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O conta-gotas do cinema é vacina ou placebo?

Cinema vazio com uma pessoa

Às vezes, fico me perguntando se isso aqui serve para alguma coisa. Isso aqui: este site, o podcast que lançamos toda semana. O que estamos promovendo? O que as pessoas estão aprendendo? Será tudo isso uma semente para mudanças positivas no mundo? Ou é só entretenimento, mesmo? (o que não seria um problema, já que não há mal nenhum no entretenimento per se).

Enquanto me questiono, notícias desanimadoras das mais diversas invadem nossos dias, como a tentativa de golpe na democracia (supostamente) mais pujante do mundo, crescimento do fascismo, entre outros momentos de ignorância e falta de valorização do ser humano e das diferenças.

Há quem não entenda a importância de uma vacina, pasmem! Há quem acredite que uma vacina feita em um país específico não é confiável.

Mas vacinas são importantes, e não do ponto de vista do indivíduo. Mais importante do que uma pessoa imunizada é um coletivo de imunizados. E não basta imunizar uma vez: é preciso repetir as doses frequentemente e mantê-las atualizadas. Trata-se de um trabalho de médio e longo prazo.

Talvez seja o mesmo com o cinema.

Talvez isso aqui tudo seja uma espécie de vacina.

Mas preciso explicar como cheguei a esse pensamento.

Imunidade contra a ignorância

Eu estava assistindo ao filme Mank, de David Fincher, quando em determinado ponto da trama que conta a história do roteirista Herman Mankiewicz e os bastidores da escrita do roteiro de “Cidadão Kane”, um dos mais importantes filmes de todos os tempos. Em certo momento, os principais personagens discutem a ascensão de Hitler na Alemanha e tecem comentários que certamente foram feitos à luz dos acontecimentos recentes nos Estados Unidos, resumidos no nome de Donald Trump.

Corta.

Em entrevista para o podcast Cinema na Varanda, a organizadora da Mostra de São Paulo, Renata de Almeida, disse que resistiu a criar tags para os filmes do festival na plataforma online porque, segundo ela, o homofóbico deve ser surpreendido por um filme LGBTQ, o racista pelo filme protagonizado por negros, o machista pelo filme feminista.

Parece-me que os homofóbicos, machistas e racistas passam longe de festivais de cinema, mas entendo o que ela quer dizer.

Corta.

Eu já fui um jovem repleto de preconceitos. Quando entrei na faculdade, eu era contra o sistema de cotas (“tem que mudar a educação na base”, repetia aquele adolescente de 18 anos que hoje desconheço).

Eu não sabia de nada da vida, não compreendia que o mundo podia ter visões diferentes da minha, e tinha dificuldade em entender aqueles que não haviam tido os privilégios que eu tive.

No entanto, não mudei de repente. Minha forma de ver o mundo hoje não foi mudada porque tive uma epifania ao ler um livro, nem porque alguém me sacudiu até que meu cérebro se encaixasse de maneira diferente em meu crânio.

Eu nem me lembro de como mudei minha forma de ver o mundo. Mas algumas situações me vêm à memória.

Corta.

Lembro-me de refletir sobre transgêneros ao ver um filme de Pedro Almodóvar nas exibições de um espaço cultural, e de compreender que Cuba era muito mais que uma “ditadura tirana” ao assistir ao documentário “Buena Vista Social Club” na faculdade. Aprendi muito sobre feminismo no dia a dia das redes sociais, lendo um artigo aqui, um tweet ali, uma “treta” acolá.

As coisas vêm em conta-gotas.

Como se fosse uma vacina que precisasse se repetir em doses diárias.

Será que o cinema é inútil?

Seria muito ingênuo da minha parte acreditar que as pessoas que assistem a muitos filmes necessariamente passarão por algum processo de melhora na empatia em relação àqueles que lhes são diferentes. Quadrinhos, livros e outras obras podem fazer exatamente o oposto. São bons exemplos disso os “nerds” que reclamam de mudanças em grandes franquias, utilizando expressões como “mimimi”, “tudo é política”, “lacração”, entre outras.

Então, de fato, cada vez mais estou convencido de que a arte, por si só, não necessariamente torna as pessoas ao seu redor mais sensíveis, ou sequer amplia suas visões. Mas também não é um placebo que não causa nenhum efeito. Afinal, o simples impacto que uma imagem pode causar, por si só, já é importante, vide o caso do ex-prefeito do Rio contra histórias em quadrinhos ou aqueles episódios de alguns anos atrás envolvendo imagens de nudez em museus.

Arte causa incômodo, provoca. Mas sozinha, pode não servir de muita coisa.

É o debate e a conversa constante que podem de alguma forma combater a ignorância, a mente fechada e a intolerância.

Não falo, aqui, de questões políticas extremamente profundas. Nem ousaria discutir os rumos da economia mundial ou refletir sobre profundas questões filosóficas com meu parco conhecimento. O que me preocupa é a falta de empatia e de valorização da ciência e da verdade.

Não me importa que haja discordância de visões políticas. É aceitável que haja pessoas contrárias à descriminalização da maconha, ainda que eu seja favorável, assim como é normal que a sociedade discuta a melhor forma de financiar as universidades públicas, mesmo que eu acredite em uma única maneira realmente justa de fazê-lo.

O problema é que haja pessoas que se enclausurem em seus próprios mundos e, assim, se prendam a uma crença que não corresponde à realidade do mundo. São essas pessoas que não nutrem empatia por aqueles que lhes são diferentes. São também essas pessoas que negam a ciência e a apuração de fatos.

Pequenas sementes

Para que o cinema abra nossos olhos e a arte nos permita alargar nossos horizontes, faz-se necessário discuti-la. Debatê-la. Conversar.

Quem sabe alguém pouco afeito à diversidade possa se questionar após ver “Dor e Glória” ou “Com Amor, Simon”, que seja. Quem sabe uma rápida cena do novo filme de Fincher possa abrir uma fresta de luz na mente de alguém que nunca abriu a janela. Talvez, após uma discussão banal sobre Star Wars ou X-Men, alguém possa se dar conta de que mulheres podem ser tão fortes quanto os homens.

Assim, sementinhas vão sendo plantadas com o que parecem se apenas conversas sobre filmes. Pequenas gotas vão umedecendo a secura da ignorância, permitindo que terras áridas se tornem mais férteis e fortalecendo a imunidade do mundo contra o egoísmo, a truculência e o obscurantismo.

Nem sempre funciona. Mas se tiver eficácia de 50%, já vale a pena.

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