Ícone do site Cinem(ação): filmes, podcasts, críticas e tudo sobre cinema

E a vida?

“O Cão Que Não Se Cala” é um filme marcante. Cheio de momentos engraçados, irônicos e até constrangedores, o filme argentino – em cartaz na 45ª Mostra de São Paulo – é na verdade um retrato muito sensível da vida.

O protagonista Sebastian tem uma cachorra. Apenas com imagens, vemos o quanto ele adora o animal. Mas animais vivem menos tempo que os humanos. E o protagonista segue vivendo. Se apaixona, se separa, perde o emprego, muda de vida.

No final, uma canção entoa os créditos. “Todo va a estar bien, solo una cosa por vez” (tudo vai ficar bem, uma coisa de cada vez).

Sebastian passa até mesmo por uma “pandemia”, naqueles tipos de premonições que os filmes fazem antes de algum acontecimento (já que ele foi gravado antes).

E mesmo assim, sofrendo com o vai-e-vem da vida, Sebastian está bem. Não é tudo que está bem, porque sua vida não é perfeita. Mas a vida é esse turbilhão de coisas que acontecem sem parar. Quando solucionamos um problema, surgem outros, e depois outros. E tudo vai ficando bem, “uma coisa de cada vez”.

No mesmo dia em que assisti ao filme, terminei de ver a minissérie “Missa da Meia-Noite”.

A produção de Mike Flanagan poderia não ter nada a ver com o filme da cineasta argentina Ana Katz, mas as reflexões que se convergiram mostraram que sim: é possível unir duas obras tão distintas.

Mesmo com tantos elementos apresentados ao longo das mais de 7 horas de conteúdo, um dos temas principais de “Missa da Meia-Noite” é a finitude da vida e seu sentido. No último capítulo, a personagem Erin Greene (Kate Siegel) faz um pequeno monólogo sobre o que ela acredita que acontece quando morremos:

“Eu me lembro que cada átomo do meu corpo foi criado em uma estrela. Esta matéria, este corpo é basicamente espaço vazio (…) Sou a energia ativando os neurônios, e estou voltando. Só de lembrar, estou voltando pra casa. Como uma gota d’água voltando pro oceano, do qual sempre fez parte”.

Estamos vivendo um sonho. Ou uma viagem com data e hora para acabar. E faz bem refletir sobre isso a partir de duas obras com objetivos tão longínquos.

A vida é isso: uma sequência de acontecimentos, muitas vezes aleatórios, que seguem um fluxo. E no fim, somos parte de um todo: uma grande massa de partículas de estrelas. E se há algo além da vida eu não sei.

Mas só de ter a oportunidade de refletir sobre ela e senti-la pulsando dentro de nós, seja de forma direta ou por meio da arte, a vida já vale cada segundo.

Sair da versão mobile