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Qual será o papel da hegemonia cultural após Afeganistão?

No último mês, o mundo assistiu atônito à retomada do grupo extremista Talibã ao Afeganistão, logo após o início da retirada das bases norte-americanas do país em 20 anos de um domínio que não resultou nada além de gastos públicos e demonstração de força da maior economia em curso. Mas, você já se perguntou qual será o papel da sua hegemonia cultural?

A pergunta talvez não faça muito sentido em um primeiro momento, mas é pertinente quando analisamos os últimos anos do mercado norte-americano e as batalhas enfrentadas para manter seus lançamentos na China e não perder o domínio da narrativa.

No entanto, a derrota no Afeganistão e a comprovação, mais uma vez, de que o país tem uma imagem em declínio perante a sociedade ocidental, me levanta a necessidade de indagar a pergunta.

Muito além de uma discussão geopolítica, a preservação de uma hegemonia cultural forte significa também a continuação do domínio de suas empresas de entretenimento no continente latino, preservando uma memória no seu público mais fiel sobre as grandes possibilidades da terra da liberdade.

Nesta semana, ataques terroristas na capital Cabul, por um grupo rival do Talibã, deixou ao menos 12 militares estadunidenses mortos e levou Biden a realizar uma pronta resposta já tão comum de se ver em líder norte-americano: uma nova ameaça de confronto bélico.

Em um mundo não tão distante da realidade atual, já tivemos o cinema hollywoodiano eternizando o sentimento de bravura, coragem e progresso através de filmes de guerra que se comprometem somente com a visão norte-americana dos fatos.

“Guerra ao Terror” foi condecorado como Melhor Filme no Oscar e não há absolutamente ninguém que não tenha gravado na mente a coragem de militares estadunidenses na caçada ao grande inimigo muçulmano.

Poucos, entretanto, devem se recordar do desastre causado pela guerra e dos motivos tão vis que fizeram o grande Tio Sam continuar controlando um país e um povo por anos, sem a chance de uma construção democrática até que fossem capazes de se alimentar por seus recursos naturais, levando assim uma riqueza ao imperialismo e uma miséria contínua a quem não é tão “importante” para ser um aliado.

O filme de Kathryn Bigelow não é o único produto audiovisual que podemos citar e que alimentou gerações inteiras com o sentimento patriota e a preservação da identidade cultural.

Alguns especialistas em geopolíticas citaram o fracasso no Afeganistão como algo semelhante ao banho de sangue da Guerra do Vietnã (o pior conflito bélico do último século, sem nenhuma razão de ser).

A partir da Guerra do Vietnã, o olhar crítico aos Estados Unidos surge de uma parcela importante da população. O modo de fazer cinema, música e toda expressão de arte se torna muito mais combativa ao que realmente significava democracia.

O cinema no mundo também estava mudando. O novo cinema latino-americano expunha em muitas obras o horror de ditaduras iniciadas por interferência dos Estados Unidos e até mesmo se comprometia em chamar atenção ao desastre no Vietnã.

As obras críticas e contestatórias na Nouvelle Vague renderam até mesmo a ida de importantes cineastas ao segundo inimigo dos Estados Unidos naquele momento: Cuba e a sua Revolução.

Os registros cubanos e vietnamitas fazem parte de muitos títulos dos cineastas da época, e a derrota dos Estados Unidos não poderia ficar sem uma resposta. O cinema dos anos 70 e 80 do país dão conta de produzir as obras certas, no momento certo para a manutenção da sua versão da guerra.

Se hoje você perguntar para as gerações mais jovens o que elas sabem sobre a Guerra do Vietnã, provavelmente a resposta não será tão crítica aos Estados Unidos, em um desconhecimento que foi alimentado por filmes muito bem-feitos, cujo propósito poderia até ser algo mais crítico, mas a mensagem é uma só: o poder e a bravura norte-americana precisam ser celebrados.

Você seria capaz de me explicar a Guerra do Vietnã sem inserir as alegorias políticas inclusas em títulos como “Apocalipse Now”?

Entrando, na era dos anos 2000 e 2010, essa perpetuação do discurso encontra nos filmes de super-heróis a sua manutenção para habitar o imaginário dessa mesma audiência mais jovem, e de quebra também ensinar a próxima a gostar do grande Capitão América salvando o mundo (lê-se Estados Unidos) de inimigos mortais encontrados no Oriente Médio, Ásia etc.

No entanto, essa perpetuação encontrou também uma parte dessa geração que já não engole muita coisa, fazendo com que os estúdios sejam obrigados a preservar uma certa ideia progressista em seus filmes ­–– mas mantendo o seu financiamento a partir das próprias Forças Armadas.

A pandemia e a revolta constante de países de primeiro mundo para regulamentar o streaming e evitar o avanço cada vez maior do produto norte-americano fez com que os Estados Unidos tivessem de recuar, abaixar a cabeça e tentar continuar o seu domínio por onde dava. Essa onda regulatória não vai ter um fim tão próximo: eu diria que ainda não vimos sequer o seu desenrolar de maneira definitiva.

O acesso à informação, cada vez mais ampliado, faz com que o país perca suas estratégias de preservação dessa hegemonia, mas no contexto socioeconômico é um país em franco declínio.

O que mais poderia gerar resultado hoje que não a história contada através de grandes diretores estadunidenses contratados sobre uma narrativa de poder, bravura e coragem para vingar seus mortos de extremistas islâmicos? O que pode ficar no imaginário de centenas de espectadores para as próximas décadas?

Arrisco dizer que, embora seja complicado conquistar os mais jovens que lutam por pautas sociais, ainda vivemos um franco domínio norte-americano no mercado cinematográfico, e ele não está feliz em ter que ceder espaço para outros cinemas combativos, diversos e profundos, que possam chamar muito mais atenção do que as velhas alegorias políticas.

Há quem diga que isso já foi superado com “Guerra ao Terror”, mas na “guerra do streaming” já podemos citar a preservação alegórica em séries populares como “Stranger Things”, importante caminho para preservação do sentimento “anti-Rússia” (e porque não ainda também antissoviético) ao público-alvo que desconhece, em massa, fatos históricos sem a chancela norte-americana.

Não arrisco dizer, entretanto, que a história de 20 anos de domínio do Afeganistão seja contada em filmes com o teor narrativo de séries como “Homeland”, mas ele encontra no streaming, no público ávido por mais super-heróis norte-americanos, a chance de contar fatos históricos sob um único olhar.

A falta de conscientização sobre a preservação da soberania cultural no terceiro mundo já nos custa caro, e é ela quem irá ditar sob qual domínio ainda vamos estar na próxima década.

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