120 Batimentos por Minutos e Outros 5 Filmes que Quebraram o Silêncio Sobre a AIDS - Cinem(ação): filmes, podcasts, críticas e tudo sobre cinema
ArteCines

120 Batimentos por Minutos e Outros 5 Filmes que Quebraram o Silêncio Sobre a AIDS

Ainda que o cinema tenha sido massificado mediante seu grande poder de entretenimento, não raro vemos filmes que trata de questões sociais, refletindo preocupações reais da nossa sociedade. Ademais, tais preocupações devem acompanhar a evolução (ou não) dos problemas que afligem nossa sociedade. Por exemplo, filmes com temática sobre AIDS eram impensáveis nos clássicos da era de ouro, ou mesmo em movimentos cinematográficos mais críticos como o neo-realismo italiano da metade dos anos 40, nova-hollywood no final dos anos 60 ou cinema-novo nos anos 60 e 70. Isso por que a AIDS só foi reconhecida pela primeira vez em 1981, pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos, e a sua causa — o HIV — foi identificada na primeira metade da década. A partir dai, o cinema passou a refletir sobre o tema em suas obras, muitas vezes é preciso dizer, reproduzindo estereótipos como reflexo da época.

 

No final da década de 80, um filme chamou a atenção para o tema – Meu Querido Companheiro, de 1989. A trama do filme gira em torno de três casais homossexuais e a apreensão com o surgimento da doença, os sintomas e a solidariedade que os unia. O filme é tido com um dos primeiros filmes a tratar abertamente sobre o tema da AIDS. Naturalmente, o filme reflete o estereótipo do homossexual com HIV presente na época, mas ainda sim é uma obra que abre espaço para a discussão que ainda era muito incipiente.

 

Chegando na década de 90, um filme que se tornou um clássico do cinema retoma o tema. O filme é Filadélfia, de 1993. Andrew trabalha num conceituado escritório de advocacia. Quando descobre que é portador do vírus HIV, é despedido sumariamente. Ele então contrata Joe Miller, um advogado homofóbico, para levar seu caso até o tribunal. Mais uma vez temos um filme que trata abertamente sobre AIDS, mas sob o estereótipo da associação com a homossexualidade. O filme levou o Oscar de melhor ator coadjuvante pela atuação de Tom Hanks (Andrew) e faturou o prêmio de melhor canção original com a magistral “Streets of Philadelphia“, de Bruce Springsteen.

 

Na década de 2000, o cinema nacional também levou o tema às telas de cinema com o filme Cazuza: O Tempo Não Pára, de 2004. O longa é uma cinebiografia que conta a história de Cazuza, um jovem talentoso que sempre quis aproveitar ao máximo todas as emoções da vida. O filme mostra a trajetória de Cazuza, desde seus tempos com a banda Barão Vermelho até sua carreira solo como cantor e compositor. O longa-metragem exibe ainda a luta do artista contra a AIDS numa de pouco ou nenhum tratamento disponível no Brasil. É uma história poderosa que mostra a luta contra o preconceito que existia na época para com pessoas com AIDS devido a falta de informação. Os acontecimentos na vida de Cazuza, fizeram com que outro artista nacional, no caso Renato Russo, tomasse o caminho oposto ao não buscar tratamento, tampouco anunciar seu estado de saúde para não passar pelos mesmos sofrimentos de seu colega. Eram tempos de pouca ou nenhuma informação, onde o preconceito e a falta de tratamento davam poucas esperanças, se tornando uma maldição que as pessoas carregavam para a pouca vida que lhes restavam.

 

Ainda falando sobre a falta de informação e tratamento da doença, em 2013, Jean-Marc Vallée dirigiu o excepcional Clube de Compras Dallas, filme que deu o Oscar de melhor ator para Matthew McConaughey. O filme é baseado na história real do eletricista texano Ron Woodroof que após ser diagnosticado com o vírus da AIDS, na década de 1980, entra em uma batalha contra a indústria farmacêutica e os próprios médicos e passa a contrabandear drogas ilegais do México para concluir seu tratamento. Aqui temos um filme mais carregado, com atuações que não caem no clichê de apenas mostrar a pessoa infectada se definhando. O filme foca sua atenção nas industrias farmacêuticas e todo a luta para que pessoas possam ter tratamento para controlar os efeitos da doença. Além disso, o filme explora muito bem o preconceito oriundo de uma sociedade homofóbica e desinformada.

 

Voltando para o cinema nacional, em 2014 é lançado Boa Sorte, filme dirigido por Carolina Jabor. Judite (Deborah Secco) tem 30 anos e é portadora do vírus da AIDS. Ela vive um intenso relacionamento com o adolescente problemático João (João Pedro Zappa), de 17 anos. Eles se conhecem em uma clínica psiquiátrica, onde estão internados. Mesmo sabendo que Judite não tem muito tempo de vida, João passa a ver a vida de outra maneira, ao mesmo tempo que dá um novo sentido para a vida de seu grande amor. O roteiro foi baseado no conto “Frontal com Fanta”, de Jorge Furtado. A adaptação foi feita pelo próprio escritor junto com Pedro Furtado. De todos os filmes citados, esse talvez seja o que menos foque nos problemas advindos da AIDS, preterindo-os por um romance não tão interessante assim. Mesmo assim é uma visão que foge do estereótipo do homossexual que contrai a doença ampliando a discussão.

 

E finalmente chegamos ao ano de 2018 com o filme francês 120 Batimentos por Minuto que trás um grupo de ativistas chamado Act-up que luta por diversas causas para que haja informações sobre AIDS, sexo e drogas nas escolas, e que as industrias farmacêuticas busquem salvar vidas com tratamentos dignos e não visando única e exclusivamente seus lucros. O filme de Robin Campillo discute mais do que a AIDS. É um filme sobre coletividade, debate de ideias, o poder do esclarecimento e a constante luta contra uma doença e deixa marcas físicas, psicológicas e sociais, afinal, por mais que tenhamos evoluído muito desde os anos 80, com a quebra de patentes e difusão de conhecimento da doença, o que resultou em uma queda do coeficiente de mortalidade por AIDS em 13% nos últimos 10 anos, ainda há um estigma social por trás do vírus. A sociedade de forma hipócrita ainda reflete o preconceito oriundo de um conservadorismo insciente que fecha os olhos para os problemas da falta de informação para o jovens, grupo que hoje volta a ter crescimento nos casos de infecção.

 

120 Batimentos por Minuto é um filme mais do que necessário para que se volte a discutir o vírus da AIDS nas escolas, em casa, nos bares. Muito desse novo surto surge da falta de reais informações e/ou da completa ignorância diante delas. Por exemplo, uma pesquisa do Ministério da Saúde mostrou que 9 em cada 10 jovens de 15 a 19 anos sabem que usar camisinha é o melhor jeito de evitar HIV, mas mesmo assim, 6 em cada 10 destes adolescentes não usaram preservativo em alguma relação sexual no último ano. Debater o assunto, talvez seja nossa melhor arma para combater esse surto que volta a crescer. É o que 120 Batimentos por Minuto propõe e é isso que nós do Cinem(ação) endossamos. Nunca nos calaremos, ainda que o assunto incomode algumas pessoas. Aqui, não corroboraremos com esse silêncio que mata!

Deixe seu comentário