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Crítica: Irma Vep – Festival de Cannes 2022

Conciliar passado e presente no Cinema  nunca é uma tarefa simples. Quando Olivier Assayas primeiro decidiu readaptar a obra “Les Vampires”, clássico do Cinema mudo de 1915, em seu longa-metragem Irma Vep de 1996, o diretor já sabia disso. Agora, em 2022, Olivier se propõe outro desafio ao revisitar sua própria obra, por sua vez adaptada da obra de Louis Feuillade, com um novo viés inédito em sua carreira: um filme televisivo para streaming, cuja história metalinguística explora uma refilmagem ficcional (mas nem tanto) do seu filme anterior. Irma Vep é, em síntese, um filme, do filme, do filme. Uma grande confusão catártica que pode dar muito certo ou muito errado. Afinal, como uma minissérie baseada em um filme de baixa bilheteria dos anos 90, por sua vez baseado em um filme clássico mudo de 1915, pode ser relevante no streaming e, ainda, entreter os espectadores adeptos ao “binge watch” no século XXI?

A resposta começa pela escolha da história. Ao invés de tentar reviver a linguagem do Cinema mudo, ou mesmo reviver as próprias escolhas no Irma Vep de 1996, Assayas contextualiza Irma Vep na Paris do século XXI através de uma história honesta em sua metalinguagem: uma atriz que em busca de novos desafios fora do eixo hollywoodiano, se muda para a capital francesa ao aceitar participar da refilmagem de Vampires como Irma Vep. Abraçando a ironia da sua própria história, Assayas se vê livre para explorar as referências cinematográficas que uma adaptação permite, enquanto homenageia a história da sétima arte ao mesmo tempo. O diretor insere trechos do filme de 1915, incluindo seus intertextos, ao passo que os combina muito bem com contraste de uma cidade agitada, cosmopolita e tecnológica como é Paris.

Além do mais, a escolha de Alicia Vikander como protagonista também se mostra essencial para uma contextualização mais moderna da história que um dia foi interpretada por Musidora. A atriz não só é perfeita para o papel que desempenha, com seu ar misterioso e elegante, como também atrai a visibilidade necessária que a série precisa ao estrear na guerra mercantil desse cinema pensado para plataformas. A proximidade da sua história fora das telas com sua personagem também torna tudo mais interessante, por ser uma atriz hollywoodiana se arriscando em novo projeto fora da sua zona de conforto, e Assayas brinca com isso e consigo mesmo através do personagem divertidíssimo do diretor do filme, acentuando ainda mais a metalinguística dentro da narrativa.

Embora não tenha muito a dizer nos seus três primeiros episódios além do que já saberíamos apenas com uma simples leitura da sinopse, a série consegue entreter pelas suas referências ao Cinema, sua comicidade e pela dinâmica do relacionamento entre a protagonista e a sua ex-namorada Laurie, com quem nutre uma relação de amor e ódio interessante de se acompanhar. Os demais personagens são carismáticos, mas até o terceiro episódio estão subdesenvolvidos e, portanto, não tem muito o que se dizer sobre eles além de que tem pelos menos dois personagens (além da protagonista, do diretor e da ex-namorada) que nos fazem rir à beça e isso por si só já mostra que o tom escolhido por Assayas tem o potencial de entreter o espectador atual mesmo que este não tenha conhecimento das obras anteriores. Irma Vep tem o suficiente para que reconheçamos que a minissérie é sim uma obra adaptada, mas não extrapola seus limites a ponto de se tornar mais uma cópia. A originalidade existe porque Assayas faz escolhas acertadas em abrir o jogo para o espectador, desde o início sobre as implicações de fazer um filme, de um filme, de um filme.

Existe uma narrativa honesta que, quando bem executada, raramente deixa de funcionar. Agora, é esperar para ver se tudo isso é o suficiente para fazer o público se apaixonar por uma história tão incomum para o streaming que, ao menos à primeira vista, parece ser original demais quando colocada ao lado de outros sucessos atuais de um certo top 10. Boa ou não, é impossível não admitir que o desafio de Assayas desperta certa curiosidade, e pelo menos por isso, já é algo muito bom.

  • Nota
3
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