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Crítica: Um Lugar Silencioso Parte 2

(Um Lugar Silencioso Parte 2 teve sua estreia adiada de 24 de junho para 15 de julho)

Em busca de Sentido

Um Lugar Silencioso (2018) era um terror eficaz. A premissa de um mundo tomado por forças alienígenas intolerantes a qualquer tipo de barulho criava possibilidades atraentes para a narrativa, possibilidades que eram exploradas com segurança pelo diretor John Krasinski, que também atuava no filme ao lado de sua esposa na vida real Emily Blunt. Equilibrando um cinema de terror comercial, com um que soava mais artístico pela própria necessidade narrativa, que pedia por momentos de comunicação e emoções silenciosas que dependiam totalmente de uma contação visual competente e criativa até mesmo nas exposições de roteiro, Krasinski obtinha sucesso na tarefa, num filme de grande atmosfera, sustentado pelo bom elenco. A experiência dentro da sala de cinema, envolta de silêncio coletivo , sem intrusão de pessoas mexendo no celular ou conversando, adicionava tensão ao filme, que foi um sucesso de bilheteria. Não tardou para que uma sequência fosse anunciada.

Um Lugar Silencioso Parte 2 chega aos cinemas no meio da pandemia, sem o prazer que poderia vir em compartilhar os medos vistos no telão com uma grande audiência, sentindo no ar a tensão coletiva impregnando a sala (no entanto, não é difícil de imaginar que a sala vazia possa na verdade possibilitar aos egoístas mexer ainda mais no celular). Porém, dentre as coisas que se percebem nesta segunda parte, uma é que este é um filme consideravelmente mais barulhento que o primeiro, e a outra é que a Parte 2 parece viver à sombra da primeira, procurando justificativas para sua existência.

Prova dessa busca por justificativa é o próprio começo da obra, que volta até o primeiro dia da invasão alienígena, explorando como a família Abbot reagiu ao ataque, algo não mostrado no eficientemente econômico primeiro filme, que já começava um ano após a invasão. A sequência é conduzida de forma eficiente por Krasinski, mas parece existir apenas para apresentar Emmet, vivido por Cillian Murphy, e fazer mais uma referência ao primeiro filme, começando no mesmo supermercado que a produção de 2018, em circunstâncias diferentes.

Com seu lar destruído após os eventos do primeiro filme, a família Abbott, agora composta por Evelyn (Emily Blunt), Regan (Millicent Simmonds), Marcus (Noah Jupe) e o caçula recém nascido procuram um novo lugar para se instalar, e um acidente faz com que eles cruzem o caminho de Emmet (Murphy). O novo personagem se beneficia mais pela interpretação de Cillian Murphy, melhor ator que Krasinski (que aqui pode focar seus esforços apenas na direção do roteiro, que assina novamente). Ele eleva o material, e torna as dores do traumatizado Emmet mais complexas com sua presença. Ciente de que uma das melhores qualidades do primeiro filme era a relação de Regan com o pai Lee, Krasinski utiliza Emmet como a figura paterna da vez, e a relação do sujeito com Regan é o ponto mais interessante do longa. Como visto no primeiro filme, a deficiência auditiva de Regan se tornou a arma mais potente contra as criaturas, e as noções de sua deficiência não como um empecilho, mas sim uma dádiva neste contexto, são amplificadas, tornando-a uma espécie de salvadora.

Com o visual das criaturas revelado no primeiro filme, Krasinski escancara os monstros já no início. Mostrá-los de forma tão frontal poderia ser perigoso justamente por evidenciar o aspecto digital de suas renderizações por computação gráfica, mas o diretor é eficaz em retratá-los na forma que se movem – retorcida e um tanto desengonçada -, tornando os ataques imprevisíveis dos mesmos quando na presença de barulho algo perturbador.

Percebendo que o atrativo de cenas do tipo “se esconder e não fazer barulho” podem se tornar repetitivas após um tempo – e este segundo filme possui sua parcela de referências ao primeiro filme – resta a Krasinski tentar adicionar algum desenvolvimento de personagem ou conflitos externos à trama, eventualmente adentrando na cartilha pós apocalítica de que algumas pessoas se tornam monstruosas nestas situações. Felizmente, evitando um discurso mais verborrágico, tal noção entra aqui como mais uma forma do diretor construir uma sequência de tensão que liga um ato ao outro, sabendo que o discurso vem da força do que é mostrado na tela em ações.

Porém notam-se os esforços de Krasinski atrás de sentido e conflito para sua trama. É uma trama “simples” – isso nunca foi problema – de ir do ponto A até o B, executada de forma competente. Ele separa os personagens (algo que enfraquece a trama, em acontecimentos paralelos que carecem de melhor ritmo), aumenta os conflitos e escopo das cenas de ação (é uma continuação e é Hollywood, no final das contas) e faz o melhor para extrair as melhores sequências destes, olhando mais para os arcos de personagens de Regan e Marcus como resistência. Se no nascimento do caçula da família Abbott no primeiro filme residia um peso dramático muito forte, como se o destino da humanidade dependesse daquele parto, essas ideias reverberam neste filme, que trata a imposição dos irmãos diante dos aliens como um momento chave da trama.

Mas essa jornada de constatação da deficiência de Regan como algo que a tornava especial e mais forte já havia sido consumada no primeiro filme. Krasinski parece acreditar que o final da parte 2 consegue se sustentar diante dessa situação com Regan muito semelhante à primeira. Um Lugar Silencioso Parte 2 se torna muito melhor nos momentos sensoriais em que o mundo é visto e sentido do ponto de vista da garota. É um final que evoca o gigante A Vila, de M. Night Shyamalan. Porém, enquanto naquele filme a trajetória da deficiente visual Ivy e o triunfo sobre suas dificuldades nos levava a um final conclusivo independente das reviravoltas à parte de sua jornada individual (a alma do filme), neste filme a jornada de Regan se presta a um final aberto para a eventual parte 3, o que é apenas frustrante.

  • Nota
3
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