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Análise de diálogo: Psicose

Este artigo tem a intenção de ser apenas uma breve análise da primeira cena do filme Psicose (1960), de Alfred Hitchcock. O objetivo desta análise de diálogo é apenas exemplificar alguns elementos interessantes que são apresentados logo nos primeiros minutos desta que é uma das maiores obras do diretor inglês.

 

As primeiras cenas de um filme sempre buscam estabelecer a situação e o cenário da história que será contada. É curioso, no entanto, que o filme Psicose comece estabelecendo uma situação inicial que mais tarde se tornará base para explorar outros personagens. Ainda assim, diferente dos filmes medianos que se contentam com diálogos expositivos ou cômodas narrações em off, Psicose faz como todo bom filme e apresenta elementos que explicam muito da trama que está por vir.

O roteiro de Joseph Stefano (em seu único trabalho com Hitchcock, a despeito de sua amizade com o diretor) é bem amarrado e repleto de mudanças em relação ao livro de Robert Bloch. A cena, que se inicia após um plano aberto da cidade de Phoenix, Arizona, é protagonizada por Marion Crane (Janet Leigh) e Sam Loomis (John Gavin). O diálogo transcrito não leva em conta a descrição da cena.

 

SAM: Não comeu seu almoço, não é mesmo?

MARION: Melhor eu voltar para o escritório. Estas horas de almoço longas deixam meu chefe irritado.

SAM: Por que você não liga para o seu chefe e diz que vai tirar a tarde de folga? É sexta-feira, e está quente.

MARION: E o que eu faço com a minha tarde livre? Levo você para o aeroporto?

SAM: Poderíamos ficar aqui mais um pouco.

MARION: Temos que sair às 3 horas. Hotéis deste tipo não ligam para a hora de chegada, mas quando chega a hora de sair… Sam, odeio ter que ficar com você em um lugar desses.

SAM: Há casais que passam noites em um hotel barato propositalmente, de vez em quando.

MARION: Quando se é casado, pode-se fazer muitas coisas propositalmente.

SAM: Você fala como alguém que já foi casado.

 

O início do diálogo já nos deixa muito claro o pano de fundo do casal. Ambos possuem um relacionamento amoroso mas não são casados. A última fala deste trecho, de Sam para Marion, já nos mostra que não se trata de uma mulher casada. O que hoje pode ser absolutamente normal, nos anos 60 era bastante ousado para a sociedade uma mulher solteira estar em um hotel barato – que não apenas o diálogo como todo o cenário do filme nos mostra.

Ao dizer que casados podem fazer muitas coisas como bem desejam, Marion já estabelece que não pode fazer tudo o que deseja, justamente por ser uma mulher solteira, e já inicia a temática do casamento. Ou seja, embora a protagonista da cena seja uma mulher à frente do seu tempo, não deixava de ter os sonhos “tradicionais” de constituir uma família.

Esta primeira parte do diálogo mostra como Marion, apesar de ser uma mulher independente, está longe de ser uma pessoa extremamente disruptiva de seu tempo: ela não se sente bem ao ir para um local como aquele e ainda carrega consigo o sonho de se casar. Mais elementos poderão ser vistos nas próximas falas.

 

MARION: Sam, esta é a última vez.

SAM: É? Para o quê?

MARION: Para isso. Encontrá-lo em segredo para que não sejamos descobertos. Você vem aqui em viagens de negócios e roubamos horas de almoço. Gostaria que você nem viesse.

SAM: Está bem. E o que fazemos, então? Escrevemos cartas de amor um para o outro?

MARION: Ah, eu tenho que ir, Sam.

SAM: Posso vir na próxima semana.

MARION: Não.

SAM: Nem mesmo só para ver você? Almoçar – em público?

MARION: Ora, podemos nos ver. Podemos até jantar juntos. Mas respeitavelmente. Na minha casa, com a foto da minha mãe sobre a lareira, e minha irmã ajudando a grelhar um grande bife para nós três.

SAM: E depois do bife, mandamos sua irmã ao cinema e viramos a foto da sua mãe para a parede?

MARION: Sam!

SAM: Está bem… Marion, quero ver você sempre que for possível. E sob qualquer circunstância, até mesmo respeitavelmente.

MARION: Você faz com que respeitavelmente pareça desrespeitoso.

SAM: Não, estou disposto a fazer isso. Requer paciência, parcimônia e muito esforço. É bem trabalhoso. Mas se eu puder vê-la e tocá-la, mesmo só assim, não me importarei. Estou cansado de me esforçar por pessoas que não estão aqui. Eu me esforço para pagar as dívidas do meu pai, que já morreu. Pago a pensão da minha ex-mulher e ela está morando em algum lugar do outro lado do mundo.

MARION: Eu também pago. Também pagam pessoas que fazem encontros em quartos de hotel.

 

A continuidade do diálogo nos mostra algumas características interessantes dos personagens. Marion é firme ao dizer que não quer mais ter os encontros da forma como estão ocorrendo, e se mostra decidida a mudar. Assim que ela faz isso, Sam se mostra irônico ao questionar se devem escrever cartas de amor: afinal, a prática de enviar cartas é pueril demais para um casal que já faz coisas bem mais adultas.

A firmeza de Marion é vista mais uma vez quando ela se exaspera diante da ironia do amante, dizendo apenas que vai embora. Isso vai se confrontar com a maneira como as coisas se desenrolam na cena, quando ela mostrará que realmente gosta do homem com quem está se relacionando.

Em uma longa fala, Sam explica muito de sua vida. Cansado de pagar dívidas, ele deixa evidente que está sem dinheiro, e que isso seria o motivo para não seguir o caminho do casamento, e ainda deixa claro que seu futuro depende da ação de uma outra pessoa: de sua ex-mulher se casar novamente.

Ainda assim, o texto deixa claro que ele está apaixonado por Marion e aceita vê-la sob qualquer circunstância. Temos uma reprodução clara de uma sociedade patriarcal em que o homem sente a necessidade de ser o provedor, e mesmo assim Marion ainda dá uma cartada interessante: “eu também pago”, afirma, ressaltando que ele não é o único a sofrer com a situação em que ambos se encontram.

 

 

SAM: Mais alguns anos e minhas dívidas estarão pagas. Se ela se casar novamente, a pensão é cancelada.

MARION: Eu nem fui casada ainda.

SAM: Sim, mas quando se casar, vai adorar.

MARION: Oh, Sam. Vamos nos casar!

SAM: Sim. E viver em um armazém atrás de uma loja de ferragens em Fairvale? Vamos nos divertir muito. Tenho uma ideia: quando eu mandar a pensão à minha ex-mulher, você pode lamber os selos.

MARION: Eu lambo os selos.

Com mais um pouco da ironia de Sam, que acha ruim ter que viver nos fundos de uma loja e sugere que Marion “lamba os selos”, vemos que há um futuro para a relação. Apenas “mais alguns anos” e as dívidas estarão pagas, os problemas poderão se dissipar. Compreendemos, portanto, que a protagonista que estamos conhecendo tem chances de conquistar seus sonhos. O mais importante para a trama é, acima de tudo, que a solução para esse problema se resolveria com uma grande quantidade de dinheiro! É aí que vamos compreender as ações futuras da personagem!

 

 

SAM: Marion, quer terminar esse relacionamento e encontrar alguém que esteja livre?

MARION: Estou pensando nisso.

SAM: Como você pode pensar em algo assim?

(risos)

MARION: Não vai perder seu avião.

SAM: Ei, nós podemos sair juntos, não podemos?

MARION: Estou atrasada, e você tem que calçar seus sapatos.

 

Ainda que os “risos” sejam uma interpretação minha, podemos ver aqui que, por fim, o casal compreende que, a despeito da discussão da relação, não estão prestes a se separar, já que a fala de Marion sobre pensar em procurar outra pessoa é apenas uma brincadeira. E no fim, o mais bacana de tudo é que ela se mantém determinada: sai antes de Sam porque está atrasada, como se dissesse que é ela quem está à frente dele!

 

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