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O problema do regresso às filmagens em meio a pandemia

Nas últimas semanas a internet foi acometida por algumas notícias sobre o regresso das filmagens nos Estados Unidos e o contágio pelo novo coronavírus. Antes de vir a público que o ator Robert Pattinson foi infectado no set do novo filme “Batman”, uma matéria extensa na L.A Times trazia o óbito de um membro da equipe de um grande um filme.

John Nolan tinha acabado de sair das filmagens de um comercial de televisão e emendou com a produção de um novo longa-metragem a ser filmado em L.A, o problema é que durante o primeiro trabalho, Nolan contraiu o vírus no próprio set e veio a falecer algumas semanas depois.

O caso de Nolan levantou uma discussão que já parece encerrada: como seguir os protocolos de segurança de saúde e continuar trabalhando? Talvez se a equipe de fato tivesse seguido isso, John Nolan ainda estaria cumprindo com a sua jornada laboral.

A matéria publicada pelo L.A Times nos traz muitas informações importantes – algumas em tom de denúncia – sobre a diferença entre falar e agir. A indústria cinematográfica abriu a discussão das precauções ainda em março, e quando os efeitos nocivos dessa nova doença ainda eram menos conhecidos do que hoje, parecia empenhada em salvaguardar a vida dos técnicos e demais membros envolvidos na filmagem, tendo que lidar com a baixa expressiva de pessoas e produções centradas em poucas locações.

Tudo parecia perfeitamente alinhado para uma volta segura: medição de temperatura, teste rápido para a detecção, sets esvaziados, higienização do ambiente de duas em duas horas, equipe médica disponível, seguros, equipamentos de proteção individual, isolamento por 14 dias antes do início das filmagens e comida embalada. Diante dos fatos, parece seguro voltar, não? Pois é, o problema é que a produção em que John Nolan estava envolvido, mesmo podendo arcar com esse orçamento, fez o mínimo para prover segurança.

Em um mercado tão grande quanto o norte-americano, se eximir de oferecer as proteções básicas exigidas pelas autoridades de saúde é contar com a sorte enquanto pensa somente em saldar as dívidas contraídas nos meses que estiveram parados.

Os Estados Unidos lideram o ranking de contágios pelo Covid-19, notícias recentes de Universidades que suspenderam as aulas dão o parecer de que não é seguro aglomerar, então por que se insiste em colocar técnicos do audiovisual em risco quando podem arcar com os custos de proteção?

O caso de John Nolan e Robert Pattinson acende um debate importante para o Brasil cuja indústria respira com ajuda de aparelhos, e mais da metade das produções incentivadas com recursos públicos terá que fazer malabarismo para arcar com todos esses gastos que já se provaram mais do que necessários.

Infelizmente não há como impedir o retorno gradual dessas filmagens. A informalidade com a qual o setor se formou ao redor do mundo não garante a oportunidade de nossos trabalhadores ficarem mais de meio ano em suas casas e sustentando suas famílias: teremos que voltar ainda antes da vacina.

No entanto, o medo de encarar um set de filmagem sem o mínimo exigido parece algo de ficção científica. Arriscar a vida para continuar provendo para o básico é uma triste realidade por trás de todo o glamour que vemos em tela.

Nesse sentido, parece que a Europa tem saído mais uma vez na frente: a adoção do distanciamento social, isolamento e equipamentos que permitem que a filmagem seja comandada de longe já deixaram algumas produções retornarem com mais atenção, mas é um cenário que não se encaixa no Brasil.

Em meio a estas notícias, fica o debate aberto para um Brasil que está longe de se importar com esse setor da economia e com milhares de jovens precisando terminar seus estudos entregando seus filmes universitários realizados com pouquíssimo orçamento e sem a apoio algum para proteger suas vidas. Há quem diga que o momento seria benéfico para os filmes de menor custo, eu digo que se conseguirmos sobreviver a mais de 3 meses de filmagens, ainda sairemos com os bolsos mais vazios que entramos, com dívidas exorbitantes em um mercado que só olha para fora antes de cuidar da própria casa.

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