Ícone do site Cinem(ação): filmes, podcasts, críticas e tudo sobre cinema

Documentário “Autodeclarado” discute questões fundamentais

Os documentários de Maurício Costa tratam de questões atuais e prestes a serem transformadas. “Era de Gigantes”, de 2017, falava sobre a política externa do Brasil durante a era Lula, e foi lançado às vésperas do governo seguinte, que mudaria radicalmente a posição do Brasil no cenário internacional. Enquanto isso, “Uber x Táxis” discutiu, em 2020, questões técnicas a respeito do embate entre taxistas e motoristas do aplicativo Uber, sendo que hoje, dois anos depois, vemos a crise sucatear ainda mais a profissão de motorista.

Agora, Maurício Costa lança “Autodeclarado”, documentário que discute inúmeras questões relacionadas às cotas raciais, incluindo o colorismo e as dificuldades de definir quem é negro (preto ou pardo) no Brasil.

O debate se faz muito necessário e atual, especialmente porque, assim como nos documentários anteriores do diretor, mudanças podem surgir em poucos anos. Além de haver propostas para mudar a lei de cotas no Brasil, também ocorreu recentemente a prorrogação da votação para estender a lei de cotas por mais 50 anos.

A importância de “Autodeclarado”

O documentário passa por diversos assuntos fundamentais sobre as cotas raciais nas universidades. Entre os entrevistados, o doc inclui até mesmo uma jovem que teria ido com a pele “pintada” ou “bronzeada” no dia da matrícula, e que se autodeclarou negra na inscrição. Outro entrevistado, um jovem pardo do Rio Grande do Sul, que até hoje luta por seu direito de se matricular na UFRGS, ainda que tenha sido considerado branco pela bancada examinadora.

Um dos pontos curiosos do documentário é justamente a encenação de uma banca examinadora da raça de uma pessoa, na qual atores utilizam falas típicas do processo de análise daqueles que se autodeclaram negros para a política de cotas. As cenas são ilustrativas do assunto, mas podem destoar dos debates.

Entre os entrevistados, as falas de Frei David, fundador da Educafro, são especificamente interessantes: ele diz, por exemplo, como a política de cotas favoreceu os pardos (especialmente os pardos de pele clara) e não conseguiu ainda valorizar as pessoas pretas de pele escura.

Colorismo e a resposta em aberta

Preocupado em apresentar o problema e não em determinar a melhor solução, “Autodeclarado” faz um caminho interessante para discutir o colorismo e o que é ser negro no Brasil – onde a premissa é diferente dos Estados Unidos, por exemplo.

Assim, o debate inicialmente de ordem prática (e que poderia ser visto apenas do ponto de vista jurídico) logo se volta a questões sociológicas e complexas da realidade do país. A resposta final é, talvez, aquela que não queremos ouvir: a de que teremos que discutir o assunto por muito tempo.

E só por isso, por colocar a discussão em pauta, “Autodeclarado” já é uma produção tão importante.

Colegas do Cinem(ação)

O diretor de “Autodeclarado”, que também é crítico de cinema, tem realizado coberturas do Festival de Sundance com parceria do Cinem(ação), que publica seus vídeos com textos de cada filme assistido por ele. Além dele, uma das entrevistadas do documentário é outra amiga do site: Bárbara Kruczynski já participou de diversos podcasts da casa.

O filme teve exibições especiais em Brasília e em São Paulo, e ainda não tem data de lançamento no circuito comercial dos cinemas ou streaming.

Sair da versão mobile