido, onde Hugh Jackman (possivelmente Tommy) encontra-se em um espaço que remente ao celestial, tendo sua amada representada por uma Árvore, cujo a vida está próxima de se esvair.

 

Essa linhas temporais sem muita explicação por parte do roteiro permitem diversas interpretações que vão de viagem no tempo à reencarnação. Talvez essa dubiedade presente na sua estrutura fez com que o filme incomodasse a muitos, culminando no maior fracasso comercial dentre os filme de Darren Aronofsky. Eu mesmo tenho a minha teoria que nada tem que ver com viagem no tempo ou mesmo reencarnação, mas explica-la acarretaria em spoilers, e não é a intenção desse texto estragar as surpresas do filme. Cada a cada espectador interpretar o que vê em tela.

 

A MORTE ENSINANDO A VIVER

Os filmes de Darren Aronofsky são conhecidos por serem filmes pesados, com alta carga de dor e sofrimento, e em FONTE DA VIDA temos esses elementos presentes na história, mas diferentemente dos demais filmes do diretor, aqui temos um alento recompensador (ainda que o caminho até ele seja desditoso) agregado à uma paleta de cores que compõe a dor da morte e a celebração da vida.

 

A cinematografia de Matthew Libatique, parceiro de Aronofsky, trabalha perfeitamente a dicotomia entre a melancólica escuridão e o caloroso dourado, ambos presentes o tempo inteiro no filme, dando apenas um espaço meticulosamente pensando para sua ausência. Até mesmo dentro do ambiente hospitalar temos a presença do dourado e amarelo na iluminação. O que normalmente seria uma luz branca e fria, Libatique traz uma cor quente, dourada, remetendo a calorosidade e a riqueza da vida. Não uma riqueza material, mas uma riqueza espiritual, metafísica, vivencial, filosófica ou de outra maneira que o espectador enxergue a vida.

 

Aronosfsky fala da morte como círculo que começa no nascimento e depois retorna. Afinal, mesmo que venhamos a morrer, nossas lembranças ainda permanecem vivas naqueles com quem convivemos, e quando temos essa consciência, passamos a valorizar mais esses momentos de convivência. A obsessão de Tommy faz com que ele deixe de viver momentos de vida com sua esposa. Momentos que nunca seriam apagados por terem sido vivenciados.

 

Em FONTE DA VIDA Aronofsky nos ensina que temos muito o que aprender com a morte…

… então, vamos falar sobre morte?

 

Se quiser conhecer mais do meu trabalho, eu escrevo para blog ArteCines e semanalmente falo de cinema no meu Canal no Youtube

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