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CRÍTICA: LOST IN LONDON ”LIVE”

Um marco no cinema.

Ficha técnica:

Direção: Woody Harrelson
Roteiro: Woody Harrelson
Elenco: Woody Harrelson, Owen Wilson, Eleanor Matsuura, Ricky Champ, Martin McCann e participações de Bono Vox e Daniel Radcliffe.
Nacionalidade e lançamento: Reino Unido, 19 de Janeiro de 2017 (mundial)

Sinopse: Acreditem, até os famosos tem um dia ruim. E eis que aqui temos Wooddy (Woody Harrelson) passando por uma destas noites infernais, onde entra em uma encrenca após a outra sem parar até conseguir a façanha de ir preso.

Quem me acompanha aqui no Cinem(Ação), sabe que eu não posto críticas de filmes dos quais não são recentes. Gosto de escrever em cima de material fresco, ainda em cartaz. Mas eis que me deparo com esta preciosidade no qual, poucas pessoas conhecem ou ouviram falar, fora que em toda web, mal acha-se conteúdo de qualidade falando sobre a obra. Pois bem, me senti na obrigação de rabiscar algo.

Vamos por partes. Gostaria então, de começar com a cabeça de quem não faz ideia do que esta prestes assistir:

Logo de cara você sente a câmera viva, inquieta e perseguidora, e entende que o filme não é ”em primeira pessoa”, mas que seguirá o protagonista por onde ele for, logo, nos ajeitamos na poltrona e nos preparamos para mais um Birdman. Sabe como é né, depois do sucesso que foi, meio óbvio pipocar filmes assim por aí. A pergunta que fica é: ”seria este tão bom quanto?”.

Todo mundo sabe que estes filmes com poucos cortes, que se sustenta no exagero sem igual de plano-sequência, é extremamente cansativo e até afasta os menos acostumados. Aqui você tem que consumir a tática escolhida pela premiada obra de Iñárritu – 2 anos antes – e arquitetada geniosamente em Festim Diabólico de Hitchcock – a pelo menos 7 décadas atrás – sem ter por onde fugir.

Você assiste relatos da realidade crua e quase sem graça de um artista decadente, onde até se depara com alguns bons ganchos e diálogos ácidos, mas que estão embalados em um ritmo tão corrido e sem vida, que as atuações chegam a parecer serem ”ruins” de propósito. Ao decorrer do longa, temos participações ótimas e locações grandiosas, mas parece que nada tem muito peso com você ali, preso ao horário real de cada passo de Woody. Existem algumas situações embaraçosas e outras tantas vexatórias, mas tudo amarrado por um diretor, que você sente conhecer muito daquela realidade e que quer passar segurança nos assuntos que toca, como o assédio do público, o desconforto das estrelas, o abuso dos paparazzi e ao citar falas e mais falas de tudo quanto é filme, como um fã que batalhou a vida toda para escrever um roteiro que referenciasse a cada um de seus ídolos.

O filme que só aparentava ser um Se Beber Não Se Case fraquíssimo, onde só nos apresentava personagens tentando opinar de formas distintas sobre um mesmo problema e um Woody Harrelson meio afobado a cada cena e sem o seu tão admirado carisma, de repente se torna completamente ímpar quando se entende o seu conceito.

A partir daqui, vamos consumir o filme da forma certa, do jeitinho que ele foi edificado para nós:

Não é simplesmente um roteiro de um admirador da sétima arte, tentando fazer o maior número de referências possíveis para cinéfilos captarem, e sim é a p#%%& do Woody Harrelson relatando uma história real de sua vida!! SIM MEUS AMIGOS, o filme não só se passa em tempo real como é baseado em fatos reais dos quais perturbaram por anos a cabeça de seu criador.

Woody pode ter entrado em uma pilha incrível depois de ver o mexicano levando o Oscar com um filme em formato de sequências sem fim – hoje sabemos que tem alguns cortes – e isso fez com que amadurecesse a ideia que tanto queria contar?? Não há dúvida e também não vejo problemas nisso, porém ele vai ainda mais longe. Além de escrever e atuar, ele produz, dirige o filme estando em tela e ainda faz com que a obra passe AO VIVO nos Cinemas naquela mesma noite da gravação.

VOCÊS ESTÃO ME ACOMPANHANDO??

Woody Harrelson fez a coisa mais impossível acontecer na telona, este cara que deveria ser reverenciado por onde fosse, fez todas as funções mais difíceis no cinema, enquanto não só satisfeito em negar-se aos tão viáveis cortes, em seus mais de 100 minutos de duração, também transmitiu ao vivo – com todas as chances inimagináveis de poder dar merda para sua produção, nomes envolvidos e grana investida – o filme para pessoas que pagaram o ingresso antecipadamente ao próprio filme ser gravado… cara… eu quero apertar a mão deste homem antes de morrer.

Agora temos um filme completamente diferente para analisarmos. O que era intriguinha de personagens com papo de quem é melhor: Wes Anderson ou Woody Allen, nos deparamos com uma produção fantástica que beirou a perfeição a cada take, desde o alinhamento dos personagens, diálogos muitas vezes batidos com dois dedinhos de improviso, coreografia do câmera esfomeado por bons ângulos sem um minuto de descanso e principalmente em uma cena específica na qual tem um leve ‘’acelerar’’ do tempo, que foi feito magistralmente.

O elenco foi feito com um capricho sem igual, optando por atores reais que tiveram ligação com aquele fato que se passa em 2002, e também atores desconhecidos – mas muito competentes – para suprir a proposta de realidade daquele ‘’dia’’ que nos é apresentado. Temos também duas pequeninas dando vida as suas filhas que tinham uma determinada idade na época e até mesmo a atriz Eleanor Matsuura, oriental, como a sua verdadeira esposa para tudo ficar com um sabor ainda mais verídico. A cada cena damos falta da tal ‘’edição’’, nos mostrando o valor de uma boa montagem. Já pensou, como foi o treino desta equipe? Que loucura não foi para todos atrás daquela lente? Eles mudam de cenário o tempo todo!

Claro que há coisinhas que saíram do controle e algumas passagens que realmente parecem não nos levar a lugar algum na ‘’trama’’, fora que a falta dos tão manjados ”arcos” pesam um pouco e acabamos com um gostinho de que poderia ter sido melhor… Porém eu daria 5 estrelas com absoluta certeza, se eu tivesse sido um dos sortudos que tiveram o prazer de provar esta experiência de consumir um filme ‘’ao vivo’’ no cinema. Aliás este é um formato que talvez não ganhe muitos adeptos, mas que mostra que o cinema sempre poderá nos surpreender ao se reinventar.

4

Resumo

Um longa com duas óticas e uma experiência incrível o que reverbera um pouco na nota – ou você vai amar ou odiar. Erra pouco e nas vezes que ocorre fica sem sal, mas é inegável a sua coragem. Woody Harrelson foi indicado 3x ao Oscar, em 1997, 2010 e 2018 e ainda não faturou uma estatueta, porém, toda a indústria e os seus consumidores, deviam dar o devido valor a este Monstro, que prova cada vez mais o tamanho de sua dedicação a arte.

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