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A Ancestralidade Afro em Pantera Negra

Crítica Pantera Negra

“Os navios negreiros transportavam a bordo não somente homens, mulheres e crianças, mas ainda seus deuses, suas crenças e seu folclore. Contra a opressão dos alvos que pretendiam arrancar-lhes de suas culturas nativas para impor-lhes outra cultura, os negros opuseram forte resistência, sobretudo nas cidades, onde podiam reunir-se de noite e reconstruir suas comunidades primitivas. No campo, sua resistência foi mais débil; sem dúvida, suas revoltas foram o depoimento de uma vontade de escapar da exploração econômica e do regime odioso de trabalho ao que estavam submetidos.”  – Roger Bastide, 1974


T’Challa (Chadwick Boseman), depois da morte de seu pai, o Rei de Wakanda, retorna para Wakanda, nação africana isolada e tecnicamente avançada para triunfar no trono e ocupar o lugar dele como rei. Essa é a sinopse oficial do filme “Pantera Negra” de 2018, dirigido por Ryan Coogler que você deve conhecer de filmes como “Fruitvale Station: A Última Parada” de 2013 e “Creed: Nascido para Lutar” de 2015, ambos alicerçados na cultura negra, expondo problemas modernos que os negros enfrentam nas periferias americanas.

Ao ser contratado pela Marvel Studios para dirigir e co-roteirizar um filme solo sobre o Pantera Negra, gerou-se uma expectativa de como um diretor tão focado em defender em seus filmes as causas negras e assim denunciar os abusos por estes sofridos, desenvolveria a história de um herói negro, que diferentemente dos personagens de seus filmes anteriores, não fora criado em uma periferia. De fato, neste sentido, Pantera Negra se diferencia dos filmes anteriores do diretor por trazer outras temáticas negras às telas. O filme fala sobre ancestralidade e modernismo da cultura negra, e para que possamos abordá-las, alguns spoilers serão dados. Nada que comprometa sua experiência caso ainda não tenha visto o filme, mas é sempre bom ver o filme antes de ler, ver o ouvir qualquer análise da obra.

O filme começa apresentando uma cultura extremamente desenvolvida na fictícia nação chamada Wakanda, onde a tecnologia oriunda do vibranium, um resistente e raro metal que só é encontrado neste país, é a mais avançada do planeta. Apesar disso, esta nação é um mistério para o mundo pois ela se encontra escondida em meio a uma gigantesca floresta no centro do continente africano. Com muita inteligência Ryan Coogler já propõe a primeira reflexão: por que um povo tão desenvolvido se esconde do mundo? Um roteiro preguiçoso e óbvio mostraria, ou pior ainda, narraria o histórico negro, como mostrado no texto do início do artigo, sobre a usurpação da cultura negra e a tentativa de destruição de sua ancestralidade.

Há uma cena onde o personagem Erik (Michael B Jordan) visita um museu da cultura afro e ao ouvir que aqueles objetos pertenciam à determinadas culturas, questiona o que mais fora roubado de seus ancestrais. Esta frase, deixa muito claro que Coogler não estava falando somente de objetos, mas sim da cultura usurpada por colonizadores ao longo da existência humana. Tomemos como exemplo a música negra, especificamente o rock.

As origens do gênero remontam entre as décadas de 1940 e 1950, através de uma combinação de diversos gêneros musicais populares na época. Estes incluíram: o gospel, o folk, e o blues. Muitos brancos norte-americanos experimentaram o jazz e blues afro-americanos, que, frequentemente, eram relegados à condição de “música para negros” e que raramente eram ouvidos pela corrente majoritária branca. Mas o gênero começou a ser aceito quando Alan Freed (branco) começou a usar o termo “Rock n’ Roll” para descrever o caráter do R&B que tocava em seu programa de rádio em meados dos anos 50. Artistas como Little Richard , Fats Domino , Chuck Berry, Bo Diddley, Louis Jordan, Sister Rosetta Tharpe, Jackie Brenston, Ike Turner e vários outros músicos, cantores e compositores afro-americanos estavam entre os primeiros a transformar o som do R&B, introduzindo novos elementos musicais e criando o que conhecemos como Rock n’ Roll. Entretanto o rock atingiu o grande público quando um homem branco chamado Elvis Aaron Presley passou a cantar muitos destes clássicos compostos por artistas negros.

Apesar do rock ter tido um papel muito importante nos anos 60 unindo negros e brancos, e posteriormente resultando em movimentos pelos direitos civis dos afro-americanos, sua origem negra é praticamente desconhecida, e hoje você conta nos dedos os grandes artistas negros que atingem grande público com gênero. T’Challa, ou simplesmente Pantera Negra teme que a cultura e a tecnologia negra de Wakanda sejam roubadas, e pior ainda, sejam utilizadas para oprimir os próprios negros que as desenvolveram.

O povo de Wakanda não luta apenas para sua sobrevivência. Luta também pela sobrevivência de sua história.



Outro tema que Ryan Coogler aborda muito bem, é a religiosidade negra. Wakanda tem seus costumes e rituais ancestrais que formam a base de sua sociedade. Entretanto, é muito inteligente a forma como o filme aborda a ancestralidade e a hibridação dos processos socioculturais fora de Wakanda. Apesar de T’Challa respeitar as suas crenças, ele entende que ela não é isenta de erros e não perpetua suas falhas, ao mesmo tempo que há o respeito pelas crenças ancestrais que mantém sua identidade negra. Esse momento do confronto entre o passado e futuro da nação e sua identidade, é uma discussão rica e importante, afinal, cabe questionar de que identidade se trata: da identidade mítico-religiosa conservada em alicerces religiosos? Da identidade do grupo oprimido, que vacila entre a consciência de classe e a de raça? Da identidade política de uma “raça” afastada de sua participação política na sociedade que ajudou a construir? O que significam a negritude e a identidade para as bases populares negras e para a militância do movimento negro? Pantera Negra não limita o debate ao egocentrismo do “primeiro eu” em detrimento de um coletivo maior.

Apesar de relutante, dado o contexto histórico da diáspora africana, Wakanda passa a enxergar seu povo, não mais como a nação apartada dos demais negros que lutam diariamente para não serem dizimados. O Pantera Negra – Rei, deixa de olhar somente para sua fortaleza e se junta à milhões de pessoas que não tiveram as mesmas oportunidades que eles. O ato heroico do T’Challa não é se manter no trono para fortalecer Wakanda e sim, olhar para um problema maior, um problema estrutural de uma sociedade que ainda reflete o pensamento escravocrata de outrora. Não é um abandono de sua ancestralidade e sim uma afirmação de que sua cultura negra, preta, afro é mundial. “Pantera Negra” é um filme sobre a africanidade em diversos formatos. Música, dança, vestimenta, cultura e religião são retratadas no figurino, na trilha sonora, e até no dialeto de seus personagens. Uma obra que mostra que a comunidade negra precisa olhar para frente sem nunca abandonar suas ancestralidades. Não à toa, o grito de exultação daquele povo é um brado ao futuro: “Wakanda Forever / Para sempre Wakanda!

 

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