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Crítica: Listen – 45ª Mostra de Cinema de São Paulo

Crítica: Listen - 45ª Mostra de Cinema de São Paulo

Listen – Ficha técnica:
Direção: Ana Rocha de Sousa
Roteiro: Ana Rocha de Sousa, Paula Vaccaro, Aaron Brookner
Nacionalidade e Lançamento: Reino Unido, Portugal, 2020 (45ª Mostra de São Paulo)
Sinopse: Nos arredores de Londres, Bela e Jota, um casal de portugueses e pais de três filhos, luta para sobreviver. Quando ocorre um mal-entendido na escola com sua filha surda, os serviços sociais britânicos passam a ficar preocupados com a segurança das crianças.
Elenco: Lúcia Moniz, Sophia Myles, Ruben Garcia, Maisie Sly, James Felner, Kiran Sonia Sawar.

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É difícil não se lembrar de “Eu, Daniel Blake” ao assistir a Listen, filme da cineasta Ana Rocha de Sousa na competição Perspectiva Internacional da 45ª Mostra de Cinema de São Paulo. A luta do cidadão comum contra as forças do Estado, esse “leviatã” que opera os múltiplos sistemas opressores, sempre foi fruto de observação de diversos cineastas, tendo ganhado um particular destaque, recentemente, com o inglês Ken Loach.

O que a diretora portuguesa faz aqui é elevar o debate para além da população mais pobre e abrir discussão para o tratamento dado aos imigrantes – debate que ganha mais camadas em tempos de Brexit.

O casal português Bela (Lúcia Moniz) e Jota (Ruben Garcia) vive uma situação difícil na Inglaterra: com subempregos, eles têm dificuldade de prover o básico para os três filhos, enquanto se veem ameaçados pelo serviço social do país. A filha do meio é surda, e comunica-se apenas por meio de língua de sinais, especialmente depois que seu aparelho auditivo se quebra – e, sem dinheiro para comprar outro, a mãe se recusa a pedir algo a mais ao serviço social, evitando mais um ponto de desgaste nessa relação.

Há muito que se elogiar neste trabalho da cineasta Ana Rocha, como a forma naturalista com que ela filma, com algumas escolhas poéticas e pontuais que mostram a menina Lu abrindo os braços diante de um céu azul ou os personagens da casa sendo observados por uma lente distorcida de uma câmera fotográfica de brinquedo, talvez emulando a forma como o Estado britânico olha para todos eles.

Merecem elogios, também, as atuações de todo o elenco, que traz diferentes formas de encarar o poder do sistema e como reagir a ele: enquanto Diego segue o caminho da ilegalidade e Lu representa a fragilidade de quem depende apenas das decisões de outrem (bem como a irmã bebezinha), o casal também mostra uma dualidade: enquanto Jota entende que precisa seguir as ordens para conquistar algum direito, Bela tem um posicionamento mais ativo que, embora traga mais problemas, também confronta o sistema em suas raízes. Isso é interessante não apenas no momento em que ela faz a própria defesa diante do juiz, mas também na forma de lidar com uma jovem funcionária do serviço social: Jota diz que ela não tem culpa, pois estava fazendo o trabalho que lhe era devido, enquanto Bela coloca nela a culpa por ser parte do sistema – e os dois pontos de vista têm sua parcela de verdade.

O mais importante em “Listen” está, no entanto, na relação do título com as escolhas do filme. O verbo “ouvir” é claramente uma relação à fisicalidade da menina e ao problema que dá início à trama, mas também se refere à ideia relacionada à atenção. O que o serviço social não consegue fazer, aqui, é olhar para todos como seres humanos e tentar acolher suas necessidades: são apenas peças de tabuleiro que serão movidas conforme as opções burocráticas disponíveis. A própria situação que desencadeia a retirada da guarda das crianças para instituições poderia ser resolvida com uma conversa franca, e tal situação chega a parecer “forçada”, assim como a falta de um intérprete de língua de sinais para acompanhar os encontros dos pais com os filhos, mas certamente fazem parte dos acontecimentos absurdos que um sistema burocrático é capaz de gerar.

E como nada justifica as ações do Estado contra a família, é muito positivo que Ana Rocha tenha escolhido não contar muito sobre o que levou a família à situação em que estava, ou quais foram os problemas que desencadearam a relação desgastada com o serviço social. Também não é explicado se os filhos são consanguíneos ou adotados – e faz sentido que seja a segunda opção. Mas isso não importa.

Porque, no final das contas, são seres humanos que não estão sendo tratados com dignidade. Quando isso acontece, não importa muito a nacionalidade ou as escolhas prévias. Importa apenas ouvir.

  • Nota
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