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50 anos do fusca mais querido do cinema

Personagens principais do filme "Se Meu Fusca Falasse" - a mulher está no volante e o homem está olhando para ela com um curativo na bochecha

Franquias sempre foram muito populares em Hollywood. Desde os clássicos ‘Monstros da Universal’, que dominou os cinemas durante quatro décadas, até os filmes da Marvel, produtores e realizadores utilizam dessa façanha por vários motivos estratégicos. O principal é o fato de que esses filmes já possuem um público alvo fiel, que acompanham todo o processo desde a pré-produção até o lançamento.

Além dos sucessos ‘Velozes e Furiosos, existe uma outra franquia de quatro rodas que merece grande atenção: Herbie: Se Meu Fusca Falasse. Completando 50 anos desde o lançamento do primeiro filme da saga, Herbie é muito mais do que um fusca atrapalhado em um filme de criança. Ele é um dos carros mais icônicos do cinema e responsável por protagonizar as melhores cenas de corrida da história. Com 5 filmes lançados nos cinemas, a franquia (com ajustes de inflação) arrecadou mais de 700 milhões de dólares nas bilheterias, e o fusquinha já foi considerado mais influente do que os Beatles.

Se Meu Fusca Falasse (1969) foi o último filme a ter o aval e os conselhos de Walt Disney, antes de sua morte. Disney, inclusive, não chegou a ver o filme finalizado. Os realizadores procuravam na época fazer um drama mais adulto sobre o primeiro carro de corrida dos EUA. Walt, então, sugeriu adaptar o conto ‘Car, Boy, Girl’ de Gordon Buford, que contava a história de um carro com personalidade e que se metia em várias encrencas.

O filme nunca foi idealizado para ser protagonizado especificamente por um fusca. Os realizadores fizeram audições com mais de uma dúzia de carros. O modelo foi selecionado pelos aspectos inofensivo e infantil que faziam dele um improvável candidato para uma corrida.

Durante o primeiro longa, a Volkswagen não permitiu a utilização de seu logo e não deu o menor apoio para a produção. Todos os logos e referências à montadora foram retirados do roteiro. O fusca, por sua vez, recebeu o nome de Herbie em homenagem ao comediante Buddy Hackett. Com o sucesso estrondoso do primeiro filme e com o declínio das vendas do fusca nos anos 70, a Volks decidiu utilizar a franquia como forma de promover o carro, dando todo o apoio possível para a Disney, que incluiu os logos e menções à marca nas sequências.

Assinado por Robert Stevenson, conhecido por dirigir inúmeros filmes para Disney, Stevenson entregou uma obra que mistura todos os elementos vistos no decorrer de sua carreira: a carga emocional de ‘Old Yeller’, a comédia de ‘Filho do Flubber’ e as coreografias e planos de câmeras de ‘Mary Poppins’, que deram lugar às corridas e planos vistos em ‘Se Meu Fusca Falasse’.

O que diferencia ‘Se Meu Fusca Falasse’ de todos esses outros títulos é o fato de que ele não envolve tiroteios, conspirações e violência; ele também não é apenas uma “cocaine comedy” (sub-gênero bastante popular na época); nada disso. ‘Se Meu Fusca Falasse’ trás uma história real e palpável sobre carros e o relacionamento que as pessoas tem com eles. Em sua essência, é um filme perfeito para qualquer amante de automobilismo. Se retirarmos todas as maluquices que o fusca faz, e tirar todas as cenas mais infantis, o filme praticamente conta a história de um piloto que encontra um carro – que ninguém colocar fé  –  com um motor potente e diferenciado.

O roteiro do primeiro filme da saga foi muito inteligente ao criar um fusca com personalidade bastante forte, algo difícil de ver em filmes infantis nos dias de hoje. Herbie é ciumento, impulsivo, controlador e paranoico. Ele bate em outros carros e reage agressivamente toda vez que ele é ameaçado. É curioso ver que suas cenas não funcionam somente como um alívio cômico, mas também como construção de personagem. Destaque para a cena na qual o fusca, deprimido, tenta se suicidar ao pular da ponte Golden Gate em San Francisco, algo que é praticamente impossível de encontrar em um filme infantil nos dias de hoje.

Os realizadores da saga conheciam muito bem seu público alvo, e sabiam que os amantes de carros veriam ao filme independente de ter crianças ou não. A história é repleta de piadas e menções do mundo automobilístico que somente os amantes dessa arte conseguem captar. O maior acerto, no entanto, foi a utilização de corridas reais. Para gravar as cenas de competição, foram utilizados fuscas com um motor Porsche 356 para que o carro conseguisse manter a mesma velocidade e estamina dos outros carros do filme, como o seu rival, um Apollo GT, carro muito difícil de ser encontrado.

Menos charmosas e mais infantis, as sequencias da franquia no entanto contam com cenas de corrida bastante icônicas. O último longa da franquia, Herbie: Meu Fusca Turbinado, foi lançado em 2005. Apesar da boa bilheteira, a Disney não chegou a produzir um outro filme do fusca. É somente uma questão de tempo até que os produtores encontrem os realizadores certos para trazer a franquia a uma nova geração.

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