A SONORIDADE DE DUNKIRK E OS SEGREDOS DA EDIÇÃO E MIXAGEM DE SOM

A SONORIDADE DE DUNKIRK E OS SEGREDOS DA EDIÇÃO E MIXAGEM DE SOM

Christopher Nolan é pauta em todos os veículos que falam de cinema – podcasts, videocasts, blogs e sites. E não é pra menos, afinal estamos falando de um dos diretores mais amados da atualidade, e assim como todo diretor amado, é também odiado por muitos. De fato, agora com seu novo trabalho – DUNKIRK, Nolan consolida seu talento como realizador de obras que movimentam milhões em bilheteria no mundo todo mesclando o que alguns chamam de “filme de arte” com “filme comercial”. E o motivo de Nolan angariar uma base tão sólida de fãs é seu talento em criar histórias densas, que captam a atenção da plateia por sua tecnicidade como um diretor e roteirista que busca transmitir uma experiência sensorial através de seus filmes. Usarei a expressão “plateia” em referência à plateia de cinema, e não espectador ou público por que segundo Nolan, seus filmes são feitos para serem vistos no cinema e não em casa (aliás, esse é um tema que ainda quero abordar com mais calma).

Em DUNKIRK essa experiência sensorial é apresentada principalmente por meio de sua Edição e Mixagem de Som. Mas para entendermos como esses elementos funcionam na drama, vale a pergunta – O QUE É EDIÇÃO E SOM? E QUAL DIFERENÇA ENTRE EDIÇÃO E MIXAGEM DE SOM?

A verdade é que quando estamos assistindo a um filme, nossa atenção geralmente fica focada em tudo que é imagético. Fotografia, Figurino, Design de Produção, Efeitos Especiais, são facilmente detectados por todos nós. Entretanto existem os mais atentos que dão atenção à elementos sonoros como trilha sonora e alguns sons ambientes, mas ainda é algo raso e geralmente limitado ao que o escritor Marcel Martin (se pronuncia “Martan”) chama de MODO DE AUDIÇÃO SEMÂNTICA. Essa audição foca naquilo que ouvimos e entendemos, como diálogos e canções, cuja a letra nos é de conhecimento ou tem sua letra legendada. Mas podemos ampliar nosso modo de audição e perceber outros sons no filme, e é ai que a Edição e Mixagem entram em cena, e vamos começar falando da Edição de Som em DUNKIRK.

 

EDIÇÃO DE SOM

Edição de som é a reprodução de um determinado som no filme. Por exemplo, em DUNKIRK há cenas onde bombas explodem de forma estrondosa. Esse som de explosão, é previamente gravado, e inserido no filme, assim como acontece com sons de aviões, tiros, batidas, motores dentre outros.

Basicamente, o editor de som captura (ou apenas seleciona em um banco de dados) o som ou ruído que será utilizado durante o filme e depois os insere na pós-produção. Essa técnica é conhecida como FOLEY – nome dado em homenagem à Jack Donovan Foley que é homem que acredita-se ter inventado a técnica do Foley. Este vídeo abaixo mostra como captura-se os sons à serem utilizados em um filme. [vídeo em inglês com opção de legenda]

 

Em DURKIRK a Edição de Som busca trazer para dentro do filme o máximo de elementos sonoros possíveis para que a experiência sensorial seja ampliada. Mas o grande diferencial do filme não está na Edição de Som e sim na Mixagem.

 

MIXAGEM DE SOM

Se a Edição de Som, é a reprodução de um determinado som no filme, a Mixagem de Som é a organização, distribuição e harmonização desse som no filme. Por exemplo, no filme há algumas cenas onde personagens conversam durante a batalha, e nessas cenas o técnico de mixagem precisa organizar o som ambiente para que identifiquemos o som da batalha que está ao fundo, ao mesmo tempo compreendamos os diálogos que ali existem juntos com os demais elementos sonoros da cena. Por exemplo, o filme já começa de forma frenética com a trilha sonora de Hans Zimmer lá no alto criando uma tensão que cresce conforme os sons de tiros e explosões vão surgindo de um lado para o outro num ótimo desenho de som que só é sentido em um excelente sistema de som 5.1 (não adianta que nenhum home-theater vai reproduzir a experiência de uma sala IMAX ou XD). Uma Mixagem de som ruim geraria confusão auditiva na cena e não identificaríamos os elementos sonoros.

Há uma outra cena no filme onde é possível identificar claramente os sons de subsequentes explosões que começam lá ao fundo e conforme elas vão se aproximando da nossa subjetividade, o som cresce culminando numa última explosão que deixa tanto o personagem quanto o plateia surda por alguns instantes. Esse incômodo que muitos sentiram (foi o meu caso) foi totalmente proposital. Nolan quis trazer essa experiência sensorial para imergir sua plateia naquela batalha, e por ser uma batalha limpa e sem sangue, exigia elementos que trouxesse um realismo visceral ao filme. Mas se você reparar bem, misturado à toda essa confluência de sons há um elemento estranho – o tique-taque de um relógio.

Para esse começo, Nolan gravou esse tique-taque de um relógio – que pode ser ouvido quase do início ao fim do filme – e entregou ao compositor Hans Zimmer para começar a construir as faixas sonoras do filme. Assim tanto as trilhas de Zimmer quanto os sons abstratos como relógios, batimentos cardíacos e sons de maquinários funcionam com total harmonia criando tensão e urgência. Por isso que além da excelente mixagem de sons como tiros, explosões, aviões e assim por diante, é possível identificar elementos estranhos na sonoridade do filme e esses elementos são o que o já citado Marcel Martin chama de MODO DE AUDIÇÃO REDUZIDA que são elementos sonoros não pertencentes às cenas mas que tem funções específicas na narrativa.  Esse é o motivo dessa trilha sonora funcionar tão bem e aparecer tanto durante o filme, e isso só é possível graças a Mixagem de Som que organiza todos esses elementos. Ademais, a trilha de Hans Zimmer esconde um outro segredo.

 

TRILHA SONORA

A sonoridade de DUNKIRK não para por aqui. Em uma entrevista dada ao The Film Society of Lincoln Center, Nolan diz que escreveu o roteiro de DUNKIRK de acordo com o princípio musical do impulso contínuo, utilizando-se de uma ilusão de áudio chamada Escala de Shepard, que cria a sensação de um aumento escalonado, criando uma sensação crescente de ansiedade e intensidade na plateia através do desenho de som e da trilha sonora.

Ouça por exemplo como o score tocado no inicio do filme utiliza essa Escala. Poderemos notar como a trilha sonora transmite uma sensação de contínua tensão por meio da Escala Shepard. [vídeo em inglês com opção de legenda]

 

A verdade é que Christopher Nolan pode ser chamado de tecnocrático, pedante, arrogante, pseudo-gênio dentre outros, mas um fato é inegável – ele sabe o que faz e quer você goste dele ou não,  Nolan é um dos diretores mais relevantes de sua geração.

E você? Gosta dos filmes do Christopher Nolan? Deixe nos comentários sua impressão de DUNKIRK e dos demais filmes no diretor.

 

Nos vemos no próximo texto.

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