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Star Wars não é o filme que os fãs queriam… ainda bem!

Sim, caro leitor e cara leitora, você está diante de mais um texto sobre “Star Wars: Os Últimos Jedi”, mas tem um motivo para isso. Primeiro é preciso dizer que não me repetirei nesse texto pois já fiz minha crítica do filme que você pode conferir no Artecines, e ainda temos um excelente texto do Lucas aqui no Cinem(ação), ambos sem spoilers. Por esse motivo, percebi que faz-se necessário um texto com spoilers para externar meus sentimentos acerca do Star Wars e abordar alguns temas que vêm norteando as discussões sobre “Os Últimos Jedi”.

 

 

 

 

Lembro-me como se fosse hoje. Janeiro de 2016, poucas semanas após a estreia de “Star Wars: Episódio VII – O Despertar da Força”, uma legião de fãs, pós euforia do evento que é assistir Star Wars na telona, criticando efusivamente o diretor J.J. Abrams por ter “reciclado” o “Episódio IV – Uma Nova Esperança” de 1977, alegando que o diretor ficou amarrado à uma estrutura pré existente. Apesar de eu concordar em partes com tais críticas, é completamente compreensível que o diretor “jogue na segurança”, afinal é uma obra que movimenta milhões de fãs e bilhões de dólares no mundo todo. Então J.J. fez o básico, arriscou pouco, deixou uma quantidade absurda de pontas soltas, que geraram outra quantidade incalculável de teorias (umas bem ridículas é preciso dizer), concluindo o filme com aquela famosa cena de Luke Skywalker recebendo seu sabre de luz das mãos de Rey, a mais nova Jedi em potencial. Uou, que final lindo (todos pensamos!). O que virá depois disso? Como Luke vai reagir ao receber o sabre? Será que ele é realmente o pai da Rey? Rey será uma padawan?

 

23 meses se passaram e essas perguntas, junto com várias outras, ainda ecoavam nas mentes dos fãs da saga. E eis que logo no começo da aventura de “Os Últimos Jedi” acontece algo que nenhum fã no mundo previu. Luke simplesmente joga fora aquele lendário sabre de luz, ignorando completamente tudo o que fora mostrado no filme anterior. Essa cena representa perfeitamente tudo o que Rian Jonhson pensa sobre Star Wars. Ele simplesmente vai ignorar o conceito de “obra intocável” do filme anterior para buscar o novo, algo inesperado, algo original. Então quer dizer que Rian Jonhson ouvir as críticas dos fãs? Longe disso. Se você é fã de Star Wars, sabia que por mais doloroso que isso pareça ser, “Star Wars: Episódio VIII – Os Últimos Jedi” não foi feito pensando em você!

 

 

Vamos refletir um pouco mais no que se trata “Os Últimos Jedi”, por começar pelas quebras de expectativas. Apesar de termos tido um dos plot twists mais marcantes da cultura pop com a cena de “No, I’m your father” no filme “O Império Contra Ataca” de 1980, em “Os Últimos Jedi” temos o maior número de momentos inesperados de toda a saga. Rian Jonhson toma decisões que diretor nenhum ousou tomar nos 7 filmes anteriores, e um dos mais emblemáticos é quando o espectro do mestre Yoda queima os livros sagrados dos Jedi. A cena é linda e muito representativa, pois estamos diante da desmistificação de uma crença que atingia os próprios fãs. O culto exacerbado à mitologia Jedi. Há inclusive uma piada de Yoda ao perguntar para o Luke, quantos daqueles livros ele havia lido. Então para que se apegar à eles? A mensagem de Yoda é que Luke deveria permitir que novos livros fossem escritos e não ficar preso aos registros antigos.

 

É exatamente isso o que Rian Jonhson quer fazer. Escrever novos livros, novas histórias, novas mitologias. Mas para isso, ele precisa se livrar das amarras criativas que uma história tão grande como é Star Wars pode impor ao autor. Mas ele não o faz de qualquer jeito. Note por exemplo, no que ele faz para “queimar” a teoria de que o Líder Supremo Snoke pode ser o Darth Plagueis, ou mesmo o Palpatine. A cena é curta, direta, e completamente inesperada. Novamente Rian Jonhson olha desdém para as teorias que fãs alimentaram por anos, sem sequer dar margem para especulação. Snoke não é importante para a nova história que surge, assim como outra teoria dos fãs, que colocaram Rey como uma possível Skywalker. Não à toa, na cena onde isso é desconstruído, a frase que ressoa da boca de Kylo Ren para os ouvidos de Rey (e para os nossos também) é “seus pais não são ninguém”. Que frustração não é mesmo? Rian Jonhson ignorou completamente nossas expectativas, e se ele por algum momento pensasse em nós, fãs, ele simplesmente deixaria isso em aberto, o que geraria novas teorias. Ficou frustrado? Calma que ainda tem mais.

 

 

Aqui terei de dar os devidos créditos ao crítico americano Jacob Hall que escreve para o site Slash Movie. Ele escreveu um artigo inspirado falando sobre o filme ser sobre fracassos. O artigo mostra que Luke é a representação de um herói que fracassou. Isso fica muito claro no momento onde ele mesmo não é capaz de queimar os registros Jedi, cabendo ao mestre Yoda fazê-lo. É o reconhecimento de que Luke não atingiu o nível de sabedoria e maturidade de seu mestre. Isso explica o isolamento de Luke diante de suas falhas. O personagem está completamente atormentado por seus erros que quase o levou a matar o próprio sobrinho. A cena dele conversando com a Leia mostra a dor do remorso que ele carrega consigo.

 

Mais uma vez o filme quebra nossas expectativas e desconstrói a figura mítica do herói. Se Luke tivesse ido para o “lado negro da força” não causaria tanto revolta quanto está causando mostra-lo como um herói falho. Em entrevista dada para o painel da CCXP em São Paulo, o próprio Mark Hamill diz ter se incomodado com essa escolha do roteiro. Mas a verdade é que vermos um herói sendo desconstruído é uma das melhores escolhas que o filme toma. É algo que poucos souberam fazer. Podemos lembrar de Alan Moore em “Watchmen” e até James Mangold em “Logan”, mas imaginarmos isso em Star Wars era impensável. Um herói falho, com medo e cheio de remorso nos aproxima mais de sua figura, pois reflete o que todos nós somos – pessoas falhas. Quantas vezes, mesmo cumprindo diversas e pesadas responsabilidades não nos sentimos frustrados, como se tivéssemos falhado? Luke Skywalker é o herói que ele precisava ser.

 

Um pouco antes do final do filme, uma das mais gratas surpresas do filmes, a jovem Rose, diz uma frase que sempre que estiver assistindo Star Wars eu me lembrarei dela: “não devemos destruir o que odiamos, e sim salvar o que amamos”. O filme deixa diversos ensinamentos bonitos com respeito a força e a forma errada com que muitos a encaram. O final do filme mostrando uma criança manuseando a força para mover uma vassoura mostra que a força não é um poder mágico pertencente aos Jedi. Todos os seres vivos tem a força, pois ela é o equilíbrio entre nós e a natureza. E se tem uma coisa que muito fã de Star Wars precisa encontrar, é equilíbrio.

 

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