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Crítica: Moonfall – Ameaça Lunar

Moonfall – Ameaça Lunar
Direção: Roland Emmerich
Roteiro: Roland Emmerich, Harald Kloser, Spenser Cohen
Sinopse: Uma força misteriosa puxa a Lua para fora de sua órbita ao redor da Terra e a envia em rota de colisão com a vida tal como a conhecemos.
Elenco: Patrick Wilson, Halle Berry, John Bradley, Charlie Plummer

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Quando o romance Uma Princesa de Marte (adaptado para os cinemas em John Carter, de 2012), de Edgar Rice Burroughs, foi publicado pela primeira vez na revista pulp All-Story (1912), não se tinha ainda o conhecimento científico para o uso de embasamentos teóricos  sobre o espaço sideral. O espaço era um lugar inexplorado e as especulações das maravilhas que ele nos reservava eram apenas fantasias futuristas. Nessa terra de ninguém, havia espaço para a imaginação mitológica e sem limites, onde Marte era o lar de raças alienígenas das mais variadas, bestas colossais, impérios e arenas de gladiadores. O aspecto pulp dessas histórias era evidenciado pelo sensacionalismo do teor B que vinha com o gênero da ficção científica, e sua vocação para a aventura inconsequente beirando a inocência do maravilhamento pelo desconhecido. O clássico livro Viagem ao Centro da Terra (Júlio Verne, 1864) partia do mesmo princípio. A terra era oca, e no centro de tudo havia as mais perigosas criaturas, os oásis mais paradisíacos, organismos gigantes e sistemas ecológicos inimagináveis.

Em Moonfall – Ameaça Lunar, a Lua está caindo. É a mais nova forma de destruir o planeta que o diretor Roland Emmerich (Independence Day, O Dia Depois de Amanhã, 2012, O Ataque) encontrou, junto de seus roteiristas Harald Kloser e Spenser Cohen. Emmerich é conhecido como o rei do Destruction Porn devido à sua vocação para filmar a destruição. Prédios sendo atingidos por naves extraterrestres ou monumentos icônicos de países desmoronando acontecem aos montes em seus “filmes de desastre”, com uma atenção ao detalhe quase voyeurística. Ainda que o cineasta sempre tenha procurado um embasamento científico minimamente crível para justificar seu “pornô de destruição”, no final das contas essas exposições são apenas desculpas para a devoção de Emmerich ao poder de parque de diversões que essa destruição poderia causar. Esse entretenimento move a maioria de seus filmes. O exagero destes registros espertamente distanciava a destruição dos mal-estares oriundos de uma lembrança coletiva em relação ao 11 de setembro (algo que filmes como O Homem de Aço, em seu apego pelo registro realista e verossímil, não entendeu).

Em meio a esses desastres, diversos núcleos de figuras tipicamente americanas eram trabalhadas. Todos os integrantes da família protagonista, frequentemente separados para um reencontro ao final da projeção, devem participar da ação: das crianças aos adolescentes; dos adultos aos idosos, passando pelos coadjuvantes das mais diversas classes sociais dos EUA, ora em chave de ironia, ora em chave de exaltação ao espírito de resistência norte-americano. Os resultados por vezes irregulares dessa curiosa filmografia se dão tanto nos excessos como na escalação dos atores. O engessado 2012 sofria pela péssima escalação de atores da família principal encabeçada por John Cusack, como também pelo peso dramático e realista que não fazia favor algum à exaltação dos EUA como salvador da humanidade, em arrogante nota de união mundial.

Moonfall se beneficia em primeiro lugar por entender o caráter pulp que eventualmente abraçará com toda a potência, a começar pela escalação de Patrick Wilson – cada vez mais parecido com Paul Newman, com suas feições faciais remetentes de fato a uma Hollywood clássica em que o protagonista deveria representar o ícone da masculinidade americana. O que impede uma exaltação desafinada politicamente, no entanto, é que Emmerich entrega seu filme aos exageros desta vez não só aos figurantes, mas a todo o tom de sua narrativa, cada vez mais fabulesca conforme progride. A comparação não podia ser mais clara, quando olhamos para o nerd conspiracionista de Moonfall, KC (John Bradley), e o nerd conspiracionista de 2012 (Woody Harrelson). Se a caricatura de Harrelson – inserido naquela narrativa autoimportante e dramática – sentia-se deslocada, e o personagem era rebaixado a um alívio cômico que estava certo em seus temores do fim do mundo, mas tinha como destino uma morte cruel, aqui o nerd conspiracionista está certo. E ele salva o mundo.

É o mesmo princípio do exagero com o qual Emmerich trabalhava as destruições vistas em seus filmes, como uma espécie de alívio de mal-estares: retratar os conspiracionistas em pleno 2022 como a voz da razão seria incômodo num filme de peso dramático singelo. Emmerich exagera estes coadjuvantes e os traz para um universo mais simples (inocente?), onde tais personagens eram vistos no cinema apenas como figuras peculiares vestindo chapéu de alumínio. O cineasta volta para um tempo especulativo e pueril, onde estas pessoas servem de alívio cômico num universo que sustenta – não trai – essas presenças. É, afinal, o retorno para um tempo digno de Júlio Verne, onde não só a lua está caindo por razões absurdas, mas no qual até mesmo esses coadjuvantes podem tornar-se protagonistas e salvar o mundo. Talvez seja por isso que a segunda metade de Moonfall seja recebida com desdém, na entrega ao aspecto pulp no qual as exposições de roteiro acontecem de forma rápida, e talvez por isso o filme ceda espaço a uma aventura sci-fi fantasiosa e sem-vergonha, considerada quase por definição como inferior ou ridícula. Até mesmo as explicações da mitologia são feitas num carnaval visual de computação gráfica, porque não há tempo para alguma lógica que valide a nossa crença na aventura, e não há tempo a perder. O que importa é a vertigem visual, e o filme exerce o espetáculo na fé de que o público comprará esse descompromisso sem perguntas. O que nem sempre acontece.

No final das contas, o real peso emocional da história acaba sendo mesmo a validação do personagem de KC, e surpreende que o coração do filme seja selado na cena final do personagem – epílogo do filme – revelando um caráter emocional mais profundo que o insinuado. Na Lua Verniana de Moonfall – Ameaça Lunar, até mesmo com seus familiares você poderá conversar, através de projeção astral. Não tem futuro mais reconfortante e fabulesco.

  • Nota
3
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