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Crítica: Close – Festival de Cannes 2022

Em uma sociedade de raízes patriarcais, o machismo não deixa ninguém imune aos seus efeitos. Por mais que, durante anos, nossos debates sobre os efeitos do patriarcado sejam majoritariamente direcionados à mulheres, é inegável perceber as consequências dessas práticas sexistas nos homens, também. A masculinidade tóxica, embora seja ainda pouco abordada dada sua relevância, leva milhares de homens todos os anos a quadros profundos de depressão. Socialmente, homens são ensinados a reprimir emoções e expressarem-se através da raiva e da agressividade, frequentemente impedidos de demonstrarem qualquer sinal de fraqueza.

Nessa história de amizade entre dois meninos, o machismo, a homofobia e a masculinidade tóxica, todos temas adjacentes, se tornam incontornáveis pontos de reflexão a partir do olhar perceptivo e metafórico de Lukas Dhont. O diretor e roteirista belga, que já era conhecido pela sua sensibilidade ao abordar temáticas LGBTQIA+ na infância desde Girl (2018), agora retorna com um filme ainda mais emocionante que levou o público de Cannes às lágrimas e dividiu o segundo maior prêmio do Festival com Stars At Noon de Claire Denis. Um reconhecimento merecido diante de tantos pontos que tentarei traduzir em palavras, mas consciente de que talvez não sejam o suficiente para descrever com tamanha sensibilidade aquilo que me foi apresentado em imagens.

No começo, duas crianças escondidas nas sombras, perseguidas, supostamente, por sombras que não vemos, e ouvindo passos que também não detectamos. Minutos depois, a tensão inicial então se descobre ser uma fantasia e o ambiente sufocante se dissolve, logo mais, em uma linda cena em campo aberto, idílica, que celebra a infância e a inocência de dois garotos que crescem entre as flores, em uma pequena cidade francesa chamada Grasse. Rémi e Léo, como sugere a cena inicial, crescem livres para demonstrarem seu afeto um pelo outro, de certo modo protegidos dentro do ambiente familiar. Mas, tudo muda quando entram no ambiente escolar e precisam passar a lidar com olhares e comentários homofóbicos dos colegas assim que é notada a proximidade dos dois.

O diretor logo sugere, por meio de um zoom out no pátio da escola, a sensação de que os personagens que outrora observamos com pureza, agora se encontram em um local desconhecido e inseguro e, o que antes carecia de rótulo, logo irá se transformar em um verdadeiro pesadelo. Enquanto Rémi não assimila a crueldade dos comentários que os perseguem, Léo vai começar a sentir na pele o peso da rejeição daquele ambiente maldoso e, então, passará a refletir esse incômodo em suas atitudes, ao se afastar cada vez mais do amigo. A diferença de comportamento se inicia de modo sutil. Primeiro, Léo se esquiva fisicamente quando Rémi tenta apoiar-se nele, depois, repetidamente, faz de tudo para evitá-lo. A situação culmina em uma luta física entre os dois que, pouco tempo depois, Rémi irá responder de maneira inesperada.

É interessante pontuar que a sexualidade das crianças, para a obra, não é o mais relevante. Aqui, é mais essencial questionar-se por que Rémi e Léo tiveram que se adequar aos moldes de uma sociedade tão machista e homofóbica, e como isso afetou ambos e a sua relação. É compreensível, inclusive, que Lukas Dhont não tenha feito questão de nos dar essa informação, pois opta por retratar com muita ingenuidade a infância dos personagens, das brincadeiras aos diálogos. Quando Rémi ensaia para sua apresentação, quando Léo o desenha, são brincadeiras infantis tão comuns e ingênuas, que as cenas nos divertem e nos transportam de volta à infância. Nada além de dois garotos se divertindo.

Assim, a interpretação sobre a tragédia principal do filme e sobre o nível da repercussão dessa ruptura para ambos fica a cargo do espectador – o que para mim foi um enorme exercício de alteridade e estudo de comportamento. Enquanto Léo expressa seus sentimentos pela forma que lhe é mais socialmente aceita, através da raiva e da agressividade que é permitida nas partidas de hóquei, Rémi não suporta por muito tempo a distância que existe entre os dois e possui uma diametralmente oposta de exprimir seus sentimentos. Um abraça o que sente, o outro evita sentir.

É quando então Dhont faz uso de uma metáfora a qual, embora à primeira vista possa parecer óbvia, funciona como algo tão singelo – e realmente tão ingênuo, tão poético – que se torna pura e emocionante, sem que precise de nenhuma palavra para que seja compreendida. Como uma ferida aberta, o que Léo sente é tristeza e o que ele busca, sem saber, é o perdão. A raiva dá espaço ao pesar e o choro se transforma em força para quem até então não se permitia fraquejar. Existe regressão, mas faz parte de um ciclo maior de aceitação, o ciclo do luto. E, assim, a ferida irá sarar como quem aceita o perdão, de si mesmo e o de quem ele ama.

No fim das contas, Close é um filme sobre crescer também. É uma espécie de coming of age de tragédia, onde o que presenciamos é algo mais comum do que imaginamos e, infelizmente, menos discutido do que deveria. As consequências do machismo estrutural, da masculinidade tóxica, da homofobia, da depressão e muitos outros assuntos que são difíceis de assimilar até na vida adulta, estão presentes também na infância e isso precisa ser discutido.

O ganhador do Grand Prix do Júri de Cannes 2022 é um lembrete forte e emocionante de que devemos acolher as crianças e educá-las em direção a uma sociedade onde a demonstração de afeto seja mais frequente que o ódio; onde chorar de tristeza é mais socialmente aceito do que chorar de raiva. Que a única saída para o preconceito seja mais afeto e que nós, ao assistirmos Close, sejamos confrontados com essa máxima bem de perto, perto suficiente para nos incomodar.

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