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Crítica: A Última Noite

A Última Noite - filme de Camille Griffin com Keira Knightley

A Última Noite” conta sobre o casal Nell (Keira Knightley) e Simon (Matthew Goode), e seus amigos mais próximos que juntam suas famílias para o jantar de Natal em sua incrível residência no interior da Inglaterra. A reunião lembra os bons e velhos tempos, mas por trás de todas as risadas e alegria, algo não está certo. O mundo exterior está enfrentando uma destruição iminente, e nenhum dos presentes natalinos, jogos em grupo ou Prosecco fará a destruição que promete dar fim a humanidade ir embora. Sobreviver às festividades será desafiador.
Direção: Camille Griffin
Roteiro: Camille Griffin
Elenco: Keira Knightley, Matthew Goode, Roman Griffin Davis, Annabelle Wallis, Lily-Rose Depp, Ṣọpé Dìrísù, Kirby Howell-Baptiste, Lucy Punch, Rufus Jones, Trudie Styler

Sensações de estranheza e incômodo permeiam por toda a duração de A Última Noite. Elas nem sempre vêm de forma intencional por parte da diretora Camille Griffin, que também escreve o filme. Ambientado em algum lugar da Inglaterra, acompanhamos um grupo de amigos de longa data enquanto se preparam para uma reunião na ceia de Natal, organizada pela anfitriã Nell (Keira Knightley), junto da família composta pelo marido, Simon (Matthew Goode) e seus três filhos, entre eles o caçula Art (Roman Griffin Davis).

Já de início, o filme parece propor um humor ácido ao melhor estilo britânico, algo que soa adequado numa produção sobre reuniões familiares, onde mágoas e incômodos pessoais são externadas com proporções tragicômicas. Uma dinâmica ao melhor estilo Festa de Família (1998). No entanto, existe uma reviravolta nesse enredo: há uma iminente tragédia global prestes a acontecer, e estamos presenciando os momentos finais daquelas pessoas, que se reúnem uma última vez.

É curiosa a semelhança temática com o já citado Festa de Família, filme de uma das metades do movimento Dogma 95/Thomas Vinterberg, já que A Última Noite evoca também Melancolia (2011), filme da outra metade do movimento e de Lars Von Trier. É uma premissa intrigante. O problema é que existe uma indefinição sobre o que o filme de Griffin quer ser, algo que o prejudica não só como obra cinematográfica mas também nas questões problemáticas de tema e mensagem que acaba adotando.

A abordagem da câmera na mão, inquieta, aliada às falas toscas e desconectadas da realidade ditas pelos convidados, em que cada um representa um arquétipo popular, sugere uma sátira de desconforto num estilo como o da série The Office, talvez mais a versão original britânica de Ricky Gervais do que a norte-americana, popularizada por Steve Carrel. Aquela primeira versão se aproveitava do mockumentary em suas situações constrangedoras, porém era menos carinhosa com as tolices de seus personagens, estendendo as situações incômodas o máximo que podia ao ponto de o humor ceder lugar ao desconforto puro. No filme de Griffin, crianças e adultos proferem palavrões a torto e a direito, comentam sobre músicas e filmes populares, e fazem comentários estereotípicos de acordo com o arquétipo no qual estão inseridos.

Intrigas de interesses amorosos passados e não consumados, discussões familiares e ideológicas etc: existe uma artificialidade no texto que sugere uma certa exploração dessas dinâmicas das reuniões anuais e desinteressadas de família que torna tudo um tanto robótico. O contexto do cenário apocalíptico não é apresentado de início, e quando a revelação do iminente fim acontece, próxima ao segundo ato, devemos entender as emoções e atuações excêntricas até então. Mas o humor de constrangimento e as tentativas de um roteiro mais afiado que o filme propôs não funciona por uma certa previsibilidade do texto engessado. O filme pretende fazer uma espécie de plot twist com a revelação do fim do mundo e justificar a estranheza do diálogo que acompanhamos até então, mas ela em nenhum momento ficou tão clara para que uma pequena catarse de percepção intencionada ocorra.

A partir dessa revelação, A Última Noite gradualmente passa a querer transformar aquelas pessoas em indivíduos reais e não mais simulacros. O filme pretende se tornar um tipo de inspeção do luto e da ansiedade, de escolhas e culpas, mas não parece ter algum estofo para isso no texto pedestre. Ele se sai melhor nos momentos em que tenta explicitar o absurdo da rotina, condicionamentos do cotidiano e construções sociais que se tornam imutáveis mesmo diante de um cenário extraordinário, mas o comentário se perde na trilha sonora sisuda, nas tentativas de tornar a situação genuinamente dramática e comovente, incluindo situações que soam forçadas, como no caso da personagem grávida, ou a introdução da pílula cedida pelo governo para que essas pessoas cometam suicídio indolor. Como sátira, esse absurdo funcionaria, mas as tentativas de abrir uma discussão mais profunda e séria sobre os mal-estares da sociedade distópica falham muito por essa indefinição formal e tonal.

É a partir dessa revelação, também, que passamos a acompanhar a situação mais do ponto de vista do garoto Art (Griffin Davis). Temas como a fé incondicional nas fábulas que vem através da infância inocente e imaculada são comuns em filmes de Natal, e existe a intenção de fazer uma versão meio subversiva desse elemento aqui. O garoto questiona as informações sobre a pílula do suicídio indolor promovida pelo governo, pela mídia e pelos adultos. Chegamos à conturbada mensagem do filme, mas que deve ser discutida por tratar de questões que o próprio filme torna incômoda – e talvez você deva pular os parágrafos seguintes, caso se importe com spoilers: trata-se de uma produção feita antes da pandemia do Covid-19, mas que acaba, essencialmente, se tornando uma espécie de “filme anti-vax”, de uma forma torta e exagerada pelo próprio filme. A personagem grávida não quer tomar a pílula porque não quer “assassinar” o bebê que carrega, mesmo que ela e o feto morram sofrendo. O garoto Art se recusa a tomar pois diz que merece a “escolha” de fazê-lo. A revelação final de que todos estavam errados e que o garoto estava certo em não tomar a pílula, e o fato de o filme claramente encarar estes dois personagens como os únicos verdadeiramente virtuosos, espécies de compassos morais, torna tudo mais problemático.

Se essas questões existissem, mas se A Última Noite ainda funcionasse como obra independente delas, teríamos apenas um filme competente de forma isolada, mas repreensível. Porém, o filme salta de forma desajeitada entre apontar absurdos sociais, denunciar a mídia e governo manipulador, trabalhar angústias de personagens que não são pessoas de verdade, questionar a ciência, e tentar fazer uma espécie de comédia afiada, mas que também se leva a sério com a tentativa de um final comovente, embalando todos os presentes ao mesmo tempo de forma desajeitada e questionável, utilizando questões reais e anti-ciência para justificar seu filme sobre o poder de uma criança e fé natalina.

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