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Crítica: Um Forte Clarão – 45ª Mostra de São Paulo

Um Forte Clarão – Ficha técnica:
Direção: Ainhoa Rodríguez
Roteiro: Ainhoa Rodríguez
Nacionalidade e Lançamento: Espanha, 2021 (45ª Mostra de São Paulo)
Sinopse: Entre documentário e ficção, Um Forte Clarão (Destello Bravío) conta a história de Puebla de la Reina, uma pequena vila no coração de Badajoz, Estremadura (no centro-oeste da Espanha). Aparentemente parada no tempo, vivendo como se vivia nas gerações passadas, os vizinhos passam os dias presos entre as lembranças e os costumes antigos frente ao mundo globalizado, onde o folclore e as tradições antigas não parecem ter espaço.
Elenco: Isabel María Mendoza, Carmen Valverde, Isabel Valverde, Guadalupe Gutiérrez.

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A primeira cena de “Um Forte Clarão” remete, mesmo que sutilmente, a um ritual pagão. As bruxas, mulheres livres e donas de seus corpos, foram tolhidas continuamente pelas instituições patriarcais ao longo dos séculos. Em “Um Forte Clarão”, diversas mulheres vivem histórias de sofrimento e tentativa de libertação em relação aos homens.

A diretora estreante Ainhoa Rodríguez filma com a câmera estática, como uma observadora cautelosa que apenas se demora nas situações. Diferentes histórias são contadas em algumas cenas, que intercalam as histórias principais: da jovem que tenta se enturmar com alguns rapazes maldosos, da mulher que fugiu do marido, da que nem sabe como está seu casamento. Todas as histórias são de homens covardes, que abandonam e que as fazem sofrer.

No jantar das senhoras, o desejo fala mais alto: os corpos buscam por mais do que apenas o que lhes foi dado ao longo de suas vidas. A vontade de algo transcendental passa pela magia: por céus de cristal, voos em dragões: como se as bruxas dos tempos antigos estivessem sempre vivas, rondando a sociedade dominada pela Igreja. Não é à toa que há a procissão com Nossa Senhora: é essa a figura de mulher que norteia a sociedade e que se mistura com o que veio antes.

Mas Rodríguez não se preocupa em explicar demasiado. Apenas fixa a câmera em lugares por vezes distantes, e exibe os momentos como uma cronista. A cineasta estremenha tem uma visão que lembra a de seu compatriota Lois Patiño em Lua Vermelha – ainda que a Galícia seja outro território do mesmo país, e mesmo que Rodríguez seja menos hermética.

Em seus entrecortes de histórias, “Um Forte Clarão” consegue dizer muito. Mas, ao nos colocar na expectativa do misterioso acontecimento do título, também se faz na falta. Talvez o objetivo seja realmente de não concluir, como se o clarão fosse uma promessa nunca cumprida. Mas, assim como a águia da cena final, o próprio filme não voa tanto quanto poderia, limitando-se aos quatro cantos da tela e da sala de estar.

  • Nota
3
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