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Festival de Sundance 2018 – Dia 8 #ConexãoSundance

Un Traductor - Still 3

Festival de Sundance 2018 – Dia 8: O oitavo dia do Festival de Sundance tem vários filmes interessantes: “Un Traductor”, filme Cubano estrelado pelo brasileiro Rodrigo Santoro. Além dele, teve The Catcher Was a Spy, novo longa de Paul Rudd, o documentário The Price of Everything (sobre arte) e o filme “ultra americano” Blindspoting.

 

Festival de Sundance 2018 – Dia 8:

 

The Catcher Was a Spy

Estados Unidos, 2017, 94 min. Ficção. Direção: Ben Lewin

O filme de espionagem estrelado por Paul Rudd conta a vida do Moe Berg, um jogador de beisebol famoso nos anos 1920 a 30, que depois de se aposentar, entrou para as organizações de segurança e foi espião na Segunda Guerra Mundial. Nessa época, ainda não era a CIA. Mas por que o título do filme é esse? “Catcher” é aquela posição no beisebol que pega a bola quando o lançador faz lançamento e ela passa pelo batedor. Por isso, Maurício suspeita que o título deve mudar muito quando chegar no Brasil, porque isso não deve fazer muito sentido para quem não faz ideia das regras do beisebol. Ele também é baseado em um livro do Moe Berg que tem o mesmo nome. Como filme de espionagem, é um de grande circuito, que vai ter um bom alcance de público que funciona e é divertido. Ele tem uma boa ambientação da Segunda Guerra Mundial, muito bem feita, com paleta de cor bem amarelada com tom de filme antigo, mas não necessariamente de imagem deteriorada. Mas ele dá uma sensação um pouco noir colorido e de mistério. O elenco é ótimo: tem o Paul Rudd, Jeff Daniels, Paul Giamatti, Guy Pierce, Mark Strong. O diretor já fez outro filme de espionagem, e tem uma boa história, que é bem executada. Ainda que o fim seja anticlimático, a história é baseada em fatos. Na trama, Moe Berg vai à Europa com a tarefa de assassinar o o Werner Eisenberg, físico alemão responsável pela criação da bomba atômica alemã. Até hoje, ninguém sabe se o Eisenberg não criou a bomba porque não quis, ou se ele não conseguiu.

O fato é que havia muita preocupação que isso pudesse acontecer. A história é toda interessante. Mas também não é a úlltima coca-cola do deserto: ele trabalha com vários clichês, várias conveniências de roteiro, e aquelas cenas clichês meio épicas como em filmes do Spielberg, em que o homem cansado de trabalhar no escritório sai correndo pelo corredor, e aí o chefe o chama. Essas coisas que são feitas pra representar a mudança do personagem, mas que fica “clichezão”. Só para compreender o tom e o tipo de filme que pode ser visto, é O Jogo da Imitação: diálogos explicativos, algumas cenas desnecessárias e dramas que não existiram, mas que na prática não prejudica a experiência. É um filme pipoca.

 

Un Traductor

Cuba/Canadá, 2017, 107 min. Ficção. Direção: Rodrigo Barriuso, Sebastián Barriuso

Filme na mostra mundial. Ele provavelmente já vai ter sido eleito o filme da audiência: ele foi aplaudido de pé duas vezes. Maurício conta que deve ter sido o único a não dar nota máxima para o filme. O filme é bom, mas segundo o crítico, tem alguns problemas. É um filme cubano, estrelado pelo Rodrigo Santoro, que trata basicamente de um professor de russo da Universidade de Havana que é mandado para o hospital para ser tradutor de russo de pacientes que vieram da Rússia, vítimas do acidente de Chernobyl. Ele se passa em 1989, e acompanha em paralelo a visita do Gorbachev a Cuba, a queda do Muro de Berlim, o início do colapso da União Soviética e o início da crise cubana, que vai se prolongar a níveis estratosféricos aos longo dos anos 1990. Então, temos uma combinação bombástica de fatores, especialmente ao público norte-americano: queda do comunismo, queda do muro, acidente nuclear e crianças com câncer. Parece que o filme é apelativo, mas na verdade não é. É claro que, por lidar com pacientes com câncer, e isso emociona as pessoas, o que é completamente natural. Na prática, ele constrói uma narrativa em que o Rodrigo Santoro vai contrariado trabalhar no hospital, e acaba se envolvendo demais com as crianças, e ao mesmo tempo em que se envolve demais com aquilo, com todas as emoções que aquilo gera, ele começa a negligenciar a família dele. Parece uma história maluca, mas é uma história real: esse programa de tratamento de câncer em Cuba para vítimas de Chernobyl de fato existiu e perdurou até 2011, para se ter uma ideia das repercussões do acidente.

O casal principal realmente existe, e o filme é baseado na história deles e os roteiristas e diretores são os filhos deles. Uma coisa que incomodou Maurício durante o filme foi ver que a direção de arte está fraca e não parece a Cuba que estamos acostumados a ver. Mas o filme foi 100% filmado em Cuba, e as próprias pessoas e os personagens ajudaram a reconstruir o ambiente, a casa, o cenário e a galeria de arte, e foi tudo gravado no Hospital Geral de Cuba. Mas o filme tem seus problemas: fica um pouco truncada a maneira como eles tentam correlacionar a crise econômica e o contexto histórico com o arco do hospital, das crianças e o envolvimento do personagem de Santoro. Isso prejudica a experiência com o filme, e ainda tem alguns clichês apelativos, como a mãe russa com a filha na cama com câncer, e cai bêbada com uma garrafa de vodka no colo. Ele vai emocionar muita gente, mas tem pecadilhos que o impedem de ser um filme excelente.

 

The Price of Everything

Estados Unidos, 2018, 98 min. Documentário. Direção: Nathaniel Kahn

É um documentário interessante da HBO sobre o mercado de obras de arte dos Estados Unidos. Ele inclusive entrevista Jeff Koons, o artista mais lucrativo atualmente, com peças que custam milhões de dólares. O documentário fala com críticos de arte, curadores de museus, donos de lojas de leilão, para entender a lógica e como se atribui valor àquilo e como se atribui valor à arte. Na prática, faz a mesma discussão que as vanguardas modernistas tentaram fazer no início do século 20, como: o que é arte, a qualidade está definida pelo valor monetário ou não, etc. É um filme com um debate interessante, e que vale a pena. Certamente chegará ao Brasil pela HBO. A fala final do crítico de arte sobre o mercado nos Estados Unidos, é muito interessante sobre a arte ser supérflua ou não, e o que é supérfluo ou não.

 

Blindspoting

Estados Unidos, 2018, 95 min. Ficção. Direção: Caros López Estrada

Apesar de ter sido visto na sessão de meia-noite, ele é da mostra competitiva US Dramatic, e foi o filme de abertura do Festival. Ele dá uma boa indicação de como são as coisas em Sundance, e do por que é importante essa cobertura do Festival de Sundance!

Vão chegar as notícias do que está sendo dito sobre os melhores ou mais importantes filmes. Se ele ganha, vai ser considerado algo lindo. Mas o que ele tem de “mais”? Segundo Maurício, isso acontece porque Blindspoting é um filme extremamente americano. Ele é baseado nos dilemas da sociedade americana e de como ela lida com a violência policial entre brancos e negros, o que é uma questão altamente complexa (mostrada em Detroit Em Rebelião, por exemplo). O filme trata disso e com a lógica americana, discutindo as questões de classe americanas. No geral, é um bom filme e um filme muito bem humorado. Faz ótimas piadas e se utiliza da cultura do rap, com uma montagem interessante, utilizando a tela dividida, por exemplo. Isso deixa o filme dinâmico, mas para quem não é americano, não é tão fácil de criar empatia e achá-lo genial.

Ele é sobre o Collin, que está nos últimos três dias da liberdade condicional (regime semi-aberto), mas faltando três dias para isso, ele presencia um policial matar um negro. Nos dias seguintes, começa a haver uma série de eventos para que ele não volte à cadeia e não tenha problema com a polícia ou seja preso de novo. Tudo se desenvolve na relação dele com Miles, seu amigo branco,  e todas as confusões que acontecem no entorno, até culminar nesse arco de ele ter sido testemunha. Tem uma cena sensacional em que ele está andando na rua à noite sozinho, e um carro da polícia passa do lado dele. Blindspoting é um filme muito bom, mas se chegar no Brasil como o melhor filme dos últimos tempos, muitos não vão entender por quê. Por isso é importante entender como se criam algumas expectativas sobre alguns filmes.

 

 

Participam da cobertura do Festival de Sundance 2018 os seguintes sites e canais: Razão:de:Aspecto, Cinem(ação), Cine Drive Out, Artecines,  O Sete e Correio Braziliense.

 

 

Confira a cobertura do #ConexãoSundance:

Cobertura do Festival em 2017

Festival de Sundance 2018 – Dia 1

Festival de Sundance 2018 – Dia 2

Festival de Sundance 2018 – Dia 3

Festival de Sundance 2018 – Dia 4

Festival de Sundance 2018 – Dia 5

Festival de Sundance 2018 – Dia 6

Festival de Sundance 2018 – Dia 7

Festival de Sundance 2018 – Dia 8

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