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Um texto para os homens

Imagine que você está com o seu melhor amigo. Vocês estão na casa dele, as cervejas estão geladas e a pizza está sendo assada no forno. Vocês passaram por uma semana comum no trabalho, não há grandes novidades. Enquanto conversam, comem petiscos e dão risada sobre assuntos do dia-dia. Seu amigo percebe que a sua cerveja acabou e se prontifica a pegar outra. No caminho entre a sala e a cozinha, suas pernas perdem a força, a tontura o leva a se apoiar na porta da cozinha. Com o estômago doendo, ele vomita.

Ao perceber o que está acontecendo, você atribui o motivo à bebida ou aos petiscos. Você pergunta a ele o que está sentindo, mas ele não sabe dizer ao certo, apenas afirma que está tonto e fraco. Chegada a conclusão que é melhor leva-lo ao hospital, você o carrega até o carro. No caminho, ele está quieto. Preocupado, você acelera o carro para chegar mais rápido ao pronto atendimento.

Ao estacionar, enquanto vocês estão descendo do carro, seu amigo desmaia. Você corre para dentro do hospital para pedir ajuda e felizmente enfermeiros e médicos se apressam para socorrê-lo. O seu coração acelera, você não sabe ao certo o que pensar.

Todos se encaminham para o atendimento emergencial, mas você é aconselhado a ficar na sala de espera. A atendente pergunta qual a sua relação com o paciente, ela pede que você se sente e, após observar a sua aparência, pergunta se está sentindo-se bem. Você acena com a cabeça positivamente, mas agora mal consegue ouvir o que ela está dizendo, a falta de ar o incomoda e você se senta enquanto a atendente lhe traz um copo de água.

Após alguns minutos, você recebe a notícia que o seu melhor amigo tem câncer. Os médicos recomendam que ele consulte um especialista para um diagnóstico mais preciso, mas as previsões não são boas.

Poucos dias depois, ele descobre que o tumor é inoperável, não há possibilidade de cura e a morte é certa. O médico  anuncia a possibilidade de apenas alguns meses de vida. Vocês sabem que as próximas semanas não serão fáceis, o tratamento é difícil e desgastante. Contudo, pela caracterização da situação – doença terminal -, seu amigo tem o direito legal de encerrar com a própria vida através do uso de medicamentos. Com medo do sofrimento do tratamento e da piora do quadro para os próximos meses, ele decide por não fazer quimioterapia e aceitar a morte.

O que você diria a ele? Quais seriam as palavras para uma situação como esta? Você o motivaria a fazer o tratamento? Você aceitaria e respeitaria qualquer decisão que ele tomasse? O que você gostaria de dizer ao seu melhor amigo, aos seus familiares ou às pessoas próximas a você?

“Paddleton” (2019)

Esse é o tema abordado pelo filme “Paddleton” (2019). Michael (Mark Duplass) descobre que tem um câncer inoperável e, com medo de todo o sofrimento que está por vir, decide morrer de forma controlada pela ingestão de medicamentos próprios a essa finalidade. Contudo, ele precisa da ajuda de seu melhor amigo Andy (Ray Romano), para seguir com o plano até o final.

A produção se encaixa na categoria “dramédia” – drama + comédia. O filme é envolvente, engraçado e emocionante. Mesmo com uma história simples que retrata duas vidas comuns passando por uma situação difícil, sem grandes reviravoltas e surpresas, o espectador fica apreensivo, ansioso pelo final.

“Paddleton” me fez pensar sobre o quanto nós (homens), temos dificuldade em lidar com os nossos sentimentos e nos abrir com as pessoas ao nosso redor. Durante todo o filme, é possível sentir a angústia entre os dois amigos por não dizerem o que realmente precisava ser dito. Identificamos coisas que são sentidas entre os dois, mas que permanecem nas entrelinhas: a importância da amizade, o medo, a insegurança, a angústia, a dor, o sofrimento, etc.

Na minha experiência como psicólogo clínico, um dos principais temas que trabalho com homens que chegam ao meu consultório é a habilidade de aprender a discriminar as próprias emoções. Na nossa criação, quando meninos, não somos incentivados a observar e nomear o que sentimos. Ao invés disso, nos é dito que as emoções devem ser reprimidas, porque “homem não chora, não sente medo e não fica triste”.

O problema é que quando crescemos, continuamos sem saber nos comunicar assertivamente – e pior, em boa parte dos casos, nem conseguimos identificar o que se passa conosco. O modelo que nos é posto acaba direcionando as nossas ações à via da agressividade, do uso de drogas e outros comportamentos autodestrutivos. Com a falta da comunicação aberta, capaz de criar espaço para as emoções, as nossas relações se degeneram e o ciclo continua.

O filme “Paddleton” é um exemplo de produção que me trouxe essa reflexão sobre a dificuldade da comunicação masculina, mas já consigo identificar outras produções que também abordam esse tema tão importante às nossas vidas. O fato é que precisamos aprender a nos comunicar melhor. Quanto mais formos capazes de explicar as pessoas ao nosso redor o que se passa em nós, mais conseguiremos criar laços de intimidade que constituem a base de relacionamentos saudáveis e duradouros. Todos temos a ganhar.

Por isso, eu volto a pergunta do início: o que você diria ao seu amigo que está à beira da morte? E se fosse você nessa situação, o que você gostaria de dizer às pessoas? Quem você gostaria que estivesse com você? Você já disse a essas pessoas o quão importante elas são na sua vida?

Você pode começar agora.

Assista ao trailer abaixo: Paddleton (2019).

https://www.youtube.com/watch?v=TdGqvHrNPt8
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