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Crítica: Tempo

Como muitos já ouviram de suas mães, a única certeza nessa vida é a de que todos nós iremos morrer. Cresceremos, envelheceremos – se nos cuidarmos, com sorte, bem – e veremos nossos filhos e parentes sofrerem o mesmo efeito. Não há como escapar (ainda) do envelhecimento porque não há, é claro, como escapar do tempo.

A história em quadrinhos Sandcastle, de Pierre-Oscar Lévy e Frederik Peeters, aborda este tema com uma reviravolta: um grupo de pessoas viaja até uma praia deserta, e descobre que o local os faz envelhecer rapidamente. Crianças atingem a puberdade enquanto adultos se aproximam da senilidade em algumas horas, sem sinais de parar. Alguma força maior os impede de sair do local, e resta aos indivíduos – crianças e adultos – experienciar o fenômeno. Alguns poderão demonstrar uma incapacidade primal de lidar com a situação. Outros podem aceitar o destino, tentando aproveitar o tempo restante que possuem com os entes-queridos. Com um final reflexivo, que não se preocupava em responder questões levantadas, a obra de Lévy e Peeters resultava numa meditação sensível e até mesmo deprimente sobre o os efeitos do tempo e sobre envelhecer. O tempo nunca para.

Em Tempo (Old no título original), mais novo filme do cineasta M. Night Shyamalan que adapta a HQ Sandcastle, o que também não para é a câmera do diretor, que, com a ajuda de seu diretor de fotografia Mike Gioulakis, percorre rapidamente o quadro, faminta por registros. Ela acompanha duas crianças brincando na praia, dança junto delas; continua passeando ao encontro de uma garota entrando no mar; viaja rapidamente até um casal que discute e assim por diante, frequentemente em tempo real, sem cortes. Até mesmo o incidente onde uma personagem tem um episódio de convulsão, antes mesmo de estarmos na praia, é registrado dessa forma, e serve para “nos ajustar” à lógica visual que adotará ao resto da projeção.

É uma abordagem acertada, e que não foge muito da proposta de um cinema sensorial já explorado pelo cineasta, que desde o início de carreira se pauta não só pelo intangível conceitualmente (Deus/Aliens de Sinais, os “superpoderes” da trilogia iniciada em Corpo Fechado, os monstros de A Vila, e assim por diante), mas como isso se estende nos registros, na própria tela/quadro. É esse cinema de acreditar, o cinema da fé no fantástico e no extraordinário, o “ver para crer” que eventualmente se materializa na tela, com os plot twists pelo qual ficou conhecido, que eram à sua própria maneira a confirmação dessas crenças. Registrando os efeitos que os seus personagens passam dessa forma tão imediatista, é como se o tempo fosse a própria câmera.

 Shyamalan expande os conceitos da HQ de forma criativa. Se o material de origem explora apenas o conceito inicial do envelhecimento, aqui o roteiro de Shyamalan expande tais conceitos. E se um personagem fosse ter Alzheimer quando mais velho? E se um deles tivesse um tumor? Como a mente e o corpo deles reagiria diante desta situação? Assim, essa exploração rende sequências que se entregam praticamente ao body horror, com uma em específico se tornandodas mais eficazes nos últimos tempos, filmada dessa forma ininterrupta, que tortura e agoniza. Porém, mesmo que seus personagens sintam no corpo os efeitos torturantes do tempo, de forma frequentemente – e eficientemente – gráfica, ainda temos figuras interessantes que se elevam pela escalação de elenco, como visto na família principal: o casal interpretado por Gael García Bernal e Vicky Krieps, e Alex Wolff e Thomasin McKenzie, que vivem os filhos durante a maior parte da projeção.

Em entrevista recente para a divulgação de Tempo, Shyamalan revelou que os filmes preferidos que ele dirigiu são aqueles que possuem rebarbas, que não têm medo de serem excêntricos, com um senso de humor muito particular e estranho. Ele cita filmes como A Visita e Dama na Água, dizendo, inclusive, que Sexto Sentido – provavelmente seu trabalho mais bem-recebido – é quase que “polido demais”. “existe um decoro, uma pompa”, diz o cineasta. Gostem ou não, Shyamalan e seu cinema parece se elevar justamente quando o diretor se entrega à suas sensibilidades plenamente, como faz neste Tempo, algo que não se restringe apenas aos diálogos que deixam a audiência sem saber se deve rir ou não do que foi dito (algo que já parece ter se tornado uma marca registrada do diretor), como nas frases de efeito do Rapper “Mid Sized Sedan” (Aaron Pierre). Aqui Shyamalan equilibra essa estranheza, esse ridículo, de forma muito satisfatória.

Após as palavras de Shyamalan na entrevista, fica muito evidente que o diretor volta com conforto e liberdade ao tipo de cinema que deseja fazer. Sandcastle é uma HQ “de arte”, e Tempo poderia também ser um filme que escolhe esse caminho “de grife”, de “decoro”, como diz o cineasta sobre o filme que o alçou ao status de “o novo Hitchcock” na época. Definições sensacionalistas à parte, que bom que Shyamalan nunca esteve mais Shyamalan, e Tempo se torna o filme de mistério com final conclusivo, numa reviravolta que nem parece tanto uma reviravolta, pois as forças manipuladoras da trama ficam evidentes desde o início e o diretor não se preocupa em esconder pistas. Esse twist não existe para fornecer apenas alguma resposta satisfatória para audiência, mas quase como um compromisso com o que foi mostrado mais cedo, e é só uma questão de lógica que o filme siga por esse caminho, uma questão de tempo. Mas isso não quer dizer que não se extraem reflexões profundas e tocantes. A poesia de Shyamalan se encontra e se completa, como em seus melhores filmes, visualmente, e voltamos para a abordagem dessa câmera dançante, do olhar passeante de Shyamalan que atinge o ápice numa cena onde o a câmera, num vaivém, registra um dos momentos de maior potência deste filme: um momento que não pretende impor tensão como em tantos outros nesta obra, mas causar justamente a reflexão sobre vida, morte e aqueles que amamos, esse vaivém igual à maré da praia onde eles se encontram presos. O diretor observa seus personagens aqui de forma literal, já que, aos costumes do resto de sua filmografia, concede a si mesmo um papel como ator. Se muitos personagens aqui sofrem destinos terríveis, seria ótimo se todos nós pudéssemos envelhecer sob o olhar de Shyamalan e toda a dignidade que o mesmo dá para os personagens de Gael García Bernal e Vicky Krieps: sendo amados.

  • Nota
4
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