Site icon Cinem(ação): filmes, podcasts, críticas e tudo sobre cinema

9 motivos para assistir The Underground Railroad

No dia 14 de maio, estreou na Amazon Prime Video a série (ou minissérie) “The Underground Railroad: Os Caminhos para a Liberdade”. Dirigida por Barry Jenkins (Moonlight e Se a Rua Beale Falasse), a série é baseada no livro homônimo de Colson Whitehead, que lhe rendeu o prêmio Pulitzer.

Se Barry Jenkins já é um diretor consagrado após vencer o Oscar de Melhor Filme por Moonlight, a série The Underground Railroad só prova que um grande cineasta não precisa de uma extensa filmografia para se destacar – e vale lembrar que ele também foi responsável pelo melhor episódio da série Cara Gente Branca.

Na série The Underground Railroad, acompanhamos a trajetória de Cora, uma jovem escravizada nos Estados Unidos do século 19, que foge da fazenda através de uma estrada de ferro subterrânea, mas passa a ser perseguida incansavelmente. É uma ficção histórica que leva ao pé da letra a rede de trilhas e esconderijos usados por pessoas que fugiam da escravidão: era chamada de “railroad” (ferrovia), mas nunca houve de fato um trem subterrâneo.

Para convencer mais pessoas a assistirem à série, decidi listar alguns motivos para isso – e que podem ser combinados a este vídeo da Carissa Vieira.

1- Não explora a violência sem motivo

É claro que uma obra sobre o período da escravidão trará momentos de violência. Afinal, foi com base na violência que se fundou a sociedade americana (e a brasileira também). No entanto, a forma como Barry Jenkins escolhe filmar os momentos de violência é sempre centrada no horror do acontecimento e no sofrimento das vítimas. Ao contrário de muitos diretores, que não hesitariam em dar ênfase aos golpes de chicote e aos gritos, Jenkins muitas vezes volta sua câmera para as pessoas que assistem, para a indiferença de alguns, e ainda sabe o momento de cortar, sem se demorar nas cenas.

2- É poético

Ainda que a série ocorra em um dos períodos mais tenebrosos da história, Barry Jenkins extrai momentos bonitos e delicados. Há luzes entrando o tempo todo e “abraçando” os corpos das pessoas. Há amor, carinho e afeto que consegue transbordar da tela em alguns momentos. Até momentos difíceis, como a morte de um homem já enfraquecido e muito magro, são feitos de forma a nos fazer refletir sobre a dor e o sofrimento.

3- Toma seu tempo (e deve ser visto aos poucos)

The Underground Railroad não é uma série boa para maratonar e assistir em um só dia. Além do clima pesado, que pode exigir algum tempo de “respiro” entre os episódios, ela tem um ritmo mais lento. A série toma seu tempo para contar as histórias que precisa contar. Não é só para acompanharmos a trajetória de Cora, mas para sentirmos o frio da noite em um acampamento improvisado, o tédio de ter que se esconder em um sótão, a dor de tantas mazelas que se somam à vida da protagonista.

4- Mergulha na realidade americana

Mesmo sem ser uma série com fatos reais, ela faz jus ao livro original e retrata de maneira fiel a cultura americana da época. O ambiente, a maneira de pensar das pessoas, e até mesmo a o clima de horror em uma uma cidade de fundamentalistas religiosos. Tudo remete a questões históricas. Com o tempo que a série leva para contar sua história, conseguimos visualizar diversos elementos culturais importantes. Considerando que a história do Brasil tem muitas similaridades, é possível filtrá-las e pensar também na realidade do Brasil.

5- Conta a História mesmo sem ser uma trama “real”

Revisitar a história não é algo que precisa ser necessariamente relacionado a fatos. A história de um povo está mais relacionada às narrativas. Obras como A Ilíada, Os Lusíadas, Epopeia de Gilgamesh e o Mahabharata são exemplos máximos de narrativas que fundaram as sociedades grega, portuguesa, suméria e indiana, respectivamente, criando elementos de conexão em seus povos que transcendem a História e os fatos.

Em uma entrevista, o autor do livro Colson Whitehead declarou que se preocupa mais em passar a verdade do que os fatos. É possível ver isso no episódio mais curto da série, que busca explicar o que ocorreu com a menina Grace. Ao tentar escrever seu testemunho em um livro que circula no trem fictício, ela comenta que deixou as histórias do outro livro para trás, ao que é respondida: “aquele livro é só tinta e papel, nossas histórias sempre estarão aqui” (e aponta para o coração). Afinal, o que Colson Whitehead e Barry Jenkins estão fazendo é recontar a história de seus antepassados, ainda que esta tenha sido apagada. Muitos fatos foram apagados, mas a verdade é indelével: basta que seja buscada. É para isso que servem as narrativas.

6- Tem personagens profundos

É impressionante como todos os personagens de The Underground Railroad são bem delineados. Mesmo aqueles que surgem em poucas cenas têm tempo suficiente para que possamos compreender suas motivações, seus sonhos e suas questões. Arnold Ridgeway, o vilão de Joel Edgerton, tem um episódio inteiro sobre sua juventude, e o jovem Homer vivido por Chase Dillon tem seu passado explicado o suficiente para que compreendamos como ele enxerga Ridgeway como uma figura paterna. Por fim, é claro, a protagonista vivida por Thuso Mbedu carrega consigo todo o peso e a tristeza de quem sofreu tanto, mas sempre com a energia pulsante de quem enxerga a possibilidade de resistência.

7- Não é condescendente com os brancos

Tente se lembrar de todos os filmes “de época” que você já viu e note como, geralmente, a produção é condescendente com os brancos. Sempre há personagens brancos que são os “bons” e fazem contraposição aos “maus”, como se a ideia fosse reproduzir a mensagem de que “nem todo branco” era um escravagista insensível, sendo que na verdade… eram, sim! Em The Underground Railroad, todos os brancos reproduzem o racismo sistêmico, como o juiz que não faz nada – e nem se sente mal – diante de assassinatos, ou o pai de Ridgeway, que reproduz uma estrutura racista mesmo em sua fazenda com empregados livres.

8- Apresenta e reapresenta ótimos atores

Muitos atores da série são pouco conhecidos do grande público. É possível citar alguns que entregam performances impactantes e que podemos esperar ver em mais filmes, como Sheila Atim, que faz a mãe de Cora e tem um olhar poderoso (e estará na adaptação de Pinóquio de Guillermo del Toro), e Aaron Pierre, que transmite a doçura necessária de seu personagem, combinada com a imponência de seu porte físico (e estará no próximo filme de Shyamalan). Apesar de já terem carreiras com mais produções, vale a pena citar a presença acalentadora de William Jackson-Harper (da série The Good Place) e o poder do discurso de Peter De Jersey no penúltimo episódio.

Mesmo assim, é a protagonista Thuso MBedu que demonstra absoluto controle de seu corpo e seu olhar para mostrar uma personagem capaz de carregar todo o sofrimento e abandono que acontece em sua vida. A atriz sul-africana estará ao lado de Viola Davis em seu próximo filme.

9- Demonstra a importância da estética na narrativa

Por fim, é fundamental falar sobre a estética de Barry Jenkins. O diretor filma com luzes, enquadramentos e closes que valorizam o humano e respeitam o corpo negro. Assim, ele não apenas trabalha com uma narrativa que reescreve a história do povo afro-americano, como também consolida uma estética, já utilizada em Se a Rua Beale Falasse e Moonlight, de forma a utilizá-la em favor dessas narrativas. É essa união entre narrativa e estética que tornam The Underground Railroad uma obra importantíssima para a busca da sociedade atual por uma visão da História que permita compreender os dias atuais de forma mais completa.

Sair da versão mobile