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3 filmes para “comemorar” o golpe de 1964

*este artigo traz algumas verdades que, tal qual aquela que diz que a terra é redonda, vêm sendo desacreditadas por certos setores da sociedade. Para complementar este artigo, sugiro a lista escrita pelo Davi Vilela com 10 filmes para assistir e refletir, e a lista do Will Bongiolo de Filmes censurados pela Ditadura Militar.

Foi entre os dias 31 de março e 1º de abril, no ano de 1964, que ocorreu no Brasil uma mudança brusca na história: um golpe de estado que encerrou o governo do então presidente João Goulart, e instaurou um regime militar que, a princípio, deveria durar até as eleições de 1965, mas acabou governando o país por 21 anos.

Ao longo desse período, os brasileiros não puderam escolher quem ocuparia o cargo da presidência da república e, no auge do autoritarismo do período, sequer para cargos de governador ou deputado. Também foram proibidos de falar o que quisessem: infiltrados do governo estavam presentes em universidades e outras instituições para identificar qualquer pessoa que se mostrasse contrária ao governo instaurado. Não era possível publicar qualquer tipo de notícia e opinião em jornais e revistas: censores do regime mandavam cortar trechos ou textos inteiros de matérias, peças de teatro, roteiros de filmes, entre outros.

Antes dos filmes, vamos a alguns números:

A Comissão Nacional da Verdade atuou, entre 2012 e 2014, para desvendar os dados e informações perdidos no tempo, visto que em 1979 a Lei da Anistia havia perdoado todos os considerados criminosos pelos Atos Institucionais, permitindo o retorno a vida político-partidária dos anistiados, mas também perdoando os crimes realizados por membros das forças armadas durante o regime militar.

Os dados encontrados pela CNV foram os seguintes: 377 agentes militares atuaram na repressão, que resultou em 434 mortos e desaparecidos (número total entre mortos, corpos encontrados tardiamente e corpos até hoje desaparecidos), ainda que estes números possam ser triplicados por um estudo feito pelo Governo Federal, cujo levantamento detalhava ao menos 600 pessoas que não constam na relação oficial. Ainda segundo os dados da CNV, foram 6.591 militares perseguidos pela ditadura (pessoas de dentro das forças armadas que não compactuavam com o governo).

O projeto “Brasil: Nunca Mais“, liderado pelo bispo católico Dom Paulo Evaristo Arns, Rabino Henry Sobel, e o Pastor presbiteriano Jaime Wright, contabilizou 1.918 prisioneiros políticos que atestaram ter sido torturados entre 1964 e 1979 (mas foram mais de 6 mil denúncias de tortura contabilizadas no período por outro levantamento).

Vamos “comemorar” o golpe de 1964?

Existem muitos filmes que retratam como foi a Ditadura Militar no Brasil. Então vamos entender um pouco como foi esse período por meio dos filmes.

Cabra Marcado para Morrer

O primeiro filme para nos ajudar a entender mais sobre a Ditadura Militar no Brasil é, na verdade, um documentário sobre um camponês. Considerado um dos maiores documentários brasileiros de todos os tempos (talvez o maior), Cabra Marcado para Morrer é, por si só, fruto da repressão dos anos de chumbo.

A história do filme: Eduardo Coutinho estava na Paraíba quando descobriu que um camponês havia sido morto. Interessado pela história, decidiu fazer um filme ficcional no qual os camponeses da região seriam os atores e a viúva do camponês, Elizabeth Teixeira, faria o papel de si mesma.

Em 1964, quando Coutinho estava produzindo o filme, ocorreu o golpe, e tudo foi por água abaixo, inclusive boa parte dos rolos do que havia sido filmado, pois eles tiveram a produção ameaçada e precisaram ir embora, e boa parte dos rolos foi apreendida por policiais. O resultado final é um documentário sobre tudo o que circula em torno dessa história. Acima de tudo, o filme é um retrato de como era ser camponês e pobre durante a ditadura, e tem o poder de ampliar o ponto de vista histórico das pessoas sobre o período, deixando bastante evidente o quanto o regime prejudicou os mais pobres e atingiu até mesmo os rincões rurais do país.

Muita gente argumenta que a Ditadura só perseguiu comunistas ou terroristas, mas na verdade ela impedia os trabalhadores de se organizarem, perseguia qualquer pessoa que buscasse lutar por algum direito, e não dava garantias jurídicas de defesa a quem quer que fosse perseguido pela polícia.

Batismo de Sangue

Sempre indicado em listas de filmes sobre a Ditadura, o longa dirigido por Helvécio Ratton merece destaque pelo seu didatismo, mas apenas isso. Baseado no livro homônimo de Frei Betto, o longa conta muitas histórias, tenta falar de tudo, é bastante verborrágico, e apesar de ser tecnicamente ótimo, traz algumas atuações bastante fracas. Como cinema, comete muitos pecados. Mas funciona como uma verdadeira aula, e por isso deve ser visto e revisto.

Ao contar a história de frei Betto (Daniel de Oliveira), frade dominicano e jornalista atuante na política até os dias de hoje, o filme também acompanha Frei Tito (Caio Blat), e outros membros da Igreja Católica que se alinharam politicamente à luta contra a Ditadura.

Batismo de Sangue mostra torturas de maneira bastante explícita: pau de arara, choque elétrico e espancamentos fazem parte de toda a projeção, além de uma cena retratando a morte de Carlos Marighella, vivido pelo ator Marku Ribas.

Nos diálogos expositivos do filme, é interessante notar um momento em que os padres utilizam trechos da bíblia para justificar suas ações. E os discursos dos torturadores, que tratam todos como comunistas que merecem morrer, são muito parecidos com o que muita gente diz nos dias de hoje.

Um pensamento interessante a respeito deste filme é que muitos diziam (e dizem) que a Ditadura perseguiu comunistas que implantariam um regime totalitário “ao estilo de Cuba”, mas há uma cena em que, após uma reunião da UNE ser impedida de acontecer, um estudante chega à conclusão de que só a luta armada os tiraria do poder. Ou seja, se houvesse algum tipo de liberdade, muitos não teriam aderido à luta armada. É o próprio autoritarismo que gera reações como ataques e sequestros (tanto que o filme tem um “ponto de encontro” com outro filme, o excelente “O que é isso, companheiro?”).

É claro que muitas das pessoas que lutaram contra a Ditadura Militar eram defensores da ditadura do proletariado, da revolução popular, ou de alguma forma de regime semelhante ao da União Soviética, por exemplo. Em um estado democrático de direito, seria possível dialogar e falar sobre isso em forma de debate com toda a sociedade. A grande questão é: tortura não deve ser algo defendido ou sequer pensado contra qualquer pessoa. Quando se fala que o Brasil deveria ter punido os torturadores, é óbvio que o caminho ideal é a prisão por meio de um processo jurídico justo e com direito à defesa. Tortura não deve existir contra absolutamente nenhum ser humano, seja qual for o pensamento dele.

Por isso, sempre é válido lembrar que o Brasil nunca, em toda sua história, correu algum risco de se tornar um país comunista. O então presidente Jango, deposto da presidência, era reformista e conversava com as classes trabalhadoras, mas era também herdeiro de muitas terras e sempre teve uma visão pró-mercado. É interessante notar um detalhe no filme Batismo de Sangue (e é algo que se repete ao longo da história do Brasil): as ideias que a maioria dos considerados “comunistas” tinham eram muito mais princípios de justiça social (reduzir as desigualdades, aumentar o salário mínimo, dar mais direitos ao trabalhador e fazer reformas de base) do que qualquer ideia de acabar com a propriedade privada ou estatizar empresas.

O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias

Um dos grandes filmes de Cao Hamburger é também um excelente retrato da ditadura pelos olhos de um menino. Como não podia deixar de ser, o criador da série icônica Castelo Rá-Tim-Bum sabe lidar com crianças. É o que fica visível nas cenas com Mauro (vivido pelo menino Michel Joelsas, que voltaria mais tarde aos holofotes do cinema em “Que Horas Ela Volta?”) e seus amigos.

A história do filme é basicamente o período de um ano em que o protagonista precisa viver em um bairro judeu com um amigo de seu avô porque seus pais, militantes, precisam fugir da perseguição política.

Inicialmente, eu refletia sobre o fato de a Ditadura ter causado sofrimento até mesmo para pessoas que não tinham relação nenhuma com militância política, como crianças e idosos. Mas acredito que há um tema ainda mais importante no filme: a vida diária durante o período.

Quando acompanhamos o pequeno Mauro em seu dia a dia, vivendo em um bairro tranquilo, assistindo aos jogos da Copa do Mundo de 1970 quando o Brasil foi tricampeão, vemos que muita gente vivia tranquilamente a vida. As cenas do filme fazem par com uma cena em específico de “Batismo de Sangue”, quando a morte de Marighella é anunciada no intervalo do jogo de futebol e as pessoas do bar simplesmente continuam tranquilas discutindo a partida.

Estas cenas são importantes porque mostram que, para muita gente, a Ditadura não foi significativa. Eu mesmo, ao conversar com meus pais, tios e avós, vejo que eles continuaram com suas vidas normalmente, até porque poucos sabiam de alguma coisa concreta, já que a mídia era censurada. A grande questão que fica é: vale a pena viver tranquilamente em um país enquanto o Estado (ou seja, o dinheiro dos seus impostos) financia a morte e a tortura de pessoas?

E tem mais: onde fica a consciência, a ética, a empatia e o senso de comunidade de uma pessoa que não vê problemas em prisões sem mandado judicial, tortura e morte sem registro? É sempre bom lembrarmos que, durante a Ditadura, não podíamos “falar mal” do presidente, como hoje é tão comum. É até difícil imaginar hoje o que significa viver em um país onde não se pode criticar o governo, manifestar-se (nem que seja por uma carta ao jornal), ou ter que ficar quieto diante do sumiço de um vizinho ou parente – ainda que eu tenha noção dos meus privilégios e saiba que isso é uma realidade em muitas periferias do país.

Um “meme” circula na internet com algumas definições um pouco exageradas, mas que fazem sentido. Nele, são indicadas algumas “verdades difíceis de engolir”. Em seguida, como se fossem comprimidos, o quadrinho aponta três: “a ditadura só foi branda com quem era frouxo”, “seu avô não sofreu repressão porque era um bunda mole”, “Você só acha bonito respeitar as autoridades porque é cagão demais para questioná-las”. O tom exagerado do texto apenas nos lembra da ideia de que muitas pessoas que não faziam nada diferente de levar suas vidas não sofreriam. Ainda assim, existem evidências de que a ditadura torturou e matou completos inocentes, desde crianças como os irmãos Nascimento, a jornalistas que nada fizeram, como Vladimir Herzog.

Com esta lista de filmes acompanhados de comentários mais extensos, creio que posso concluir minha “homenagem” ao golpe de 1964 e à Ditadura Militar. É graças à democracia que eu posso escrever um artigo como este – e que você pode comentar abaixo (desde que não com ofensas ou discursos de ódio).

Quer mais informações? Sugiro a leitura deste artigo da Superinteressante:

21 mitos sobre a ditadura militar

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