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Crítica: Caiçaras, às margens do Brasil

Caiçaras, às margens do Brasil’ é um documentário independente que retrata as condições de vida dos pescadores do litoral de Ubatuba.”

Direção: Guilherme Rodrigues

Roteiro: Guilherme Rodrigues

Ano de realização: 2017

Distribuidora: Filme Independente


 

Uma câmera na mão e uma ideia na cabeça.” Assim era o principal mote intelectual do Cinema Novo, um dos principais movimentos artísticos dos anos 50, que idealizava, entre outras coisas, que a qualidade cinematográfica não estava ligada a critérios econômicos. Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos, Cacá Diegues e outros cineastas da época raciocinavam uma espécie de identidade nacional para o cinema brasileiro voltada para discussões nacionais. Quase 7 décadas após o movimento artístico, pode-se dizer que, de certa forma, o espírito do Cinema Novo ainda vive nas produções tupiniquins e o fenômeno acontece muito pelo cinema documental brasileiro, reconhecido internacionalmente pela sua qualidade, originalidade e capacidade de trabalhar com orçamentos ínfimos.

Um desses herdeiros do belo slogan do Cinema Novo é o paulista Guilherme Rodrigues. Munido apenas por uma câmera Canon 60D e um microfone direcional de lapela Xing Ling (segundo relato do próprio diretor), Rodrigues retratou num excelente documentário a perspectiva contemporânea dos Caiçaras, como são chamados os pescadores ribeirinhos que moram no litoral do sudeste brasileiro.

Com um afiado olhar etnográfico aliado a um competente discurso jornalístico, ‘Caiçaras, às margens do Brasil é um importante panorama de como esta minoria sofre com efeitos inevitáveis da modernidade. Recheado de depoimentos de historiadores, antropólogos, além de interessantes relatos de ribeirinhos, a película foca na situação dos Caiçaras remanescentes de Ubatuba, cidade litorânea paulista.

De maneira bem didática, o filme resgata a história da construção da BR-101. Realizada nos anos 70 pelo governo militar, a via que entrecorta todo o litoral brasileiro foi bastante utilizado também como fator para especulação imobiliária. Antes isolada, boa parte da população ribeirinha de Ubatuba foi alijada de suas casas, num processo de êxodo que a alocou em diferentes periferias. (Há relatos extremamente tocantes no filme).

As tradições, músicas e costumes dos caiçaras também são fortemente representados nos mais de 90 minutos da película. Nesse sentido, na segunda parte da obra, aparece um impontante embate, muito bem explorado pelo diretor, e que causa uma enorme reflexão: A Bandeira do Divino, uma das festas religiosas mais tradicionais dos pescadores de Ubatuba, é recebida atualmente com desconfiança por parte da população local. De forma surreal, a intolerância religiosa de alguns pastores evangélicos faz com que o popular festejo, de mais de 3 séculos de história, seja absurdamente mal visto.

O terceiro ato encerra ‘Caiçaras, às margens do Brasil’ de maneira satisfatória e muito emblemática. Ouvindo os pescadores, o doc. discute algumas perspectivas das atuais leis ambientais. Necessárias demais para proteger a fauna e a flora, o filme, com exemplos concretos, aponta que as regras são extremamente rígidas contra os pescadores populares , porém “flexíveis” para empresas que trabalham no Porto de Santos, condomínios de luxo e transatlânticos turísticos. Em tempos de obras cinematográficas  que insistem em vender a ideia de que a lei é para todos… se faz ultranecessário ter contrapontos dessa espécie.

Do ponto de vista estético, alguns recortes entre as cenas poderiam ser bem mais trabalhados para dar maior peso às importantes falas dos personagens. A iluminação não chega a prejudicar  de forma acintosa, mas é notório que este é o ponto a se trabalhar visando melhoras em trabalhos futuros. Se praticamente sozinho o jovem diretor paulista conseguiu extrair um resultado satisfatório acompanhado de uma experiente equipe de apoio, o documentário certamente alcançaria logros ainda mais impressionantes.

Atualmente nos circuitos independentes de festivais de cinema, ‘Caiçaras, às margens do Brasil’ mostra uma realidade que é pouco acompanhada pelo jornalismo brasileiro, mas nem por isso é de menor importância. No que concerne à sua estreia, Guilherme Rodrigues desponta como mais um bom documentarista da excelente safra de cineastas sulamericanos deste tão peculiar estilo de produzir a sétima arte.

  • Nota Geral
4

Resumo

Atualmente nos circuitos independentes de festivais de cinema, ‘Caiçaras, às margens do Brasil’ mostra uma realidade que é pouco acompanhada pelo jornalismo brasileiro, mas nem por isso é de menor importância. No que concerne a sua estreia, Guilherme Rodrigues desponta como mais um bom documentarista da excelente safra de cineastas sulamericanos deste tão peculiar estilo de produzir a sétima arte.

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