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Crítica: Infiltrado na Klan (2018)

Ficha técnica:

Direção: Spike Lee.

Elenco: John David Washington, Adam Driver, Topher Grace, Laura Harrier, Ryan Eggold, Harry Belafonte e Alec Baldwin.

Nacionalidade e data de estreia: Estados Unidos, 30 de julho de 2018.

Sinopse:

Um policial negro resolve se infiltrar na organização racista Ku Klux Klan. Para isso, ele conta com a ajuda de outro policial.

 

Infiltrado na Klan” coloca o diretor Spike Lee de volta aos holofotes, em uma obra forte, polêmica e necessária, depois de algum tempo sem fazer algo à altura de seu talento como realizador de obras provocadoras. Lee gosta de cutucar a ferida do preconceito racial; e em seu novo trabalho, ele expõe um fato verídico que aconteceu no ano de 1978, quando, nos EUA, o policial negro Ron Stallworth (feito por John David Washington, filho do ator Denzel Washington), cansado de seu posto – que acaba por inferiorizá-lo – resolve se infiltrar na Ku Klux Klan, no intuito de causar uma desestruturação interna dentro da organização racista, e evitar que eles cometam mais atrocidades.

Mas seu desejo de sabotagem seria impossível sem a ajuda do policial branco Flip Zimmerman (o bom Adam Driver), a pessoa que se apresenta presencialmente nas reuniões do polêmico grupo. Então, enquanto Flip é quem está ali ao lado dos integrantes da Klan, sendo convencido a fazer parte de toda aquela barbárie, é Ron, através de ligações telefônicas e cartas, quem articula os encontros, chegando até mesmo a conversar com o líder David Duke (Topher Grace).

Mas Ron, mesmo com tanta disposição em sua perigosa missão, ainda é um policial sem muito preparo. Ele se mostra um pouco ingênuo em meio ao que lhe cerca, além de cometer um grave erro ao dar seu nome verdadeiro para os membros da organização. Além disso, ele se envolve com uma integrante do grupo militante Panteras Negras, algo que pode colocar em risco todo o processo investigativo. Dentro da própria corporação policial, Ron ainda é alvo de preconceito por um de seus colegas.

Apesar de sabermos que, se descoberto, Ron seria imediatamente linchado pelo grupo, é Flip, no entanto, quem acaba passando pelos momentos mais arriscados, quando precisa fingir ter ódio dos negros, sendo ele, além de policial disfarçado, um judeu. A cena em que ele, depois de uma forte tensão com um dos homens, sai na rua atirando para o chão, é desde já uma das melhores cenas do ano. É ali também que ele, em um curioso e sarcástico diálogo, tenta convencer seu opositor de que o Holocausto realmente aconteceu.

Em uma das cenas-chave, Flip finge vibrar com seus novos “amigos” ao assistir “O Nascimento de uma Nação”, o épico racista dirigido por D. W. Giffith em 1915. Neste mesmo momento, em outro local, um personagem idoso (feito pelo célebre Harry Belafonte) narra um terrível e sangrento fato histórico envolvendo o linchamento de um adolescente negro, ocorrido um ano depois do filme de Griffith ser exibido nos cinemas.

O diretor optou por um tom menos pesado (apesar dos momentos de tensão), criando uma narrativa com alguns toques de humor. Mas vindo de Lee – em um tema tão polêmico – esse humor na verdade se torna algo mais crítico do que se fosse mostrado de forma mais séria. O tempo todo Lee parece ridicularizar o grupo racista, mostrando como eles são facilmente enganados por dois homens com vozes diferentes, e que, em alguns momentos, se contradizem nas informações combinadas por eles.

O início de “Infiltrado na Klan” por si só já é curioso, quando é mostrado uma cena memorável de um famoso filme do final dos anos 30, seguido de um discurso inflamado e esquematizado de um supremacista branco (feito por Alec Baldwin), que, através de montagens, tenta justificar a divisão e perseguição racial.

É importante lembrar que alguns fatos do filme de Lee em relação à vida real foram alterados ou inventados, como Flip na verdade ter outro nome, e também por ele, na realidade, não ser judeu.

Revelado em 1989, com “Faça a Coisa Certa”, onde, no dia mais quente do ano explode uma violenta guerra racial urbana, Spike Lee teve à partir dali seu nome ligado à luta contra o racismo nos EUA. Em 1992, ele dirigiu o biográfico “Malcolm X”, um longo e contundente trabalho que tem à frente do elenco o ótimo Denzel Washington. Em “A Última Noite”, ele mostra um condenado (Edward Norton) em seus últimos momentos de liberdade, antes de ir para a prisão.

É bem verdade que Lee andou dando umas escorregadas em projetos que pouco ajudaram sua carreira, como é o caso da refilmagem “Oldboy: Dias de Vingança” (2013). Mas, com “Infiltrado na Klan”, ele retorna em grande estilo, num momento em que a intolerância racial volta a se fortalecer mundo afora.

Filmes como “12 Anos de Escravidão” (2013. Direção de Steve McQueen), “Selma: Uma Luta pela Igualdade“ (2015. Direção de Ava DuVernay), “Detroit em Rebelião” (2017. Direção de Kathryn Bigelow) “Corra!” (2017. Direção de Jordan Peele) e “Mudbound – Lágrimas Sobre o Mississipi” (2017. Direção de Dee Rees) retrataram recentemente o ódio e a opressão racial, denunciando algo que muitos ignoram ou até mesmo fingem não mais existir. Além destes filmes, no ano de 2017, três documentários sobre o racismo foram indicados ao Oscar na categoria. Foram eles: “A 13ª Emenda” (Direção de Ava DuVernay), “Eu Não Sou Seu Negro” (Direção de Raoul Peck) e o vencedor “O.J.: Made in America” (Direção de Ezra Edelman). Este último utilizando o racismo em algumas partes de suas mais de 7 horas de duração).

Em um momento do filme de Lee, Ron Stallworth parece não acreditar que o poder daquela gente intolerante pudesse atravessar gerações. E o quanto ele estava errado se mostra no fato de hoje, David Duke, o líder da Klu Klux Klan naquela ocasião, ser um influente historiador e ex-político, apoiador da campanha presidencial de Donald Trump, além de ter sido um dos organizadores do protesto racial ocorrido em 2017 em Charlottesville; mostrando que a chama da Ku Klux Klan nunca se apagou. E é com imagens deste protesto que Lee encerra seu filme, dedicando-o à memória de Heather Heyer, manifestante branca, atropelada e morta por um extremista durante aqueles atos violentos.

Vencedor do Grand Prix no Festival de Cannes, “Infiltrado na Klan” é cinema da mais alta qualidade, trazendo de volta ao patamar dos grandes realizadores do cinema mundial um diretor talentoso e provocativo que nunca se cansou de lutar contra o racismo.

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