O que são "Filmes Gêmeos" e por que eles sempre aparecem em Hollywood - Cinem(ação): filmes, podcasts, críticas e tudo sobre cinema
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O que são “Filmes Gêmeos” e por que eles sempre aparecem em Hollywood

Filmes Gêmeos (Twin movies) é o termo usado para descrever um fenômeno bem peculiar que acontece quase todos os anos em Hollywood, quando grandes estúdios lançam filmes com temas e enredos quase idênticos às ofertas atuais dos concorrentes. Exemplos populares de filmes gêmeos incluem Impacto Profundo e Armagedom, dois filmes lançados com uma diferença de semanas um do outro onde o roteiro é basicamente salvar o mundo de um meteoro gigante. Outros exemplos populares incluem Vida de Inseto e FormiguinhaZ, filmes animados sobre formigas que se rebelam contra suas colônias. Ainda temos O Inferno de Dante e Volcano: A Fúria – filmes de desastre sobre erupções vulcânicas. Para se ter uma ideia de como isso é comum em Hollywood, todos esses exemplos foram lançados entre 1997 e 1998!

Indo para o campo das comédias românticas, temos Curtindo a Liberdade e A Filha do Presidente, ambas lançadas em 2004 e que contam das escapadas da filha adolescente e rebelde do presidente dos Estados Unidos. Ainda na Casa Branca, temos o lançamento de Invasão à Casa Branca em 22 de março de 2013, seguido por O Ataque, de 8 de junho de 2013. Os filmes são extremamente semelhantes e, para ser justo, são apenas “Duro de Matar na Casa Branca”.

É tentador pensar que isso é um fenômeno recente e que Hollywood esgotou suas ideias, mas na verdade os filmes gêmeos são tão antigos quanto o próprio setor cinematográfico.

Então, como é que isso acontece?

Acontece que existem muitas variáveis que podem resultar em um filme duplo, desde espionagem corporativa até a mais pura coincidência. Por exemplo, um dos filmes mais famosos de todos os tempos, …E o Vento Levou, também é um dos filmes gêmeos mais notáveis da história. Neste caso, a famosa atriz Bette Davis não conseguiu garantir o papel de Scarlett O’Hara no …E o Vento Levou da MGM. Na intenção de fazer seu próprio filme com o tema de Guerra Civil, a Warner Brothers obteve os direitos para uma peça da Broadway chamada Jezebel. Como …E o Vento Levou, a história também era sobre uma mulher feroz e independente do sul dos EUA durante a Guerra Civil. Eles então lançaram Davis no papel do título e agendaram o lançamento do filme o mais rápido possível, para que estivesse nas salas antes mesmo de …E o Vento Levou.

Eles foram bem sucedidos neste esforço, o filme foi um sucesso e Davis até ganhou um Oscar por seu papel no filme. No entanto, mesmo Jezebel sendo bem recebido, ele logo foi atropelado por seu filme gêmeo, que estabeleceu um recorde para a maior parte dos prêmios e indicações da Academia, vendendo cerca de 25 milhões de ingressos entre 1939 e 1940. Depois, …E o Vento Levou  foi relançado em 1941 e 1942, trazendo o total espantoso de 60 milhões de ingressos vendidos. Isso o tornou o filme de maior bilheteria já feito até esse ponto e ainda hoje é considerado assim, depois de se ajustar a inflação.

De qualquer maneira, outros filmes gêmeos que teoricamente surgiram como resultado de tramoias corporativas incluem o Impacto Profundo e Armagedom mencionados acima. Isso porque o Armagedom misteriosamente entrou em produção apenas algumas semanas após o Impacto Profundo ter sido anunciado. Existiram ameaças de processos como resultado, mas no fim das contas nada aconteceu.

Outro motivo dos filmes gêmeos chegarem às telas é apenas o timing de algum evento ou algo parecido. Por exemplo, esta é a explicação mais aceita para dois filmes que relatam a vida de Cristóvão Colombo serem lançados no mesmo ano (1992). Estes filmes, 1492: A Conquista do Paraíso e Cristóvão Colombo – A Aventura do Descobrimento foram anunciados como comemoração do 500º aniversário da “descoberta” da América.

Os filmes duplos também podem surgir do desejo dos estúdios de cobrirem o tópico mais em alta no momento, mas que não necessariamente foram inspirados pelo conhecimento prévio de que outro estúdio estava trabalhando em algo similar. Até porque, com a quantidade de pessoas que trabalham na indústria cinematográfica, os estúdios quase sempre sabem o que os concorrentes estão desenvolvendo, quer anunciem amplamente um projeto ou não. Exemplos notáveis disso são os filmes O show de Truman e Ed TV, lançados em 1998 e 1999, respectivamente. Ambos foram feitos, segundo o British Film Institute, como resultado direto da tentativa de “aproveitar o fascínio com o fenômeno recente dos reality shows“.

Remakes

Então temos estúdios percebendo que um gênero de cinema é popular em um determinado momento e estão tentando se manter na tendência. Simples assim. Um excelente exemplo é o ano de 1979, em que foram lançados cinco filmes do Drácula diferentes, sendo os mais notáveis Nosferatu – O vampiro da noiteDrácula, que não eram simples descrições da obra-prima original de Bram Stoker, mas adaptações de adaptações anteriores.

Na próxima vez que alguém se queixar sobre a noção de que “agora” Hollywood não tem mais ideias, se baseando nas ofertas recentes que parecem ser uma mistura de remakes e sequências, basta lembrá-los de que, no final da década de 1970, os estúdios lançaram cinco filmes de Dracula no mesmo ano, sendo dois deles refilmagens.

Remakes por cima de remakes sempre foi a primeira ordem em Hollywood desde os filmes mudos! Eles muitas vezes eram apenas releituras de peças teatrais, livros, outros filmes mudos e assim por diante. Um exemplo notável disso é o O Mágico de Oz, de 1939. estrelado por Judy Garland. Apesar de todos saberem que ele é baseado em um livro (O Maravilhoso Mágico de Oz, publicado em 1900), provavelmente poucas pessoas estão cientes de que O Mágico de Oz de 1939 foi um remake O Feiticeiro de Oz, de 1925. Sem contar as adaptações para a Brodway. Sim, Hollywood precisou de apenas 14 anos para perceber que era só modificar a história um pouco e adicionar uma pitada de novas tecnologias para O Mágico de Oz voltar a ser uma ótima ideia. Originalidade nunca foi a prioridade em Hollywood – adaptar obras existentes de outros meios sempre foi mais a regra do que a exceção. O cinema atual não é diferente nesse quesito.

Agora, como seria de se esperar para uma indústria onde o ego e o autoengrandecimento são celebrados, mesmo quando os estúdios sabem que um rival está planejando um filme com uma premissa quase idêntica, eles raramente recuam e investem seus recursos em ofertas inéditas. Esta também é uma das principais razões pelas quais muitos desses filmes são lançados tão próximos uns dos outros.

Inferno na torre

Uma exceção notável é o filme Inferno da Torre, de 1974. O filme começou na verdade como dois projetos diferentes levantados pela Warner Bros e Twentieth Century Fox. Ambos tiveram a ideia após o sucesso do filme O Destino de Poseidon, que era classificado como um filme de desastre. Depois de ser superada pela Warner Bros na compra dos direitos de um romance sobre um arranha-céus em chamas chamado The Tower, a Fox comprou os direitos de um livro com uma premissa quase idêntica chamado The Glass Inferno.

Ambos os estúdios estavam prontos para fazer sua própria versão do filme, cada um com grandes atores no papel dos protagonistas. A Warner Bros contratou Paul Newman e a Fox faz o mesmo com Steve McQueen. Porém, antes do início da produção, o produtor Irwin Allen convenceu os executivos de ambos os estúdios de que nenhum dos estúdios lucrariam se decidissem competir entre si nas bilheterias. Em vez disso, ele propôs que eles combinassem recursos para fazer um único filme sobre um edifício flamejante. Eles não só deixariam de competir com a receita,  mas a colaboração reduziria o custo total para cada estúdio. Como bônus, o filme teria tanto Newman quanto McQueen como protagonistas.

[Curiosidade: Steve McQueen e Paul Newman não ficaram satisfeitos com a fusão dos filmes e estavam
preocupados com quem seria dado o maior pagamento (e protagonismo) para Inferno na Torre. Um dos 
resultados é o cartaz do filme (acima), que parece uma bagunça flamejante. Veja bem, para 
satisfazer o ego de ambos os homens, seus nomes foram escritos no topo do cartaz, com o nome de 
McQueen ficando aparecendo primeiro na ordem de leitura, mas o de Newman é um pouco maior. Isso 
foi feito para que cada um deles "tecnicamente" aparecesse mais, dependendo se você lê os nomes 
da esquerda para a direita ou de cima para baixo. Para evitar novos problemas, McQueen e Newman 
receberam exatamente o mesmo salário por aparecer no filme (mais a mesma porcentagem da 
bilheteria). De acordo com um boato persistente e possivelmente apenas fofocas hollywoodianas, 
McQueen foi ao ponto de pedir para os roteiristas reescreverem seu personagem para que ele e 
Newman tivessem o tempo de tela e número de linhas faladas.]

Os dois estúdios concordaram e os termos foram rapidamente elaborados, com a união histórica formalmente anunciada em um comunicado de imprensa em outubro de 1973. Quanto ao título do filme, chegou-se a um acordo para combinar os títulos dos dois livros que serviram de inspiração para o filme. Assim, The Tower e The Glass Inferno se tornaram The Towering Inferno (Inferno na Torre). No final, o filme foi um enorme sucesso, arrecadou cerca de dez vezes o orçamento de produção e foi nomeado para oito Prêmios da Academia, dos quais ganhou três.

Universos compartilhados e sagas

Claro, os filmes gêmeos ainda são tão populares hoje como eram há décadas. Só em 2017 tivemos dois concorrentes sobre Winston Churchill (Churchill e O Destino de Uma Nação) e Tommy Wiseau (Artista do Desastre e Best F(r)iends). Mas a menina dos olhos de Hollywood atualmente parece ser a ideia de universos cinematográficos compartilhados, numa tentativa não tão sutil de imitar o sucesso da Marvel.

Aparentemente, ao contrário do mundo dos heróis de Stan Lee, os estúdios fazem os seus universos cinematográficos cade vez mais sombrios, com a megalomania das sagas que sempre apresentam a eminência de um fim do mundo que nunca acontece. Já a Marvel não se leva tão a sério e sempre procura manter o clima leve e bem-humorado, mesmo nos momentos mais tensos de seus filmes. Um exemplo é o final “Dance Off Bro“, de Guardiões da Galáxia.

Alguns filmes do ano passado pretendiam ser um ponto de partida para um universo cinematográfico compartilhado como Rei Arthur: A Lenda da Espada e A Múmia. Ambos não conseguiram atender às expectativas das bilheterias e os planos para filmes adicionais foram arquivados. (Um revés temporário, eles certamente tentarão de novo e de novo.)

Enquanto isso, alguns anos atrás, Hollywood estava completamente voltada para a adaptação de livros destinados a jovens adultos e adolescentes em séries épicas. Algumas delas foram Saga Divergente, The Maze Runner, Eragon, Circo dos Horrores – O Aprendiz de Vampiro, Academia de Vampiros: O Beijo das Sombras e a Saga Percy Jackson. Todos uma tentativa de imitar o sucesso de ofertas parecidas, como as sagas Harry Potter, Crepúsculo e Jogos Vorazes.

De olho no futuro, parece que os filmes gêmeos vão continuar a ser uma parte da indústria cinematográfica. Para se ter uma noção, existem pelo menos meia dúzia de filmes de Robin Hood em desenvolvimento, incluindo dois com exatamente o mesmo título e um que deveria ser o lançamento de um novo universo cinematográfico compartilhado…

Só por diversão, podemos apenas esperar que os executivos dos estúdios sigam o exemplo da Warner Bros e da Fox e decidam combinar seus recursos para fazer um filme gigante e épico de Robin Hood com todos os atores principais em Hollywood.  Uma façanha que a Marvel parece estar tentando fazer em seu próprio universo e… *lâmpada de ideias* Robin Hood poderia ser o pano de fundo do Gavião Arqueiro da Marvel  e este seria o primeiro passo para trazer todos os universos cinematográficos de cada filme já feito na história de Hollywood em um único megaverso!


Traduzido e adaptado do artigo em inglês do Today I Found Out.

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