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Crítica: Batman (2022)

Batman (2022)

Direção: Matt Reeves

Roteiro: Matt Reeves, Peter Craig

Elenco: Robert Pattinson, Zoë Kravitz, Jeffrey Wright, Colin Farrell, Paul Dano, John Turturro, Andy Serkis, Peter Sarsgaard, Barry Keoghan, Jayme Lawson.

Sinopse: Batman (The Batman, no original) segue o segundo ano de Bruce Wayne (Robert Pattinson) como o herói de Gotham, causando medo nos corações dos criminosos da sombria cidade. Com apenas alguns aliados de confiança – Alfred Pennyworth (Andy Serkis) e o tenente James Gordon (Jeffrey Wright) – entre a rede corrupta de funcionários e figuras importantes do distrito, o vigilante solitário se estabeleceu como a única personificação da vingança entre seus concidadãos. Durante uma de suas investigações, Bruce acaba envolvendo a si mesmo e Gordon em um jogo de gato e rato, ao investigar uma série de maquinações sádicas em uma trilha de pistas enigmáticas estabelecida pelo vilão Charada. Quando o trabalho acaba o levando a descobrir uma onda de corrupção que envolve o nome de sua família, pondo em risco a própria integridade e as memórias que tinha sobre seu pai, Thomas Wayne, as evidências começam a chegar mais perto de casa, precisando Batman forjar novos relacionamentos para assim desmascarar o culpado e fazer justiça ao abuso de poder e à corrupção que há muito tempo assola Gotham City.

O protagonista deprimido dirige seu veículo e transita em meio à multidão. Através de narração em off, o vigilante coloca-se à parte dos outros civis. Faz um monólogo delirante sobre ter se tornado um com as sombras: “Dois anos na noite me tornaram um animal noturno”. Poderíamos muito bem estar descrevendo Travis Bickle, protagonista de Taxi Driver – noir setentista de Martin Scorsese e Paul Schrader, mas essa introdução refere-se ao Bruce Wayne vivido por Robert Pattinson neste Batman, neo-noir dirigido por Matt Reeves. Cada vez mais se amplia a quantidade de um tipo de filme de super-herói “sério,” que se apropria de referências muito evidentes a clássicos do cinema, numa intenção de validação, de “tocar o mesmo terreno que os grandes”, como Logan (2017) fazia com “Os Brutos Também Amam”, ou como o recente Coringa (2019) fez com “O Rei da Comédia” e o próprio “Taxi Driver”. Batman é mais um desses filmes que deixa claras suas influências de Scorsese no protagonista de psique à beira do colapso, a David Fincher e seus thrillers criminais – “Seven” e “Zodíaco” – na figura de seu vilão, Charada, aqui um simulacro bem claro da força que movia as paranoias de Mark Ruffalo e Jake Gylenhall no filme de 2007.

As referências das quais Reeves toma apropriação se encontram muito próximas a atribuir a Batman um caráter derivativo que acometia Coringa, um filme competente, mas à beira de um cosplay de “filme de gente grande”, na ânsia por tornar seu filme sério e relevante – principalmente no Charada de Dano e suas frases que remetem diretamente ao personagem vivido por Kevin Spacey no filme de Fincher. Felizmente o cineasta entende que essa roupagem estilística precisa se traduzir no que constitui a forma, validar seus interesses temáticos no conteúdo. Batman é um filme multifacetado que se apropria do Noir, dos filmes de Fincher e Scorsese, mas não se esquece que ainda é um filme de gibi. Se a narração em off remete direta e charmosamente a obras consolidadas no cinema, ela também possui função narrativa, e os minutos iniciais do filme possuem um claro propósito que denota o tema. Nesta narração em off muito fiel aos quadrinhos, temos não só alguns dos momentos mais inspirados e impactantes do homem-morcego entre todas as suas adaptações as telonas, mas também a mitificação do personagem intra-filme. É nessa introdução que Reeves deixa as intenções de seu filme bem evidentes: na narração em off de seu perturbado narrador não confiável, nos adentraremos na cabeça de Bruce Wayne, e veremos o primeiro estudo de personagem devotado ao Cavaleiro das Trevas em um bom tempo.

Caso não tenha ficada clara a intenção de aproximar Bruce Wayne de uma figura sociopata à la Travis Bickle, Reeves e seu diretor de fotografia Greig Fraser (Duna, O Homem da Máfia), repetem o memorável plano subjetivo inicial, onde acompanhamos o voyeurismo de Charada, com um plano idêntico replicado no protagonista, no qual o herói pratica o voyeurismo com outras intenções. Os quadros habitados por Charada se repetem em rimas visuais com aqueles protagonizados pelo personagem título, tornando esse flerte do herói que está prestes a se tornar o vilão cada vez mais evidente. Assim, temos um Bruce Wayne em início de carreira que pouco se diferencia de seu alter-ego, ainda sem nenhuma intenção de fabricar a persona do playboy festeiro vista nas produções de Christopher Nolan à frente do personagem. O Bruce Wayne de Reeves se aproxima a uma figura vampírica aos moldes de Drácula ou Nosferatu, algo fortalecido não só pela escolha do figurino que atribui uma gola alta para a capa do Batman visto aqui, mas também pela escalação de Robert Pattinson no papel principal. Quando seu Bruce Wayne está em cena, temos uma figura pálida, avessa ao sol, alta e até mesmo desengonçada. Quando Batman habita o espaço, temos uma figura que possui dificuldade em se adequar ao quadro, imponente, assustadora; estranha. Maior que o mundo.

Talvez o expressionismo seja o maior triunfo deste Batman. Enquanto os filmes de Christopher Nolan ancoravam a narrativa na realidade e sobriedade  numa forma singela e literal, particularmente na fotografia, o universo de Reeves adota o realismo de acordo com a lógica do universo sem permitir que ela contamine todo o resto: seja na trilha sonora de caráter lúdico já característico de Michael Giacchino, na fotografia de sombras duras e penetrantes de Fraser, no design de produção que estiliza Gotham com os Neons Vibrantes inseridos numa arquitetura gótica, até o excelente trabalho de maquiagem exercido sobre o rosto de Colin Farrell (algo que evoca naturalmente a caricatura e o teatral) como Oswald Cobblepot – o Pinguim –, muito no filme o aproxima da estilização, e ela é fundamental para que o aspecto melodramático inerente ao Noir se valide. É uma característica que ganha força na subtrama protagonizada por Selina Kyle, a Mulher Gato de Zoe Kravitz, e todos os tropos que a personagem traz consigo: a Femme Fatale, os segredos da trama, a sexualidade, o romance proibido, a perdição do relutante anti-herói.

É outra característica de um filme ambicioso, que se utiliza de quase três horas de duração para cimentar esses temas, trabalhar subtramas que mais servem para construir um universo rico, de personalidade (os capangas gêmeos da boate comandada pelo Pinguim são influenciados diretamente pelos mutantes de O Cavaleiro das Trevas, trabalho seminal de Frank Miller), mas que acabam por constituir uma trama convoluta à beira do cansativo. Reeves se devota, na maior parte de seu filme, a um thriller investigativo instigante, mas irregular em contraponto com a grandiloquência que adota no terceiro ato. Nesse sentido, Batman provoca uma a sensação de exaustão muito semelhante àquela do segundo filme da trilogia de Nolan, ainda a obra definitiva sobre o personagem; enquanto o filme de 2008 compensava o terceiro ato estendido ao aderir o espetáculo de “set pieces” incansáveis, o filme de Reeves, se equilibrando entre o thriller cerebral de prestígio e um final megalomaníaco de destruição catastrófica, não possui fôlego para atingir exatamente a catarse pretendida no escopo maior, mas consegue um fechamento digno da jornada individual de seus personagens.

Nesses casos a eficácia fica bem simples. O Cavaleiro das Trevas conta com a carismática e intoxicante performance de Heath Ledger como o vilão Coringa e a trágica progressão dramática do arco de Aaron Eckhart e seu Duas-Caras, enquanto o filme de 2022 possui o irregular Paul Dano, ora monossilábico, ora caricato, como Charada. Ainda que as ações do vilão movam a trama, o terceiro ato resume bem a entrega, interessante conceitualmente – um vilão incel que motiva seguidores a aderirem sua causa através de redes sociais –, mas capenga no sentido literal: dezenas de charadas, idênticos como um exército de aliens genéricos saídos de um filme da Marvel, prontos para serem espancados pelo herói protagonista.

A narrativa cheia de subtramas prejudica o ritmo e exige atenção maior do espectador, mas existe um claro esforço para completar a trajetória de Bruce Wayne/Batman de uma forma coesa: o tom de fechamento de ciclo evidenciado pela já citada música Something in the Way, da Nirvana, e uma chave de ressignificação do próprio mito do personagem não só dentro do filme, mas na própria cultura pop do mundo de fora. Batman também aborda o comentário ascendente das redes sociais na última década sobre da noção do herdeiro rico que utiliza de seu poder para punir a classe marginalizada oprimida, e não devotar o privilégio financeiro e social para tratar do problema no cerne hierárquico do sistema. Existe um olhar até mesmo para esse âmbito, presente na política que se candidata a prefeita de Gotham e possui ideais progressistas (seu papel na trama fica bem delineado na verbalização que ela faz em determinado momento sobre o papel de Bruce como milionário recluso), que representa um claro avanço para a decadente e corrupta Gotham vista aqui, numa subtrama que carece de atenção dramática e temática que vá além de sua inclusão como fantoche narrativo. A ambição que nem sempre atinge o efeito pretendido não tira os méritos de Batman, que pisa, em seu final, no território já conhecido de preparação de terreno do que está por vir, aos costumes de outras produções do popular cinema de adaptações de super-heróis, mas que se recusa a encerrar a projeção numa chave de expectativa que não é consumada, encerrando-se, após os vários epílogos – como se procurasse a maneira definitiva de terminar a jornada vista aqui – numa cena íntima e agridoce que faz jus a história de detetive e Femme Fatale que presenciamos ao longo deste filme policial, estudo dramático de personagem, filme de herói, romance noir.

  • Nota
3.5
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