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Black Mirror S04xE04: Hang the DJ

Hang the DJ é um retrato interessante dos relacionamentos – e da procura pelo “par perfeito”.

 

Ficha técnica:

Direção: Timothy Van Patten
Roteiro: Charlie Brooker
Elenco: Georgina Campbell, Joe Cole, George Blagden, Gwyneth Keyworth, Gina Bramhill.
Nacionalidade e lançamento: EUA, 2017 (29 de dezembro de 2017)

Sinopse (Netflix): Esta série antológica de ficção científica explora um futuro próximo onde a natureza humana e a tecnologia de ponta entram em um perigoso conflito. Neste episódio, um casal é formado por um programa de encontros que dá uma data de validade para os relacionamentos. A vontade de ficar juntos faz com que eles questionem o sistema.

ESTE TEXTO PODE CONTER SPOILERS:

Não tem como não lembrar de “O Lagosta“, filme de Yorgos Lanthimos, ao assistir a este episódio de Black Mirror, série original Netflix que vem “explodindo cabeças” nos últimos anos. No entanto, o filme estrelado por Colin Farrell envereda por outros caminhos, e este “Hang the DJ” é uma trama bem mais… Black Mirror!

Logo no começo, entendemos que os protagonistas vivem em uma espécie de retiro para encontrar um par perfeito. Ficam dúvidas sobre como eles foram parar lá e o que há para além dos muros daquele lugar. Mas aceitamos, afinal de contas, é Black Mirror!

 

Por meio de diversas camadas de temas e de elementos, somos levados a diversos questionamentos. Afinal, como podemos compreender ao fim do episódio, trata-se de um sistema dentro de um sistema, e de uma busca por um par perfeito dentro de uma busca, em um “inception” de relacionamentos. É como se cada um daqueles jovens fosse uma peça de uma grande engrenagem que é o software.

O mais importante, no entanto, é refletir sobre estas camadas que se apresentam. A primeira delas é a capacidade de um sistema definir o que é melhor para um indivíduo. Não é preciso ir muito longe para refletirmos sobre isso: basta alguns minutos em um aplicativo de relacionamento para entender que um software está elencando quem deve “cruzar o seu caminho”. Mas, afinal de contas, um sistema operacional não poderia ocupar a mesma posição que o destino ou Deus (dependendo de sua crença) traçava quando antes vivíamos “offline”? Não poderíamos dizer que o relógio e o calendário são “sistemas” que também nos ditam quando comer, quando dormir e quando celebrar algo? Será que não fomos sempre condicionados por algum sistema, e na história do episódio somos apenas apresentados a um aumento na escala deste controle?

A principal camada do episódio, no entanto, está nos relacionamentos. Afinal, somos moldados pelos relacionamentos que temos ao longo da vida – e pelos que não temos. “Nada acontece por acaso”, diz a coach que todos carregam em seus bolsos, tal qual um líder religioso. De fato, na vida e nos ambientes digitais (que também são vida?), tudo converge para algo conforme as experiências somadas.

No âmbito dos relacionamentos, é como se cada namoro, por mais terrível que seja, tivesse a função de nos moldar e nos fazer quem somos. E se existem almas gêmeas e pares perfeitos, então eles estão fadados a ficarem juntos? Creio que não é essa a mensagem que ” Hang the DJ” nos passa: trata-se, essencialmente, de uma escolha. Baseada nos sentimentos, é claro, mas uma decisão que não se dá POR CAUSA dos pontos em comum, mas A DESPEITO dos empecilhos e das diferenças:

“Burn down the disco/ Hang the blessed D.J. /Because the music that they constantly play/ It says nothing to me about my life”, diz a música do The Smiths que entoa o fim do episódio e o intitula. Queime a discoteca, enforque o DJ abençoado, porque a música que eles tocam não dizem nada sobre a minha vida.

A sutileza do título é uma característica à parte: enforcar o DJ é uma forma de impedir que os outros decidam pela sua vida. Relacionamentos duradouros são, portanto, o desafio constante de “enforcar os DJs” que surgem a todo instante.

O design de produção é assertivo, e uma das melhores características de “Hang the DJ” é a química dos atores. Desde os primeiros minutos conseguimos perceber o quanto eles se dão bem e formam um casal ideal. Por isso, ele é eficaz em nos fazer torcer pelo casal, e esperar que em algum momento voltem a se encontrar. O final, que revela uma verdade “muito black mirror” sobre o que estávamos assistindo todo esse tempo, oferece uma expectativa acalentadora de felicidade.

Em vez de nos deixar com o gosto amargo do poder da tecnologia, tal qual a maioria dos episódios das temporadas anteriores, este possui um final feliz, corroborando para a temporada mais leve da série. Talvez isso seja reflexo dos tempos em que vivemos: com situações político-sociais cada vez mais complexas e delicadas, tudo o que precisamos é ver um romance que tem 99,8% de chances de dar certo. É disso que precisamos nos dias de hoje: mais amor.

 

Estamos publicando críticas de todos os episódios no Cinem(ação). Já foram publicadas as críticas dos seguintes:

Arkangel

USS Callister

Crocodile

  • Nota
4.5

Resumo

A principal camada do episódio, no entanto, está nos relacionamentos. Afinal, somos moldados pelos relacionamentos que temos ao longo da vida – e pelos que não temos.

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