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Eu Cinéfilo #37: Drácula de Bram Stoker (1992)

O jovem corretor de imóveis inglês Jonathan Harker (Keanu Reeves) é aprisionado pelo vampiro Drácula (Gary Oldman) em seu castelo, o vampiro então parte para Londres e se aproxima da noiva de Jonathan, por quem ele se interessa, representando um perigo para ela e para todos ao seu redor.

Drácula de Bram Stoker é mais uma abordagem da já conhecida história do conde sugador de sangue só que agora entregando a adaptação mais fiel do material original em seu roteiro, tratando do plot mais complexo do livro, com os muitos pretendentes de Lucy (Sadie Frost) e as múltiplas formas do Drácula, ao mesmo tempo em que ele explicita vários subtextos do livro que só estavam implícitos pra não chocar a sociedade da época (aspectos sexuais, temáticos, questões de gênero e da sociedade são escancarados na abordagem de Coppola), e na verdade fazendo uma única mudança importante com uma adição.

E é uma mudança que dá um significado para a história. A adição na sua versão revisionista está em tentar colocar um pouco de humanidade no vilão ao retratar Mina Murray (Winona Ryder), a noiva de Jonathan, como a reencarnação do grande e perdido amor da sua vida, que com a sua morte fez com que ele renunciasse Deus, abraçasse Satanás e se transformasse em um vampiro em primeiro lugar. Essa mudança faz com que Drácula perca alguns contornos  do vilão diabólico que já conhecemos e ganhe outros de vilão trágico com um passado sombrio que flerta com a figura do anti–herói, tornando a narrativa quase uma grande trama de amor proibido.

Eu diria que essa mudança é uma das partes mais fracas do filme, talvez porque um romance como esse exigiria alguma sinceridade e sensibilidade na forma em que ele é abordado, e Francis Ford Coppola executa esse filme de um jeito completamente diferente e que foge de recursos que poderiam cair na sinceridade além de que ao seu final ele não consegue representar muito bem os sentimentos conflitantes que o destino final de Drácula traz com essa nova abordagem, o que faz com que momentos como a cena do choro de Drácula também não funcionem.

Coppola parece entender que o seu material original é absurdo de muitas maneiras e lida com isso brilhantemente ao abraçar a natureza exagerada da sua narrativa, e finalmente chegando a um tom completamente operístico que o filme acaba tendo. O longa se casa muito bem com cada ponto do seu material original e é elevado principalmente pela destreza e o domínio de Coppola com os seus aspectos técnicos. Drácula de Bram Stoker é brilhantemente lindo em cada um dos seus aspectos, particularmente nos seus efeitos visuais e na sua maquiagem, e ele consegue retratar os momentos mais “absurdos” da sua narrativa com uma diversão exata nas suas “invencionices visuais” que acabam só adicionando à história e a esses momentos, usando todo truque de câmera possível ao contar a sua história sem se valer de computação gráfica e indo de influências de Evil Dead até o Expressionismo Alemão.

 

O seu exagero é descarado e todo o seu aspecto gótico também, ele abraça de tal forma que é impossível não ficar fascinado com ela. Assistindo esse filme, a trilogia de O Poderoso Chefão e Apocalypse Now, dá pra se perceber o quanto o Coppola é cinematograficamente versátil em questão de estilos, isso sem falar de alguns outros filmes.

Agora a única coisa nesse filme que não parece estar no domínio de Coppola são as atuações, dá pra você se divertir bastante ao tentar localizar quais atores entendem o tom do filme e quais não.

Gary Oldman como Drácula entende se divertindo muito principalmente nas cenas do seu Drácula mais velho, que são o ponto alto da sua atuação, Sadie Frost entende, Anthony Hopkins como o Professor Van Helsing entende, Tom Waits surpreendentemente entende,  mas nem Winona Ryder parece entender e muito menos Keanu Reeves. Eles dois parecem estar em um filme completamente diferente e os caminhos que eles seguem em suas atuações também não alcançam o potencial que poderiam.

Porém, esse tipo de coisa não tira os méritos de Drácula de Bram Stoker, e esses méritos são gigantescos, o jeito que o filme conta a mesma história do livro em que baseado só que em uma perceptiva que escancara as hipocrisias da sociedade que o produziu é perfeito e dá uma característica única para o filme.

Esse talvez seja o último grande momento de Coppola como um visionário, um mestre em extrair do material com quem está lidando brilhantismo ao fazer a loucura ficar de algum modo fascinante de ser assistida.

 

texto escrito por: Diego Quaglia (blog Fiz Cinema)

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