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Filmes e aprovações de leis: coincidência?

Assisti recentemente ao filme Ferrugem, de Aly Muritiba. O longa estreou este ano em Sundance e chegou ao circuito comercial há algumas semanas. Coincidentemente (ou não), vi o filme no mesmo dia em que o presidente da república em exercício Dias Toffoli (na ausência de Temer e dos presidentes do Senado e Câmara em período eleitoral) sancionou uma lei que criminaliza ações como a “importunação sexual” e a “divulgação de vídeos de sexo”.

O filme “Ferrugem” tem uma trama totalmente ligada ao que chamam de “divulgação de vídeos de sexo”. Na trama, a adolescente Tati se vê diante de um vídeo seu divulgado para toda a sua escola.

Então, me lembrei de quando saiu o filme “Que Horas Ela Volta?”. O longa de Anna Muylaert foi lançado em Agosto de 2015, três meses após a publicação final da “PEC das domésticas”, que regulamentava e garantia os direitos trabalhistas às empregadas e empregados domésticos do país (e que havia sido promulgada pelo Congresso dois anos antes).

Não é apenas uma questão de coincidência que tenhamos filmes discutindo assuntos que recebem atenção das novas legislações. Afinal, embora tenhamos um poder legislativo falho e atrasado, o fato é que o bom cinema invariavelmente discute temas que estão sendo discutidos por toda a sociedade. Recentemente, falamos aqui no Cinem(ação) sobre o filme “Alguma Coisa Assim”, que foi gravado ao longo de vários anos. E ao longo desses anos, percebemos temas sendo discutidos conforme o tempo das filmagens: as cenas que foram gravadas para a “segunda parte” mostram um casamento entre dois homens, o que só foi possível porque ela foi escrita após a decisão do STF sobre o tema.

 

É claro que dizer que filmes devem falar sobre suas épocas é “chover no molhado”. O interessante é ver como leis e filmes podem coincidir desta forma, mesmo com o tempo de produção e elaboração que possuem. O processo de elaboração e aprovação de um projeto de lei pode levar quase uma década, assim como a produção completa de um filme até sua distribuição, mas ambos possuem tempos muito variáveis.

 

O mais interessante é notar que esses processos ocorrem em paralelo. São debates correntes na sociedade. São questões que fazem parte do mundo em que vivemos. E tanto as leis quanto os filmes podem representar muito bem a evolução passo a passo da nossa sociedade – ainda que sejam “de formiga e sem vontade”.

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