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Empatia e arte sem limites: a promessa da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

Quando Renata de Almeida, diretora da Mostra de Cinema de São Paulo, falou na coletiva de imprensa sobre a homenagem prevista a Paulo José e a exibição do filme “O Homem Nu”, ninguém conteve o riso. Afinal, falar a palavra “nu” em uma exibição artística tem trazido problemas ultimamente no Brasil, que recentemente foi tomado por uma onda de conservadorismo. A 41ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo ocorre de 19 de Outubro a 1º de Novembro, com extensa programação que pode ser conferida no site oficial.

Mas não foi só este o momento da coletiva de imprensa da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo pautado pelos momentos mais recentes da política e da cultura no Brasil. Desde o começo, a censura a uma mostra e o ataque intenso a uma instalação artística (que de fato foi questionável) pareciam pairar no ar. Será que vivemos em tempos de proibições?

Claudiney Ferreira, do Itaú Cultural, um dos patrocinadores da Mostra, falou sobre a “criminalização da arte por quem não tem projeto político”, e dedicou seu tempo a falar sobre a importância de formar público para eventos como a Mostra. Em consonância com ele, o Secretário Adjunto de Cultura do Estado de São Paulo, Romildo Campelo, afirmou que “arte não tem que ter limites”. Victor Costa, representando a CPFL Cultural, ressaltou a importância de criar uma “perspectiva de tolerância”.

 

Evento necessário

Desta forma, a 41ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo se consolida como um evento que promove a empatia e proporciona a oportunidade de acesso a obras de arte que não chegariam ao circuito comercial. Desta vez, a Mostra ainda vai contemplar dois filmes com o Prêmio Petrobrás de Cinema, que garantirá uma verba para a distribuição dos filmes vencedores nas categorias Ficção e Documentário, na tentativa de ajudar a sanar um dos principais problemas do cinema no Brasil.

Há quem critique a programação da Mostra. A (quase) inevitável comparação com o Festival do Rio faz com que algumas pessoas vejam o evento como algo “menor”… mas São Paulo sempre foi mais a terra da vanguarda que do mainstream. Rio de Janeiro é espaçoso, é turístico, é massa. São Paulo é mais fechado, é introvertido, é centrado. Rio de Janeiro é mais Los Angeles. São Paulo é mais Nova York.

Tanto que a própria diretora da Mostra admitiu que houve um “descontrole”, segundo suas próprias palavras. Afinal, o evento vai exibir 394 títulos, indo além do que teria condições de apresentar. Apaixonada pelo que faz, Renata se questiona: “como dizer não” a tantos pedidos de homenagens e retrospectivas aos quais o evento pode dar espaço.

E isso faz com que a Mostra de São Paulo seja o que ela é: um evento de vanguarda, com uma seleção que busca fazer um apanhado do que é produzido no cinema contemporâneo ao redor do mundo, de forma mais educativa e vanguardista que hollywoodiana ou “mainstream”. O filme de abertura será do chinês Ai Weiwei, e a cineasta homenageada será Agnés Varda. É desse tipo de cinema que se trata o evento.

E isso faz da Mostra de São Paulo algo extremamente necessário. Ainda mais nos conturbados dias de hoje.

 

12 destaques da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo:

1- Os filmes de maior destaque da Mostra são os seguintes: “Nico, 1988”, de Susanna Nicchiarelli, Melhor Filme da seção Horizontes de Veneza; “The Square”, de Ruben Östlund, Palma de Ouro de Melhor Filme no Festival de Cannes; “24 Frames”, último filme de Abbas Kiarostami; “O Outro Lado da Esperança”, de Aki Kaurismaki, Urso de Prata de Melhor Direção em Berlim; “Loveless”, de Andrey Zvyagintsev, Prêmio do Júri em Cannes; “Félicité”, de Alain Gomis, Grande Prêmio do Júri em Berlim; “Where Has the Time Gone?”, produção dos países do BRICS, com Walter Salles e Jia Zhangke entre os nomes na direção; e “Uma Verdade Mais Inconveniente”, de Bonni Cohen e Jon Shenk.

2- O autor da arte do pôster desta edição é o artista chinês Ai Weiwei, que também estará presente com as sessões do seu filme “Human Flow – Não Existe Lar Se Não Há Para Onde Ir”. O longa, que debate o assunto dos refugiados e da crise imigratória que o mundo vive hoje, abre o evento no dia 18 de outubro, no Auditório Ibirapuera.

3- A cineasta Agnès Varda será homenageada com o Prêmio Humanidade e com a exibição de 11 longas de sua filmografia, incluindo “Faces Places” (Visages, villages), premiado em Cannes neste ano, e realizado em codireção com o fotógrafo e muralista JR.

4- Serão exibidos 98 títulos dirigidos por mulheres. Entre eles, destacam-se “Esplendor”, de Naomi Kawase; “Zama”, de Lucrécia Martel; “Mulheres Divinas”, de Petra Volpe, e outros 18 longas dirigidos por brasileiras.

5- O diretor francês Paul Vecchiali (Wonder Boy, Once More, Noites Brancas no Píer, L’étrangleur) será outro homenageado da Mostra, com retrospectiva, e estará em São Paulo para receber o Prêmio Leon Cakoff.

6- Foco Suíça é um dos destaques do evento. Serão exibidos sete títulos do diretor Alain Tanner, um filme inédito de Jean-Luc Godard feito para a TV, e curtas de animação de Georges Schwizgebel.

7- A clássica comédia “O Homem Mosca” (Safety Last!, 1923), dirigida por Fred C. Newmeyer e Sam Taylor, e protagonizada por Harold Lloyd, será projetada na área externa do Auditório Ibirapuera – Oscar Niemeyer, com acompanhamento da Orquestra Jazz Sinfônica.

8- O Prêmio Petrobras de Cinema vai apoiar a distribuição de dois longas brasileiros, com R$ 100 mil para o melhor documentário e R$ 200 mil para a melhor ficção

9- Espaços parceiros do festival vão exibir curtas-metragens de realidade virtual (VR).

10- A tradicional programação apresentada no Vão Livre do Masp incluirá, nesta edição, títulos participantes das homenagens ao ator Paulo José, que também receberá o Prêmio Leon Cakoff, e aos 80 anos de Leon Hirszman

11- O filme “A Trama” (L’Atelier), de Laurent Cantet, encerra o evento no dia 1º de novembro, com a presença do diretor.

12- Diversas cidades do interior de São Paulo, como Sorocaba, Campinas, Araraquara, Ribeirão Preto, Rio Preto, entre outras, receberão exibições de filmes da mostra por meio de dois patrocinadores: SESC e CPFL Cultural.

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