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55 anos do Golpe de 64 – 10 Filmes Para Assistir e Refletir

Golpe de 64

O Golpe de 64 completa 55 anos e parece que muitos brasileiros esqueceram o que foi, mas o cinema não!

O Golpe de 64 completa hoje 55 anos. Uma época triste, sangrenta e obscura. A liberdade de expressão era restrita, a cultura sofreu censura, quem falava ou lutava contra o governo era preso, torturado e alguns talvez saíram de casa e nunca mais voltaram. Mas infelizmente parece que grande parte da nação se esqueceu disso. Inclusive existe alguns que defendem que no dia 31/03, aniversário de 55 anos do Golpe de 64, sejam realizadas as devidas comemorações.

Pois bem, todos nós do Cinem(ação) somos aversos a qualquer tipo de censura e violência. O Golpe de 64 aconteceu, sim foi Golpe, diferente do que muitos talvez digam. E para que a voz dos desaparecidos, a voz dos mortos, a voz dos torturados e de suas famílias nunca se calem vamos fazer as “devidas comemorações”. Vamos relembrar através das telas do cinema essa época obscura e violenta, vamos dar voz aos mortos, desaparecidos, torturados e suas famílias através da através da tela do cinema.

Vamos usar essas obras de ficção e documental, para discutir e refletir. Vamos usar essas obras para dialogar e para pensar: Será que queremos isso outra vez?

Pra Frente Brasil (1982)

Dirigido por Roberto Farias e tendo no elenco Reginaldo Faria, Antônio Fagundes, Natália do Vale, Elizabeth Savalla, Carlos Zara e Cláudio Marzo, Pra Frente Brasil foi lançado em 1982 em plena ditadura militar e inclusive foi proibido pela censura da época. O filme se passa em 1970 quando o Brasil inteiro torce e vibra com a seleção de futebol no México, enquanto prisioneiros políticos são torturados nos porões da ditadura militar e inocentes são vítimas desta violência. Todos estes acontecimentos são vistos pela ótica de uma família quando um dos seus integrantes, um pacato trabalhador da classe média, é confundido com um ativista político e “desaparece”. O filme é um dos primeiros a tratar abertamente da Ditadura Militar sem recorrer a outros subterfúgios. O Filme está na lista da Abraccine dos 100 Melhores Filmes Brasileiros de Todos os Tempos.

Cabra Marcado Para Morrer (1984)

Dirigido por Eduardo Coutinho, Cabra Marcado Para Morrer é um dos mais emblemáticos filmes do nosso cinema. No início da década de 60, um líder camponês, João Pedro Teixeira, é assassinado por ordem dos latifundiários do Nordeste. As filmagens de sua vida, interpretada pelos própios camponeses, foram interrompidas pelo Golpe de 64. Vinte anos depois, o diretor retoma o projeto e procura a viúva Elizabeth Teixeira e seus dez filhos, espalhados pela onda de repressão que seguiu ao episódio do assassinato. O tema principal do filme passa a ser a trajetória de cada um dos personagens que, por meio de lembranças e imagens do passado, evocam o drama de uma família de camponeses durante os longos anos do regime militar. O filme foi premiado em Berlim e está em 4º lugar da lista da Abraccine dos 100 Melhores. Para muitos, inclusive para o crítico Pablo Villaça, esse é o melhor filme nacional de todos os tempos.

O Que é Isso Companheiro? (1997)

Dirigido por Bruno Barreto e com Fernanda Torres, Cláudia Abreu, Luz Fernando Guimarães, Caio Junqueira,Matheus Nachetergaele, Selton Mello, Alan Arkin e Fernanda Montenegro, O que é isso companheiro? conta a história real do sequestro do embaixador americano Charles Burke Elbrick. Tendo como ponto de vista a visão do jornalista Fernando (Pedro Cardoso) e eu amigo César (Selton Mello) que abraçam a luta armada contra a ditadura militar no final da década de 60. Os dois alistam num grupo guerrilheiro de esquerda. Em uma das ações do grupo militante, César é ferido e capturado pelos militares. Fernando então planeja o sequestro do embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Charles Burke Elbrick (Alan Arkin), para negociar a liberdade de César e de outros companheiros presos. Baseado no livro de Fernando Gabeira, o filme deu nome fictício para a maioria dos personagens, principalmente os ligados a guerrilha. O filme venceu o Urso de Ouro em Berlim e foi indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

Jango (1984) / Dossiê Jango (2012)


Aqui temos dois documentários que se completam. O primeiro é Jango, de 1984 e dirigido por Silvio Tendler. O filme mostra entrevistas intelectuais e personalidades que viveram na época da queda do presidente João Goulart e do Golpe de 64, traçando um retrato da época. Já o segundo, Dossiê Jango de 2012 e dirigido por Paulo Henrique Fontenelle, aborda a morte suspeita de Jango. Após ser deposto o ex-presidente se exilou na Argentina e teve uma morte suspeita, que muitos dizem ter sido assassinato premeditado. O documentário tenta dar uma visão mais apurada para poder elucidar esse mistério. Como um aborda a queda de Jango e o outro o exílio e a morte do mesmo, é uma excelente sessão dupla de ótimos filmes brasileiros.

O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias (2007)

Dirigido por Cao Hamburguer e com Simone Spoladore, Caio Blat e Paulo Autran, O Ano Em Que Meus Pais Saíram de Férias foi o último filme que chegou mais próximo de uma indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2008. O filme conta a história de Mauro (Michel Joelsas) um garoto mineiro de 12 anos, que adora futebol e jogo de botão. Um dia, sua vida muda completamente, já que seus pais saem de férias de forma inesperada e sem motivo aparente para ele. Na verdade, os pais de Mauro foram obrigados a fugir da perseguição política, tendo que deixá-lo com o avô paterno (Paulo Autran). Porém o avô enfrenta problemas, o que faz com que Mauro tena quhe ficar com Shlomo (Germano Haiut), um velho judeu solitário que é vizinho do avô de Mauro. O filme fez uma excelente carreira no exterior, inclusive concorrendo ao Urso de Ouro em Berlim e tendo ganho o prêmio da crítica no Festival de Catagerna.

O Dia que Durou 21 Anos (2013)

Dirigido por Carlos Tavares, cujo pai o jornalista Flávio Tavares foi preso e torturado pela Ditadura Militar, esse documentário de 2013 mostra o envolvimento dos Estados Unidos no Golpe de 64. A partir de documentos secretos e gravações originais da época, o filme mostra como os presidentes John F. Kennedy e Lyndon Johnson se organizaram para tirar o presidente João Goulart do poder e apoiar o governo do marechal Humberto Castelo Branco. O filme mostra como a ação militar que deu início a ditadura contou com a ativa participação de agências como CIA e da própria Casa Branca. Inicialmente o filme foi exibido em 3 partes na TV Brasil em abril de 2011, que também produziu o documentário. Posteriormente o filme foi lançado como um longa no Festival do Rio de 2012.

Zuzu Angel (2006)

Dirigido por Sérgio Rezende e com Patrícia Pilar, Daniel de Oliveira, Leandra Leal, Luana Piovani, Othon Bastos, Paulo Betti, Alexandre Borges, Antônio Pitanga e Caio Junqueira no elenco, Zuzu Angel mostra a história real de de uma mãe em busca de seu filho desaparecido durante a Ditadura. Zuzu Angel (Patrícia Pillar) é uma estilista de moda, fica cada vez mais famosa no Brasil e no exterior mas está alheia a situação no país. Em contrapartida seu filho, Stuart (Daniel de Oliveira), ingressa na luta armada, que combatia as arbitrariedades dos militares. Até que numa noite Zuzu recebe uma ligação, dizendo Stuart tinha sido preso pelos militares. As forças armadas negam. Pouco tempo depois ela recebe uma carta dizendo que Stuart foi torturado até a morte na aeronáutica. Então ela inicia uma batalha aparentemente simples: localizar o corpo do filho e enterrá-lo. Mas Zuzu vai se tornando uma figura cada vez mais incômoda para a ditadura. Em 2014, 50 anos após o Golpe de 64, 43 anos após o sumiço de Stuart e 38 anos após a morte sob condições suspeitas de Zuzu, um capitão da aeronáutica deu uma possível localização dos restos mortais de Stuart.

Em Busca de Iara (2014)

Dirigido por Flávio Frederico, o filme narra a trajetória de Iara Iavelberg. Uma jovem que apesar de ter uma situação financeira confortável, ela decidiu abandonar a família e investir na luta armada durante a ditadura militar. Iara teve uma relação amorosa com o capitão Carlos Lamarca, e morreu em 1971, aos 27 anos de idade. O filme foi feito com base em entrevistas, documentos e filmes de arquivos que reconstroem a vida de Iara desmontando assim a versão oficial de sua morte, que foi suicídio. O filme teve seu roteiro escrito por Mariana Pamplona, sobrinha de Iara.

Batismo de Sangue (2007)

Dirigido por Helvécio Ratton e com Daniel de Oliveira, Caio Blat, Cássio Gabus Mendes e Ângelo Antônio, Batismo de Sangue é baseado no livro homônimo de Frei Betto, vencedor do Prêmio Jabuti em 1982. O filme conta a história real de um convento de frades dominicanos que durante a Ditadura movidos por ideais cristãos, os freis Tito (Caio Blat), Betto (Daniel de Oliveira), Oswaldo (Ângelo Antônio), Fernando (Léo Quintão) e Ivo (Odilon Esteves) passam a apoiar o grupo guerrilheiro Ação Libertadora Nacional, comandado por Carlos Marighella (Marku Ribas). Eles logo passam a ser vigiados pela polícia e posteriormente são presos, passando por terríveis torturas. Na época de seu lançamento o filme ficou famoso por mostrar cenas bem explícitas de tortura que chocavam as plateias. O filme ganhou dois prêmios no Festival de Brasília entre eles Melhor Diretor.

O Outro Lado do Golpe de 64

Por vivermos em um estado democrático, todos os lados devem e merecem ser ouvidos e dar a sua versão dos fatos. A verdade é que pesquisei muito, muito mesmo, e não encontrei nenhum filme que falasse da Ditadura Militar e do Golpe de 64 de forma positiva. Todas as obras falam de forma negativa dessa época. Então se você querido leitor, é favorável a Ditadura Militar e acha que o Golpe de 64 não foi Golpe, e conhece filmes que tratam dessa época de forma positiva e tratam a Ditadura como positiva comentem abaixo e listem esses filmes, e eu prometo fazer um novo texto com esses filmes.

Mas mesmo assim, mesmo se você é favorável a Ditadura ou não, esses filmes acima servem como reflexão. Nos fazem criar perguntas: “Será que a guerrilha era o único e melhor método resistência? Violência não causam apenas violência? Será que não temos o direito de falar o que queremos, mesmo contra o governo, sem ser podados?” A verdade é que esses filmes merecem ser assistidos, pois eles nos levam a reflexão sejamos nós de esquerda ou direita. Dê uma chance a eles e vamos abrir o diálogo, pois só assim conseguiremos chegar a algum lugar!

3 Filmes Bônus sobre o Golpe de 64

O Desafio (1965)

Dirigido por Paulo Cezar Saraceni, O Desafio de 1965 foi o primeiro filme a tratar da Ditadura Militar. O filme começa logo após o Golpe de 64, quando Ada, a esposa de um rico empresário industrial, se enlvove em um caso amoroso com o jornalista de esquerda Marcelo, que trabalha em uma revista. O filme retrata os desafio, durante o regime militar, de se envolver em um relacionamento com alguém de classe diferente.

Que bom Te Ver Viva (1989)

Dirigido por Lúcia Murat, que inclusive foi presa e torturada pela Ditadura Militar, o filme é um docudrama que mostra ex-presas políticas da ditadura militar brasileira analisam como puderam enfrentar as torturas e prisões, relatando as situações e como sobreviveram à esse período, onde delírios e fantasias são recorrentes. O filme intercala cenas documentais com um monólogo ficcional, que é um amálgama dos relatos e das memórias dessas corajosas mulheres.

1964, o Brasil entre armas e livro (2019)

Produzido pela Brasil Paralelo, o documentário tenta responder a seguinte pergunta: Ditadura, Regime Militar ou Revolução? A obra traz um revisionismo histórico sobre o regime que durou 21 anos no país. Com a participação de escritores, historiadores, jornalistas, e filósofos, tais como Percival Puggina, William Waack, Rafael Nogueira, Olavo de Carvalho, Alexandre Borges, Andrzej Wojtas, entre outros, que expressam suas visões e análises sobre os fatos relacionados a 1964. De acordo com o Brasil Paralelo, responsável pelo conteúdo e produção do longa-metragem, o material tem o objetivo de mostrar o outro lado do Regime Militar que, segundo eles, abordará ‘verdades nunca antes contadas’. O filme será lançado hoje 31/03/2019 em 10 cinemas pelo Brasil, 55 anos após o Golpe de 64, de acordo com a página oficial dos produtores dia 2 de abril estreará no Canal do Youtube da produtora. Talvez pela primeira vez ouviremos o outro lado, afinal o filho do Presidente Jair Bolsonaro, o deputado Eduardo Bolsonaro confirmou presença em uma dessas estreias.

***Para saber mais sobre a Censura e a Ditadura Militar acesse o texto de nosso parceiro Will Bongiolo sobre Filmes censurados na Ditadura Militar.

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