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Crítica: Benzinho

Benzinho, de Gustavo Pizzi

Benzinho fez sucesso no Festival de Sundance graças à sua sensibilidade ímpar. E foi aclamado no Festival de Gramado também!

 

Ficha técnica:

Direção: Gustavo Pizzi
Roteiro: Gustavo Pizzi, Karine Teles
Elenco:  Karine Teles, Adriana Esteves, Otávio Müller, Konstantinos Sarris, César Troncoso, Mateus Solano.
Nacionalidade e lançamento: Brasil, 23 de Agosto de 2018 (nacional)

Sinopse: Irene é mãe de quatro filhos, conseguiu finalmente se formar no ensino médio, e além de todas as dificuldades que vive, terá que superar a ida do filho de 16 anos para a Alemanha.

 

Diante de uma dificuldade no cartório – e da possibilidade de que a transferência do filho à Alemanha não se concretize – Irene não consegue evitar um sorriso, que a este momento da projeção era até esperado pelo espectador, já íntimo da protagonista.

Esta cena de “Benzinho” é bastante significativa de todo o filme. Acompanhamos a vida de Irene, suas tarefas e suas batalhas diárias, e com isso compreendemos profundamente seus sentimentos.

“Benzinho” é desses filmes em que pouca coisa acontece, mas muita coisa acontece. Em essência, é a dona de casa lidando com o fato de que seu filho mais velho foi chamado para jogar handebol na Alemanha. De resto, é a rotina cheia de batalhas diárias de uma pessoa de origem humilde com quatro filhos, e que ainda precisa dividir o drama da irmã, que busca se separar do marido problemático (César Troncoso, aqui um pouco destoante).

A situação inicial da trama, na qual a protagonista não consegue abrir a porta, mostra simbolicamente o quanto Irene tem dificuldades de sair de uma situação e seguir adiante, ao mesmo tempo em que reflete sua dificuldade em deixar que sua prole saia de casa. Em outro momento, conseguimos sentir o quanto a vida difícil de Irene a tornou essa mãe que abraça os filhos a qualquer custo, já que ela foi filha de empregados considerados “praticamente da família”, com todos aqueles elementos apresentados em “Que Horas Ela Volta?“. Aliás, é quase inevitável fazer comparações entre este e o filme de Anna Muylaert (e que curiosamente tem Karine Teles na posição social oposta). Ainda sobre a casa em que vivem, é impressionante como ela representa muito da situação da própria protagonista: simples, cheia de defeitos e fragilidades, mas ainda assim acolhedora e confortável.

 

É impressionante como o roteiro é capaz de mostrar cada um dos personagens com nuances e elementos que os aprofundam. Há tempo para explorar até mesmo a personalidade dos irmãos gêmeos (engraçadíssimos, por sinal). Mas nada se compara à situação de Sônia (Esteves), cuja luta forma um importante paralelo com a vida da protagonista, como se estivesse nos lembrando de que há formas piores de se desmoronar um lar. E se conseguimos entender a visão sonhadora do ex-livreiro Klaus (de fato, quem viveu entre muitos livros só poderia ser sonhador), também compreendemos a cena em que há um breve olhar melancólico de Fernando para a família: aliada aos momentos em que ele se diverte com os irmãos e a mãe, à situação de ternura na boia, e às cenas em que cuida de seus irmãos, fica claro o quanto ele vai sentir falta de todos eles. Exatamente por isso, torna-se paradoxalmente sintomático o momento em que ele verbaliza apenas aos amigos que vai sentir saudades.

Ainda sobre os personagens, fica latente a profundidade de Rodrigo, o irmão do meio que certamente teve seus cuidados divididos com os irmãos gêmeos mais novos, ao mesmo tempo em que não possuía o título de primogênito. Fica explicado o seu sobrepeso, sua falta de autoridade, e até mesmo seu apego ao instrumento musical.

 

Enquanto uma fotografia de cores quentes inunda a tela mostrando vivacidade e ternura nas mais rígidas paisagens urbanas de um ambiente de “classe média baixa”, o filme ainda ecoa debates atuais sobre o papel da mulher como alguém a quem foi dada a função social de fazer de tudo para cuidar da família: Irene surta quando percebe que não dá conta de fazer tudo sozinha, ao mesmo tempo em que procura por uma fonte de renda mais significativa.

Aos que esperam um arroubo de atuações ou momentos de grande apelo emocional, “Benzinho” traz imagens delicadas e cheias de carinho, mas que nunca pendem para o extremo. Trata-se de um filme bastante real. E nada é mais real do que a ansiedade externada como irritação e um gesto de carinho em que nada é dito.

  • Nota
4.5

Resumo

Enquanto uma fotografia de cores quentes inunda a tela mostrando vivacidade e ternura nas mais rígidas paisagens urbanas de um ambiente de “classe média baixa”, o filme ainda ecoa debates atuais sobre o papel da mulher como alguém que deve fazer de tudo para cuidar da família. “Benzinho” é desses filmes em que pouca coisa acontece, mas muita coisa acontece.

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