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Crítica: Bem-Vindo à Chechênia – 44ª Mostra de São Paulo

“Bem-Vindo à Chechênia” é um filme pesado e necessário, mas não indicado para pessoas sensíveis a cenas fortes.

Ficha técnica:
Direção:  David France
Roteiro:  David France, Tyler H. Walk
Nacionalidade e Lançamento: Estados Unidos, 26 de janeiro de 2020 no Festival de Sundance (44ª Mostra de São Paulo)
Sinopse: O documentário nos leva para dentro do trabalho de um grupo clandestino de ativistas que enfrentam enormes riscos para resgatar vítimas LGBTQ da brutal campanha governamental da Chechênia. A república, que faz parte da federação russa, é um local onde a comunidade LGBTQ vive sob medo, ameaça de detenção, tortura e morte por parte das próprias autoridades. As imagens trazem à tona atrocidades pouco relatadas e os perigos de expô-las publicamente.

“Bem-vindo à Chechênia” é um soco no estômago. É o tipo de documentário que consegue deixar o espectador abalado por muito tempo. Há diversos motivos para isso, portanto busco refletir sobre eles separadamente. O tema mais polêmico, curioso e inovador ficará por último.

A temática

É claro que um documentário pode ser excepcional apenas por seu estilo e forma, mesmo quando trata de um tema banal ou fútil. No entanto, o fato de uma produção documental falar sobre algo importante e impactar o mundo real certamente a torna mais relevante.

“Bem-vindo à Chechênia” conta a história de uma organização que ajuda pessoas LGBTQs a escaparem das perseguições promovidas e/ou negligenciadas pelo governo da Chechênia, na Rússia. Há prisões semelhantes a campos de concentração, além de tortura e assassinato de pessoas pelo simples fato de não serem heterossexuais. As primeiras acusações ocorreram em 2017 e abriram os olhos do mundo para o que ocorre na região. Até hoje as autoridades negam.

O documentário, americano, não hesita em mostrar Vladimir Putin como um fantasma a assombrar as minorias. O líder da região, Ramzan Kadyrov, é mostrado em uma entrevista na qual diz palavras que mostram o tipo de pensamento grotesco que ele tem.

Assim, apenas pelo retrato que oferece, “Bem-vindo à Chechênia” já se destaca e merece atenção.

A narrativa

“Bem-vindo à Chechênia” é centralizado nas ações de dois ativistas que se esforçam diuturnamente para levar pessoas LGBTQs sob a mira de agentes chechenos a outros países ou a um abrigo em Moscou.

O clima de tensão é constante por diversos motivos: pela violência retratada em alguns vídeos interceptados e exibidos no começo; por um acontecimento repentino na casa que aumenta o sentido de alerta; e porque a realidade mostrada deixa claro que todos estão de fato muito vulneráveis.

“Bem-vindo à Chechênia” escolhe contar as histórias de alguns refugiados: a filha de um político que precisa se isolar, um homem determinado a viver com seu namorado, e um checheno que consegue ir ao Canadá. A montagem alterna as histórias e se preocupa em amarrar todas as pontas, e inclui questões como o cansaço dos ativistas e seus problemas pessoais.

Vale destacar, aqui, a atenção que a câmera dá para as mãos, demonstrando o carinho do toque entre as pessoas. Em uma das mãos, uma tatuagem nos dedos escreve as irônicas palavras “game over”.

Em outro momento, a mãe de um dos refugiados, mais velha, faz uma afirmação a ser pensada: “acontece em todos os países, alguém chega ao poder e abusa dele”. Com sua idade, não deve ser a primeira vez que ela se depara com governos autoritários a perseguirem minorias.

A escolha técnica de mudança facial

Diversas pessoas retratadas no documentário não podem expor seus rostos, justamente porque são perseguidos mesmo estando fora do país. Quando isso acontece em documentários, normalmente nos deparamos com rostos borrados, olhos com faixas pretas, entre outras escolhas. No entanto, “Bem-vindo à Chechênia” opta por modificar os rostos digitalmente – utilizando faces de voluntários e a tecnologia chamada deepfake.

A princípio, pareceu-me exagerado. Afinal, ainda que esse tipo de tecnologia esteja avançado, o fato é que o famoso “vale da estranheza” se faz presente a todo tempo no documentário. Olhos sem expressão, faces borradas e falhas em momentos de movimento brusco são algumas das imagens que geram estranhamento.

No entanto, há dois motivos que me levaram a aceitar e entender a escolha:

O primeiro é o uso político positivo da tecnologia. Enquanto o deepfake realizado em filmes hollywoodianos parece apenas aproveitar para continuar lucrando apesar da morte de atores, e enquanto tantos podem fazer uso antiético da técnica, aqui vemos sua aplicação focada em esconder rostos e manter a nossa proximidade com eles. Ora, será que conseguiríamos nos afeiçoar a uma pessoa com o rosto totalmente borrado?

O segundo motivo é o uso narrativo. Um dos refugiados decide fazer uma denúncia para a imprensa e as autoridades. Enquanto todos os outros têm medo de se expor, ele o faz. Antes de tomar essa decisão, vemos seu rosto modificado digitalmente em todas as cenas: é no momento de sua revelação que assistimos ao desaparecimento do efeito e seu rosto real, além de um novo letreiro para indicar seu verdadeiro nome. Ou seja, a tecnologia tem também a função de revelar um ponto de virada. Considerando que os rostos modificados parecem uma “amarra” às pessoas, a cena tem até mesmo o sentido de libertá-lo.

Muitos podem argumentar que haveria outras opções e que essa não foi a melhor delas. Mas qual seria a solução ideal?

A solução ideal seria que pessoas LGBTQs não fossem perseguidas.

  • Nota
5
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