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Entrevista: Gabriel Martins (No Coração do Mundo)

O filme “No Coração do Mundo”, de Maurílio Martins e Gabriel Martins, estreou ontem nos cinemas. O primeiro longa dos diretores, que já haviam feito vários curtas, chega com força e impacto ao retratar a realidade da região metropolitana de Belo Horizonte.

O Cinem(ação) teve a oportunidade de enviar algumas perguntas para o codiretor Gabriel Martins, que contou sobre o processo de filmar o primeiro longa, as características de filmar em Contagem (MG), suas influências e as expectativas que podemos ter para o futuro.

Saiba mais sobre o filme e veja o trailer!

Leia a crítica de “No Coração do Mundo”!

Entrevista com Gabriel Martins

Vocês estão criando uma história no mesmo universo dos curtas “Contagem” e “Dona Sônia pediu uma arma para seu vizinho Alcides”. O que fica mais fácil e o que fica mais difícil ao produzir um filme nesse mesmo ambiente? De que forma essas histórias se complementam?

Gabriel Martins: O que eu acho mais fácil de dar extensão a esses universos é que a gente já tem os atores e os personagens. Então a gente já escreve os roteiros pensando em algumas imagens já existentes. Essas imagens nos consolidam uma base para o projeto, e aí a nossa criatividade pode ser muito maior. Nem sei se existe uma dificuldade, porque essa base trouxe muita segurança, então a gente não criou uma prisão de que o longa precisasse ser particularmente fiel a uma ou outra questão dos curtas. Isso fez com que a gente tivesse um poder de criação muito livre. A gente não tinha uma obrigação, porque o projeto era nosso, e sabíamos que aquilo era um material de origem.

O que mais chamou a atenção ao produzir um longa, em comparação com os curtas-metragens? Como os longas costumam chegar a mais pessoas com a distribuição comercial, quais as expectativas em relação ao público?

Gabriel Martins: O longa-metragem tem um tempo de gestação e de trabalho obviamente maior, então manter a energia e o nível da produção bom o tempo inteiro, os atores concentrados e empolgados durante um tempo longo, é um desafio por si só. O que mais me pareceu desafiador é que essa energia ser mantida por muito tempo é um desafio psicológico muito difícil. E também conseguir enxergar o processo do início ao fim com clareza é muito difícil também. Porque é muito fácil se perder no meio do caminho e não entender mais qual filme você está fazendo. E tem essa expectativa de público, porque estamos fazendo um lançamento direto na sala do cinema, sem o circuito de festivais, então a gente deseja o maior número de pessoas possíveis. É um filme muito acessível, que pode passar por vários gostos. Estamos fazendo esforço para ele chegar no maior número de pessoas possível.

foto: Isabela Martins

Em um país tão vasto como o Brasil, é sempre bom ver filmes de todos os cantos. Existe alguma característica única da periferia de Contagem presente no filme, ou a ideia é mostrar as semelhanças com tantas periferias do país?

Gabriel Martins: As duas coisas. Tem coisas muito específicas de lá: a forma de falar, gírias, o jeito de estar. A geografia do lugar é bastante mineira. É uma periferia que tem mistura grande de classes sociais e uma diferença bastante grande de casas e de como elas são construídas. Mas ao mesmo tempo, temos como retorno de pessoas de periferia que viram o filme, de que existe um diálogo forte também com a forma de ser e de agir deles. Acho que existe uma ponte nos sentimentos dos personagens e em características que são muito brasileiras e com as quais é possível se identificar.

Que filmes ou cineastas mais influenciaram “No Coração do Mundo“? Se não houve nenhum em específico, quais vocês mais admiram?

Gabriel Martins: Alguns nomes recorrentes que eu e Maurílio sempre citamos ao falar do filme são Carlos Reichenbach, Carlos Alberto Prates Correia, Charles Burnett, Spike Lee, James Gray, William Friedkin, e especificamente neste filme, a cineasta Kira Muratova, que fez “Síndrome Astênica”, de quem a gente teve uma cena com bastante referência. Também podemos falar de Brian de Palma e John Singleton. São vários cineastas que têm uma forma de lidar com periferia, câmera e estética que a gente admira. Vários deles, senão todos, pensam muito onde a câmera vai estar, no balé da câmera com os atores e o cenário, e esse filme foi muito construído tendo isso em mente.

Grace Passô e MC Carol são duas “fodonas” do elenco. Como foi filmar com elas? E que outras surpresas o elenco do filme trouxe durante as filmagens?

Gabriel Martins: Foi um prazer e uma honra filmar com Grace e Carol. Ambas têm uma personalidade muito forte, uma identidade muito forte. Elas são muito elas no filme, na forma de falar e na presença. Nesse sentido, pensando que são duas atrizes com que trabalhamos pela primeira vez, elas trouxeram coisas muito fortes e muito potentes. Temos um elenco recheado de figuras maravilhosas, pessoas que estão com a gente há um tempo, e todo mundo deu muito de si no filme.

Podemos esperar por mais filmes do “Contagem Cinematic Universe” (risos)?

Gabriel Martins: Certamente, podem esperar mais filmes. A gente adora filmar no bairro, gostamos muito de todas as personagens no filme, e já existem possibilidades de projetos com alguns que estão aí. Não posso dizer quem é, porque é surpresa.

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