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Crítica: Casa de Antiguidades – 44ª Mostra de São Paulo

“Casa de Antiguidades” é uma avalanche de simbolismos.

Ficha técnica:
Direção: João Paulo Miranda Maria
Roteiro:  João Paulo Miranda Maria
Nacionalidade e Lançamento: Brasil, 2020 (44ª Mostra de São Paulo)
Sinopse: Cristovam é um “caipira” do interior do Brasil que busca em outras terras melhores condições de trabalho. Mas, o contraste cultural e étnico da nova morada em relação à sua terra natal provoca no vaqueiro um processo de solidão e perda de identidade. Boatos e maldades dos habitantes locais o levam ao desespero e a decisões equivocadas, fazendo-o perder a razão e a lucidez. Sem saída, ele passa a reviver o passado para suportar o presente.

Elenco: Antonio Pitanga, Ana Flávia Cavalcanti, Sam Louwyck, Aline Marta Maia, Gilda Nomacce.

“Casa de Antiguidades” é o tipo de filme que precisa ser estudado e visto mais de uma vez para buscarmos todos os seus significados possíveis. Na primeira cena, vemos Cristovam em uma roupa especial utilizada na empresa de laticínios: ele busca novas luvas porque as suas estão furadas: o estrago não está apenas nelas, mas em sua conexão com sua ancestralidade.

O homem negro que vive em uma cidade majoritariamente branca do sul do Brasil é ameaçado e acuado a todo tempo. Vive deslocado. O motivo para ele permanecer é dito logo no começo: dinheiro. Afinal, é onde ele tem seu emprego.

Em ritmo lento, João Paulo Miranda Maria conduz uma enxurrada de simbolismos. Cristovam vê elementos da cultura afro-brasileira na janela do lugar em que passou a viver: uma casa abandonada que intitula o filme. Aos poucos, ele vai encontrando elementos que o conectam com quem ele realmente é. “Casa de Antiguidades” não é do tipo de filme que cai no gosto de qualquer um.

A raiva do protagonista com os acontecimentos vai se acumulando. O cachorro atacado, o menino que anda armado e a campanha separatista são alguns dos acontecimentos que o incomodam. Aliás, é essa campanha que coloca “Casa de Antiguidades” no lugar da sátira e da representação. A sociedade que fala alemão e a ambientação da cidadezinha torna o filme levemente deslocado no tempo, sempre no âmbito da representação. Talvez por isso as conversas sejam breves e estranhas.

É o berrante e a bota que conectam Cristovam com o Brasil sertanejo. O Brasil amplo, para além de seu “cone sul” que deseja se tornar um país livre “dos preguiçosos”. Tocar o berrante é sua maneira de dizer o que está engasgado, de aparecer. O passo seguinte é tornar-se boi, tornar-se bicho, e rebelar-se nem que seja para sofrer ataques da sociedade que o nega.

No fim das contas, se sua história será mantida ou se seu corpo será apagado, cabe a quem tem o futuro nas mãos.

  • Nota
3.5
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