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As importantes discussões de 3%

Isso não é uma crítica de 3%.

A série brasileira da Netflix (a única produzida em terras tupiniquins, até o momento) de fato tem muitas coisas que são no mínimo esquisitas. Um roteiro picotado e cheio de inconstâncias, diálogos quase tão expositivos quanto de novela, e algumas atuações que mereciam mais cuidado – ainda que em vários aspectos a série se destaque, incluindo a produção, o ritmo e alguns bons momentos.

Mas tem uma coisa que merece ser discutido sobre a série 3%: sua mensagem e suas metáforas.

Mesmo que não traga nenhuma novidade para os futuros distópicos (de Asimov a Suzanne Collins, esses temas são sempre retomados), 3% consegue inserir diversos elementos de brasilidade ao que antes havíamos visto apenas em produções estrangeiras.

 

Ainda assim, é importante que a série discuta alguns temas tão importantes, especialmente em períodos de turbulências políticas no nosso país – e no mundo.

 

A meritocracia

Quando eu entrei na faculdade (pública!), nossa sociedade começava a falar sobre cotas. Na época, eu era contra. Afinal, eu me sentia “desfavorecido” pela proposta e tinha na ponta da língua o discurso de que era preciso melhorar “a base do ensino”. Eu, um cara branco de classe média que acabava de sair da escola particular e, como tantos privilegiados, não enxergava meus privilégios. O vestibular, para mim, era normal. Eu o encarava como uma ferramenta de seleção para as melhores instituições.

Hoje, já enxergo com muito mais clareza que o sistema de entrada nas universidades está longe de selecionar “os melhores”. Não existem “melhores”, existem apenas os que tiveram mais condições de serem aprovados em um processo (olha a palavrinha aí) que jamais terá como ser absolutamente justo, e sempre vai selecionar com base em algum tipo de parâmetro que deixará outros de lado.

Oras, me dirá o leitor: “mas tantas pessoas sem privilégios conseguiram atingir grandes objetivos com muito esforço”. De fato, sempre haverá casos que saem do padrão: pessoas de origem extremamente pobre que se tornam profissionais famosos e ricos, ou deficientes físicos que escalam uma montanha até o topo. Resta saber se é justo utilizar-se de poucos exemplos para justificar sistemas que continuam excludentes.

Em 3%, é interessante notar como o Processo é algo naturalizado – e como as pessoas desprivilegiadas o aceitam como uma verdade absoluta. “Quem não passa é porque não merece”, diz a máxima repetida pelo roteiro da série. Esse conceito está presente também na nossa sociedade, que sempre nos diz – de diversas maneiras – que quem não conquista o tal sucesso não merece ou não lutou o suficiente, e quem não passou na prova é porque não estudou tanto quanto deveria.

3% questiona esse conceito e coloca em xeque a ideia de que há os que merecem e os que não merecem. Fica a dúvida se as pessoas que sofrem mensalmente para pagar as contas estão merecendo passar por isso, e se pessoas que passam fome e não possuem acesso a água encanada merecem estar nessa situação. Esse pensamento ainda é reforçado por conceitos enraizados que herdamos do catolicismo, que nos promete o paraíso após uma vida de sofrimentos. “Deus ajuda quem cedo madruga”, dizem eles, e nós seguimos acreditando nesta falácia.

 

A desigualdade social, sua naturalização e o embate de classes

No Brasil, um dos países mais desiguais do mundo, as pessoas que formam o 1% (menos que o título da série!) mais rico da população brasileira possuem um rendimento médio de R$ 27.085 mensais, ou seja, 36,3 vezes acima do que recebia a metade mais pobre da população: R$ 747 (dados de 2016 segundo o IBGE). O que a série da Netflix faz é basicamente elevar essa realidade a uma potência um pouco mais extrema.
Repare como a série mostra uma desigualdade clara e óbvia entre o Maralto e o Continente. Há diferenças entre série e a nossa realidade: aqui temos mais classes sociais do que apenas duas, ainda que haja indícios de maiores e menores privilégios em ambos os espaços da série (os soldados do Maralto parecem possuir menos privilégios, enquanto o “pastor” do Continente possui um certo poder). E enquanto 3% mostra uma chance anual para que alguns possam ter sua “mobilidade social”, no mundo real os privilegiados nascem com essa condição e as relações são muito mais complexas.

 

O surgimento da Causa na série 3% não só representa os movimentos sociais que lutam por mais igualdade, mas também a tensão que há na nossa sociedade entre os ricos e os pobres, a burguesia e o proletário, a casa grande e a senzala. É interessante notar como esse embate fica muito evidente em diversas discussões políticas: há partidos e pessoas em cargos políticos que utilizam desse argumento para atacar os problemas sociais, e são comumente acusados de “colocar uma parcela da população contra a outra”. Dentro da Causa, há quem defenda o uso de violência, enquanto há os que preferem outro tipo de atuação: e o mesmo ocorre entre os movimentos sociais.

 

Algo me incomoda

3% pode não ser uma série capaz de mudar o posicionamento político de alguém (alguma série já conseguiu essa façanha?). Aliás, é a complexidade do mundo real (versus a simplicidade desta ficcional) que faz com que os posicionamentos políticos que temos sejam tão complexos e pautados em tantos elementos.

 

O que me incomoda, em primeiro lugar, é que muita gente que assiste à série pode acreditar na Causa e defendê-la na narrativa, mas assim que assistir na TV uma manifestação, não hesitará em chamar os participantes de vagabundos. Muitos devem achar um absurdo o que o Maralto faz com o Continente, mas não questionam as ações relacionadas à especulação imobiliária e ao poder exercido pelos grandes empresários sobre seus funcionários.

 

Mais triste ainda é saber que tantas pessoas assistem à série, divertem-se com o que acompanham e encaram tudo o que veem como entretenimento, sem jamais ir além da visão superficial da obra. O que é uma pena: diante de tantas falhas, é esse debate social e político que a série 3% tem de mais interessante.

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