Eu Cinéfilo #34: Zodíaco (2007) - crítica - Cinem(ação)
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Eu Cinéfilo #34: Zodíaco (2007)

Zodíaco conta a história do assustador serial killer que aterrorizou os Estados Unidos nos anos 60 e 70 e se autodenominava como o Zodíaco, e como essa investigação vai afetar a vida de todos ligados á ela, em especial o cartunista Robert Graysmith (Jake Gyllenhaal), o detetive de policia David Toschi (Mark Ruffalo) e o jornalista Paul Avery (Robert Downey Jr.).

O tema serial killer é algo recorrente na filmografia do diretor David Fincher como podemos ver recentemente na excelente série do Netflix Mindhunter, e Zodíaco é o retorno do diretor depois de ter tocado nesse tema em Seven: Os Sete Pecados Capitais (Seven, 1995) depois de dez anos após ter feito esse filme. Embora eu ame Seven com todas as minhas forças eu sinto que tem uma ligeira imaturidade nele no que diz á respeito da forma em que ele apresenta a sua tese de que as cidades são um poço de desespero e que o mundo está perdido.

O que é totalmente compreensível considerado que foi o segundo filme da carreira de Fincher e que essa abordagem se casa muito bem com o filme. A abordagem em Zodíaco é muito diferente e isso resulta no filme mais maduro de David Fincher como diretor. Por exemplo Zodíaco faz o uso de “jump scares” algumas vezes, mas a intenção do filme com isso não é de dar apenas sustos baratos. O filme em vez disso procura que o publico sinta na pele a ideia do desconhecido e o temor que isso causa, se concentrando na premissa que qualquer estranho pode ser o assassino.

O filme tem uma das cenas mais assustadoras do cinema de todos os tempos e ela não envolve nenhum derramamento de sangue apenas um porão escuro e úmido, uma casa assustadora e uma escolha brilhante de casting em escalar um espetacular Charles Fleischer (o homem que fez a voz de Roger Rabbit em 1988) para a cena.

No elenco Jake Gyllenhaal funciona em suas inicias pela forma que ele apenas representa o medo que o publico sente sobre esse caso. Porém ele se supera quando ele retrata o escoteiro inocente e idealista que está entusiasmado com o caso, mas lentamente cai em uma obsessão sem fim, doentia e insalubre. O co–protagonista Mark Rufallo brilha em dos melhores papeis da sua carreira dando uma atuação única pela forma que ele cria os maneirismos particulares de Toschi e a sua maneira de falar. Rufallo sempre é preciso em retratar a dificuldade pessoal de Toschi em lidar com esse caso sem solução. Ele é muito interessante pela maneira como ele interpreta um Toschi que parece estar assombrando com a sua incap acidade de resolver esse caso e de lidar com a perversidade humana.

No elenco coadjuvante, Robert Downey Jr. está na sua zona de conforto, já que ele está interpretado um repórter sarcástico e auto–destrutivo. Ele consegue retratar isso muito bem como sempre mas Robert Downey Jr. ainda consegue acrescentar ainda mais para esse trabalho. Com a sua sensibilidade como ator Downey Jr. traz uma certa sensação de desespero quando ele de maneira eficaz transmite os demônios pessoais de Paul que fez com que ele se torna mais e mais decadente. Ainda temos uma ótima participação de Jimmi Simpson em única cena em que ele de forma maravilhosa identifica o assassino e começa á refletir silenciosamente como as lembranças dessa situação horrível começam á fluir para ele. É um momento lindamente bem feito graças á ele. Anthony Edwards apesar de receber menos tempo de tela que Mark Rufallo, também está muito bem e é muito hábil em retratar como o seu personagem vira um tipo de vitima diferente para o Zodíaco. Brian Cox e Elias Koteas também funcionam bem nas cenas que em que estão presentes, o mesmo pode ser dito para nomes como Philip Baker Hall, Donald Logue e David Wenham. Porém o maior destaque do elenco é a atuação fantástica do subestimado John Carroll Lynch como Arthur Leigh Allen, um dos suspeitos de ser o Zodíaco, John é simplesmente espetacular em apenas duas cenas conseguindo criar um trabalho antológico que compõe um retrato complexo e assustador de um homem com pouquíssimo tempo de tela.

As cenas assustadoras do filme são incríveis pela realidade envolvidas nelas pela forma que você mesmo pode se sentir em situações como essas. No entanto esses momentos não são tudo que existe no filme, ele é um filme de investigação “procedural” do começo ao fim, mas talvez seja o melhor filme “procedural” de todos os tempos. Esse elemento é algo que o filme aborda de forma fascinante através de todas as personalidades interessantes que conhecemos durante o filme assim como ele cria essa obsessão no espectador para descobrimos a verdade do mesmo jeito que é criada a obsessão que destrói as vidas dos nossos personagens principais.

Apesar disso ainda temos a sensação desse medo que permanece desconhecido nas sombras, essa sensação de os dias se passarem e o assassino não ser descoberto, a sensação que o assassino ainda está livre por aí para fazer o que quiser. Mas o que talvez seja o aspecto mais fascinante do filme é o quanto ele ainda consegue ser emocional já que ele nunca se torna um olhar distante dessa investigação apesar de nunca forçar a mão na emoção.

Isso cria o peso de uma série de crimes que ficam anos sem ter o seu culpado revelado e de como essa duvida inflige por anos um sofrimento a várias pessoas. Tudo por causa de um único homem perturbado. É a obra–prima de David Fischer sem dúvidas.

 

 

texto escrito por: Diego Quaglia (blog Fiz Cinema)

 

 

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