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Entrevista: Lucélia Santos

Lucélia Santos dispensa apresentações. Com mais de 40 anos de carreira, ela acumula 29 trabalhos na televisão, 20 filmes e uma infinidade de peças teatrais. Atualmente, a atriz vive um momento especial em sua carreira, vivendo em Portugal desde meados de 2019 onde atua na novela portuguesa “Na Corda Bamba”, junto com o ator e amigo de longa data Edwin Luisi.

Nesta entrevista, fugimos das perguntas clichês, isto é, sobre a novela Escrava Isaura e as obras de Nelson Rodrigues adaptadas para o cinema, visto que em todas as entrevistas a questionam isso. Neste bate papo diretamente de Portugal, temas como redes sociais, futuro das novelas, viver em Portugal e outras assuntos são indagados para a talentosa atriz dona de um sorriso cativante.

Como está sendo viver e trabalhar em Portugal?

Lucélia Santos – Eu estou gostando muito. O ritmo de Lisboa apesar de intenso, é pra nós brasileiros muito mais tranquilo do que a vida que eu levo aí no Brasil. Apesar de gravar bastante e do estúdio ser fora da cidade, eu tenho um pouco mais de tempo pra mim. Eu gosto da cidade, das pessoas, da comida, do vinho mas sobretudo da boa educação dos portugueses. Está sendo realmente uma experiência muito boa.

Qual foi a principal diferença que você notou entre fazer uma novela no Brasil e em Portugal?

LS -O ritmo de gravação de uma novela é sempre intenso em qualquer país. É um trabalho industrial apesar de artístico o que conta muito a tua capacidade de enfrentar o ritmo alucinante. Fazia tempo que eu não gravava uma novela tão longa mas eu gostei muito porque eu tenho essa adrenalina que combina com esse tipo de atividade.

O que você tem mais apreciado em Portugal vivendo há meses no país?

LS – A vida cultural intensa, bem como a vida social. Eu saio muito mais aqui do que saia no Brasil. Eu assisto concertos musicais aqui na gulbenkian, que dificilmente eu assistiria por aí concertos para piano, além das exposições de arte que eu adoro e os jardins que eu usei imensamente no verão. Era pra lá que eu me dirigia todos os dias para decorar os textos. Como se fosse uma extensão da minha casa. Moro ao lado. Isso foi muito bom.

Falando sobre aspectos positivos, o que o Brasil pode aprender com Portugal?

LS- Eu acho que a gente pode aprender a experiência sobre o coletivo. Não podemos esquecer que portugal é um país socialista, o primeiro-ministro é socialista, tem uma educação, uma saúde e uma estrutura de base social muito mais edificada para a sociedade como um conjunto do que para uma minoria. Na área de novelas, eles vão ter muito que trabalhar ainda pra frente, pra se aproximarem da experiência que nós acumulamos no Brasil, me refiro basicamente a questões de produção e técnica e não artísticos. O Brasil é mesmo o país da telenovela, do futebol, e do carnaval, claro. Todavia, tudo que é arte, exposições, museus e concertos, aqui é muito mais do que aí, pois estamos na Europa. O clima faz uma diferença sobre a cultura tremenda. E aqui dá-se muito valor a educação.

Você usa transporte público em Portugal? A fama parece ter uma cobrança pesada no Brasil (há alguns anos, alguém fotografou a atriz fazendo uso de um transporte público no Rio de Janeiro).

LS- Eu uso o transporte público em todos os lugares do mundo por onde passo, sempre usei e sempre usarei.

Você percebe esse “preço” da fama também em Portugal? Até por que você é conhecida em muitos países devido ao sucesso de Escrava Isaura.

LS- Sim, claro, eu sou reconhecida em Portugal como no Brasil mas aqui é muito suave e muito tranquilo, as pessoas comentam sobre a personagem que faço aqui presentemente, que tem a neta sequestrada e que sofre em busca dela. As pessoas aqui são muito carinhosas comigo, me tratam muito bem.

O atual cenário político no Brasil influenciou também a sua decisão de fazer novela em Portugal?

LS- Sim sem dúvida nenhuma que influenciou e eu te confesso de todo coração que foi um presente que eu recebi ter podido passar esses oito meses fora do Brasil, exatamente esses oito meses deste primeiro ano desse desgoverno Bolsonaro. Não se tratou de fugir da luta mas de poupar um nível de estresse muito grande. Tudo o que ele faz é condenável e criminoso sobretudo nas áreas em que eu atuo a saber as artes e a defesa da Amazônia.

Planos de viver definitivamente em Portugal como muitos artistas brasileiros tem feito?

LS- Não, não tenho planos de viver definitivamente, mesmo porque na minha vida neste momento não existe mais a palavra “definitivamente”. Eu sou budista praticante e uma das meditações e contemplações é sobre a impermanência. Todavia eu estou pedindo cidadania aqui porque quero ter uma segunda cidadania oficial e também estou trabalhando para ampliar a minha atuação em outros países fora do Brasil, não só Portugal. Já vinha fazendo isso e agora pretendo ampliar.

Na novela “Na Corda Bamba”, você vive uma milionária que passa por uma grande tragédia familiar, como é a sua personagem Marília?

LS- Sim a Marília é exatamente isso que você falou, uma milionária paulistana que vem para Portugal primeiramente buscar a filha que era viciada em drogas pesadas e acabou morrendo por isso e deixou uma neta que vai ser o mote do meu personagem durante toda a temporada, eu no desespero de encontrar a minha neta.

Você é conhecida por muitas pessoas (equipes/técnicos e mesmo elenco) pela simplicidade, sem estrelismos. Como não se deslumbrar com o sucesso quando ele surge tão cedo aos 19 anos, como foi o seu caso, em uma profissão repleta de egos?

LS- Eu nunca me deslumbrei como atriz mesmo tendo estrelado Escrava Isaura aos 18, 19 anos, porque eu sou uma atriz formada por um professor, por um grande mestre, no sistema de Stanislavski. Quando você se forma pra ser um ator oficiante da sua devoção pelo palco, um ser que vive para sua profissão como ofício, você simplesmente se concentra no seu trabalho e o realiza. Eu sempre tive esse ponto de vista, você respeita todos os profissionais envolvidos com você e você acaba ganhando o respeito deles, porque eles veem o seu trabalho aparecer e crescer.

São 29 trabalhos na televisão (aprox. 16 novelas) e 20 filmes, diante de tantas produções de sucesso, houve também arrependimentos?

LS- Por mais que um filme ou uma novela tenha me trazido qualquer tipo de frustração, eu sempre aprendi alguma coisa no que fiz e como fiz, portanto eu não me arrependo de nenhum trabalho que eu tenha feito ao longo da minha vida, nem mesmo pelos mais bobinhos ou pelos mais idiotas, eu sempre gostei de tudo que eu fiz.

Em 1987, você protagonizou a novela “Carmem” na extinta TV Manchete, considero este como sendo um dos seus trabalhos mais polêmicos/excêntricos, pois a protagonista não era a “mocinha/boazinha” da história, pelo contrário, além disso a novela abordava temas fortes como pactos, magia, ocultismo etc. Creio que nos dias de hoje, nenhuma emissora ousaria a fazer uma novela como “Carmem” (pela temática envolvida). Não acha?

LS- A Carmen foi realmente uma novela fora da casinha, uma novela cheia de coragem e muito arrojada, ela era arrojada no seu contexto, na construção da protagonista e na atuação de um modo geral. A direção era muito boa, foi ali que eu conheci o Luís Fernando Carvalho e o Marcos Schechtman, que a essa altura estava dirigindo a sua primeira novela eu acho, assinando mesmo se não me engano. Eu não sei se hoje em dia uma novela com esse tema entraria no mercado de uma maneira tão forte como naquela época mesmo porque o Brasil encaretou barbaramente e o preconceito hoje que surge por causa das igrejas evangélicas acho que não permitiria esse tema na televisão.

Mais de 40 anos de carreira, não pensa em escrever uma biografia?

LS- Eu tenho gravado coisas pra se transformar numa biografia pela Lian Tai, que é a minha comadre e minha melhor amiga. Eu vou ter muita história pra contar porque eu tenho uma vida muito extensa profissionalmente e politicamente tanto dentro quanto fora do set e tem vários capítulos no Brasil, fora do Brasil, na Amazônia…enfim uma hora dessas vai aparecer por aí, talvez no aniversário de 50 anos de carreira vamos ver (risos).

Como é a sua relação com as redes sociais, tais como Twitter, Instagram e Facebook?

LS- É boa, eu gosto de fuçar lá, só fico chateada porque isso me toma muito tempo e eu tenho muita coisa importante pra ler e estudar e de repente quando eu vejo estou a 2h00 nessas porcarias, tirando isso eu dou uma olhada sempre.

Muitos questionam o futuro das novelas e até mesmo das emissoras de TV em função do poder/popularização da Internet e das plataformas de streaming (Netflix etc), o que você acha disso?

LS- Eu acho que esse é o caminho natural das coisas, as novelas tiveram grande sucesso durante séculos agora está mudando o formato, a gente tem que se centrar nas novidades e participar dessas transformações das plataformas. Como mercado de trabalho vai ser muito bom pra todo mundo principalmente para os atores sobretudo no Brasil.

O Youtube é um verdadeiro arquivo digital, pois dá pra assistir novelas, séries, minisséries, filmes etc que fizeram sucesso no passado, inclusive tem muito material a seu respeito, até de entrevistas fora do país. Você costuma rever seus trabalhos antigos no Youtube?

LS- Não, eu não vejo nada, eu não tenho tempo pra isso, entro todos os dias pra dar boa noite quando me mandam mensagens e para me manter minimamente em acordo com as novidades. Eu fico muito tempo nessa porcaria, eu tenho realmente muito Dostoievski pra botar em dia, eu não tenho condição de ficar no YouTube.

Você tem acompanhado o cinema nacional? (creio que filmes como Bacurau também foram exibidos aí em Portugal).

LS- Sim, assisti Bacurau outro dia numa sessão especial e depois não consegui dormir a noite, o filme é extraordinário, uma obra prima.

Como diretora você realizou os documentários “O Ponto de Mutação – China Hoje” e “Timor Lorosae – O massacre que o mundo não viu”. Pretende repetir essa experiência como diretora? Algum projeto em mente em se tratando de direção?

LS- Sim, eu estou doida pra voltar a dirigir cinema, eu não tenho presentemente um projeto como diretora mas preciso começar a pensar nisso, nesse momento eu estou muito centrada na minha carreira como atriz.

Você atuou em aproximadamente 20 filmes. Gostaria de falar sobre um deles: Kuarup, que em 2019 completou 30 anos. A atriz Fernanda Torres descreveu as filmagens como sendo um pesadelo (ao relembrar os bastidores) com locações distantes/isoladas, alojamento em tendas, atrasos nas filmagens, calor, acidentes etc. Pra você as filmagens foram também traumáticas?

LS- Pra mim foram excepcionalmente traumáticas porque eu fiquei dois meses à espera de filmar dois planos, depois a câmera quebrou, a grua quebrou a câmera que voou pelos ares e na hora de rodar a minha parte não aconteceu, foi muito difícil essa produção.

Como foi visitar ou melhor dizendo viver por alguns meses no Xingu? E ter esse contato com as tribos do Alto Xingu.

LS- Essa foi a parte boa, estar no Xingu, conhecer aquela região belíssima e conviver com os índios, esse foi o gostoso de ter participado dessa produção.

Ainda sobre Kuarup, quais as principais lembranças que você tem desse trabalho? Aspectos positivos e negativos.

LS- Eu acho que os negativos são esses que eu já comentei, eu não rodei a minha parte no filme, era tudo muito confuso, o texto muito extenso, não sei o que aconteceu. E a parte positiva foi ter conhecido o Xingu.

E o que você achou do filme quando viu o resultado final? (a atriz Fernanda Torres achou o filme estranho/caótico quando o assistiu).

LS- Eu também achei o filme estranho, eu acho que o filme tinha um roteiro que não se realizou de fato, acho que foi mais isso.

Outro trabalho muito conhecido foi “Luz del Fuego”, como foi dar vida a maior representante do naturismo no Brasil? Ela era uma mulher muito à frente do seu tempo.

LS- Luz del Fuego é um dos trabalhos que me deu mais prazer em toda minha vida, eu amava o David neves (diretor do filme), eu estava em um momento muito especial logo em seguida engravidei do meu filho Pedro e foi tudo mágico, divertido e interessante e eu adoro o filme, o meu trabalho nele, eu tenho um afeto especial por esse filme, é só isso que eu posso te falar.

O Cinem(Ação) agradece gentilmente a atriz Lucélia Santos e desejamos muito sucesso a ela.

Entrevista feita por André Aram

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