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Crítica: No Coração do Mundo

No Coração do Mundo - cena do filme - Grace Passô em um cenário de foto para alunos de escola

“No Coração do Mundo” é um retrato dos sonhos e (im)possibilidades da vida de pessoas que querem apenas seguir adiante.

Ficha técnica
Direção: Gabriel Martins, Maurílio Martins
Roteiro: Gabriel Martins, Maurílio Martins
Nacionalidade e Lançamento: Brasil, 1º de agosto de 2019 (25 de janeiro de 2019 no Festival de Roterdã)
Sinopse: Na periferia de Contagem, Marcos busca uma saída para sua rotina de bicos e pequenos delitos. Surge uma oportunidade arriscada, mas que pode solucionar todos seus problemas. Para isso, ele precisa convencer sua namorada, Ana, a se juntarem a Selma e executarem o plano que pode mudar suas vidas para sempre.

“No Coração do Mundo” tem interessantes paralelos com o filme “Temporada” (recentemente lançado na Netflix). Apesar de contarem com diretores diferentes, ambos são da mesma produtora e retratam a realidade da periferia de Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte. No entanto, o que os diretores Gabriel Martins e Maurílio Martins fazem aqui é mostrar diversos personagens em vez de se aprofundarem em apenas um, com uma habilidade minuciosa de alternar as cenas de forma orgânica e calculada.

O protagonista do filme é Marcos (Leo Pyrata), mas ao longo da trama somos apresentados a diversas outras realidades, como a de Ana (Kelly Crifer), sua namorada, bem como de Selma (Grace Passô) e Rose (Barbara Colen), entre outros personagens. Ao redor deles está a violência e a dureza da vida que levam.

Marcos (Leo Pyrata) e Ana (Kelly Crifer)

“No Coração do Mundo” tem uma introdução impactante e extremamente efetiva: apresenta o personagem principal já em sua complexidade e ainda se permite mostrar as pessoas da região em uma introdução potente, ainda mais por ser acompanhada da música “Texas”, do Mc Papo (que faz participação no filme). O clima é estabelecido.

É interessante notar como a violência é retratada, logo no começo e também no segundo ato da projeção, com sustos e cortes abruptos que nos mostram apenas suas consequências. Essa escolha permite que os efeitos da violência gráfica no terceiro ato sejam muito mais impactantes.

Com pequenas atitudes cotidianas, vamos descobrindo o que cada um dos personagens busca, e como lidam com suas situações. Uma delas tem relação com o tempo: enquanto a cobradora de ônibus já soma alguns anos no atual serviço, o vendedor da loja está há mais tempo ainda, o que gera uma sensação de que a vida está parada para esses personagens. Ao unir isso com a energia e o conceito de “coração do mundo” que a personagem Selma apresenta (em mais uma atuação naturalista e enérgica da premiada Grace Passô), o filme mostra a sensação de “beco sem saída” que a falta de oportunidades traz para quem vive nessa realidade.

Ao mergulhar nessas vidas com tamanha naturalidade, “No Coração do Mundo” faz mais do que cruzar histórias de vida e retratar as angústias das pessoas: ele insere o espectador naquele cenário e nos faz compreender cada escolha feita por eles. Com os desdobramentos na trama, o filme também não redime os personagens do que eles fazem, mas acaba caindo em uma mensagem que não propõe rupturas. O olhar determinado da mãe de Marcos e as escolhas de Rose, pautadas na expressão “meu nome é trabalho”, apenas reforçam a proposta de trabalhar demasiadamente para tentar furar o ciclo em que se encontram. Seria todo esse trabalho em vão, já que esse ciclo nunca seria interrompido? Pensar que somente este seria o caminho já contradiz a própria ideia de que aquelas pessoas vivem “no Texas” – na terra sem lei – onde é tão difícil de seguir para o próximo lugar aonde se deseja ir. Talvez os personagens permaneçam sempre estagnados. Talvez o filme não proponha uma resposta, e sim mais perguntas.

Ainda assim, “No Coração do Mundo” é um retrato profundamente humano que mistura ação e drama de maneira tão sentimental quanto árdua. É um filme que fica.

  • Nota
4.5

Summary

Ainda assim, “No Coração do Mundo” é um retrato profundamente humano que mistura ação e drama de maneira tão sentimental quanto árdua. É um filme que fica.

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