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Crítica: Alice Guy-Blaché: a História não contada da primeira cineasta do mundo

O documentário sobre Alice Guy-Blaché é obrigatório para cinéfilos e simboliza um momento crucial de reescrita da história.

Ficha técnica:
Direção: Pamela B. Green
Roteiro: Pamela B. Green, Joan Simon
Nacionalidade e Lançamento: Estados Unidos, 7 de dezembro de 2018 (11 de maio de 2018 – Cannes; 24 de outubro de 2018 – Festival do Rio)
Sinopse: Documentário sobre a cineasta pouquíssimo mencionada na história, Alice Guy-Blanché pioneira no mundo do cinema desde os seus 21 anos, ainda no final do século XIX. O filme mostra as imagens de arquivo e entrevistas com atores e outros grandes nomes do cinema, trazendo à tona algumas das obras da cineasta e tocando no motivo misterioso pelo qual a grande artista caiu no esquecimento com o passar do tempo.

A História que conhecemos é contada a partir de um ponto de vista, jamais absoluta. Quantos personagens históricos se perderam, quantos sequer tiveram a oportunidade de contar seu ponto de vista? A maneira como os fatos foram contados moldou a forma como nossa sociedade se desenvolveu.

Em tempos de disputas de narrativas acerca do mundo em que vivemos, temos a oportunidade de viver um início de século em que pessoas tentam olhar para o passado de outra forma. E se a História foi essencialmente eurocêntrica, escrita por homens brancos, a simples possibilidade de observar personagens apagadas por essa visão e trazê-las à luz é fundamental para mostrar a verdade que escapou aos registros (propositalmente ou não).

Disponibilizado gratuitamente pelo Itaú Cultural apenas por alguns dias, o documentário busca resgatar toda a trajetória de Alice Guy-Blaché, e não tem medo da missão audaciosa. Ao longo de pouco mais de uma hora e meia, somos apresentados de maneira didática a toda a investigação sobre quem foi a diretora e de que forma sua história se perdeu.

Vemos ligações para netos de um câmera da cineasta, viagens para casas de colecionadores (mesmo que isso gere apenas alguns segundos muito bem editados em que ele permite o uso do material), e até mesmo as gravações dela desmentindo informações falsas, como a que atribui um filme a ela erroneamente, ou a entrevista com um especialista em rosto para identificar se é ela quem aparece em uma filmagem.

Mais do que dar uma aula completa sobre a vida da mulher que foi a primeira pessoa a fazer filmes de ficção (enquanto os irmãos Lumiére filmavam o cotidiano, e logo seguida de Méliès), o longa consegue mostrar o brilhantismo da cineasta sem adjetivá-la, apenas mostrando como o que ela fez foi inovador. Reforçando as características de Alice Guy-Blaché e dando espaço até mesmo para características negativas, o documentário consegue humanizar a cineasta e tornar sua imagem não apenas digna de valor como também real e palpável.

A apresentação da história do documentário é representativa de todo o apagamento do protagonismo feminino ao longo da história. Mais que recuperar uma parte da História que estava quase se perdendo, o documentário permite que o espectador abra os olhos para outras tantas personagens históricas – do cinema ou de outra área – que podem ter sido ocultadas em função de um controle de narrativas restrito a apenas um tipo de pessoa.

  • Nota
4.5
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