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#ROCHASEMCORESūüĆą | NO PALCO | ‚Äď ENTREVISTA: MARCIO ROS√ĀRIO, DIRETOR DA PE√áA ‚ÄúBRUTA FLOR‚ÄĚ.

‚ÄúBruta Flor‚ÄĚ √© mais uma prova de que fazer teatro no Brasil √© um trabalho herc√ļleo, de guerrilha. Mesmo sem apoio financeiro e com a recusa de diversas empresas em apoiar o projeto, a pe√ßa volta em cartaz na pr√≥xima quarta-feira (dia 18), √†s 21h, no Teatro Viga Espa√ßo C√™nico. Ap√≥s uma primeira temporada com plateia lotada e sucesso de¬†cr√≠tica,¬†o espet√°culo com texto de Vitor de Oliveira e Carlos Fernando Barros (https://cinemacao.com/2016/11/11/rochasemcores-entrevista-autores-bruta/) retorna √†¬†cena cultural de S√£o Paulo com elenco reformulado (saem L√©o Rosa e Lidi Lisboa, entram F√°bio Rhoden e Walk√≠ria Ribeiro) e levantando um debate importante da sexualidade humana e da homofobia.

Dando continuidade ao Especial |no palco|, e marcando a primeira publica√ß√£o de 2017 da coluna ‚ÄúRochas‚ÄĚ, convidamos Marcio Ros√°rio, ator, produtor e diretor de ‚ÄúBruta Flor‚ÄĚ, pra uma entrevista exclusiva sobre a constru√ß√£o c√™nica, o olhar de diretor, seus trabalhos na TV, no cinema e muito mais!

 

#RochasEmCoresūüĆą¬†| no palco | apresenta:

Marcio Ros√°rio.

 

1)¬†A concep√ß√£o art√≠stica de ‚ÄúBruta Flor‚ÄĚ estrutura-se na bissexualidade e na homossexualidade que comp√Ķem o leque de possibilidades das rela√ß√Ķes humanas, tendo o espiritismo como pano de fundo.
Esse tra√ßo espiritual, ainda que sutil e contextualizado √† dramaturgia do espet√°culo, prop√Ķe um contraponto reflexivo √†s prega√ß√Ķes religiosas que algumas religi√Ķes fazem contra a comunidade LGBT? Como foi o trabalho de autores, dos atores e da dire√ß√£o pra equalizar o discurso de igualdade no espet√°culo?
Quando recebi o texto fiquei surpreso por ter tantos elementos que gostaria de falar nesse momento mundial de intoler√Ęncia em tantos setores, e ainda mais por trabalhar a bissexualidade atrelada diretamente na homossexualidade do personagem principal, no caso o Lucas.¬†Ter autores parceiros e abertos como o Vitor de Oliveira e o Carlos Fernando de Barros, √† novas propostas sempre ajuda muito.¬†
Tive uma liberdade de dialogar nos universos da estoria principal sem nenhum pudor ou medo de atravessar ou fragilizar o trabalho um do outro, tive e tenho nos autores, parceiros de trabalho presentes, amigos e profissionais. Tentei dar um lado visceral a interpretação, independente da ambientação fundamental de Maurren Miranda e do Reinaldo Patrício, fiz uma pesquisa ampla de cores, tons, luzes, trilhas sonoras e figurinos que se encaixavam bem naquele momento de criação, o que não significa que não venha mudar amanhã. Sou capricorniano nato e tenho uma necessidade básica de mudança todos os dias… Cada vez que assisto ao espetáculo, quero mudar alguma coisa… Ainda bem que tenho um elenco disponível a minha altura. Com isso tudo fica mais fácil.
 
2.) Anos atr√°s assisti uma entrevista do cineasta Karim Ainouz na qual ele expressa uma incompreens√£o art√≠stica entre a est√©tica naturalizada da viol√™ncia nas produ√ß√Ķes cinematogr√°ficas e o tabu perpetuado em torno do nu e das cenas de sexo.¬†A banaliza√ß√£o da nudez faz com que o recurso narrativo, mesmo quando em total coer√™ncia √† proposta da obra, perca credibilidade e encanto? Como foi a idealiza√ß√£o e a constru√ß√£o do nu e das cenas com teor sexual mais aflorado em ‚ÄúBruta Flor‚ÄĚ?
Enquanto a nudez feminina costuma ser explorada massivamente sem tantos questionamentos, poucos s√£o os momentos em que o nu masculino √© exibido com a mesma naturalidade.¬†Acredito que para entender essa diferen√ßa deve-se levar em conta as normas culturais de uma sociedade ‚Äúdesigual‚ÄĚ em termos de g√™nero e sexualidade.¬†‚ÄúO corpo feminino sempre apareceu como objeto de desejo, reflexo de uma rela√ß√£o de poder, o artista era masculino e o modelo feminino‚ÄĚ, quando isso muda, as sensa√ß√Ķes s√£o diversas e nem sempre aceitas naturalmente, eu penso.¬†No processo de ‚ÄúBruta Flor‚ÄĚ n√£o me preocupei nesse momento porque dentro do espet√°culo isso vem naturalmente ent√£o n√£o criei nenhuma f√≥rmula especial ou truque c√™nico, apenas ele se faz presente. Conversei com os atores para ver se existiria algum limite no que dever√≠amos mostrar sem fazer nenhum alarde sobre isso.¬†Mas durante o processo de escolha de atores, recebi muitas mensagens negativas de atores ‚Äújovens‚ÄĚ me questionando ser ‚Äúera moda‚ÄĚ ficar nu em cena‚Ķ e minha resposta sempre foi ‚Äúfa√ßa sua li√ß√£o de casa para n√£o parecer tolo perante aos outros que viveram e vivenciaram e assistiram v√°rias formas de nudez art√≠stica‚ÄĚ.¬†Nesses tempos tecnol√≥gicos, em que o cinema virou inclusive c√°psulas em celulares, ainda acredito que no Teatro, o encontro do artista com seu p√ļblico √© o que fa√ßa a grande diferen√ßa.¬†A minha mais forte arma contra o ‚ÄúNOVO‚ÄĚ vai ser sempre continuar com o ‚ÄúVELHO‚ÄĚ e para mim a mais linda e exclusiva ARTE de poucos, o TEATRO.

O trio de protagonistas do espetáculo (Pedro Lemos, Walkíria Ribeiro e Fábio Rhoden)

3.) Qual a import√Ęncia de ‚ÄúBruta Flor‚ÄĚ na luta por visibilidade das quest√Ķes de g√™nero e o papel que o espet√°culo tem, junto com as demais obras que d√£o a cara a bater e abordam essa tem√°tica, em desconstruir discursos superficiais e caricatos na sociedade hip√≥crita, conservadora e patriarcal que √© a brasileira?
Uau‚Ķ Muitas quest√Ķes em uma reposta apenas, vamos tentar se objetivo aqui, rsrsrs.
Na nossa noite de estreia, tive um menina de 21 anos que me pegou pelo bra√ßo, chorando e agradecendo pelo espet√°culo e pela chance de ‚Äúainda‚ÄĚ estar viva para poder ver nos palcos um pouco da vida pr√≥pria ‚Äď A mesma tentou se matar quando a fam√≠lia n√£o aceitou sua homossexualidade. Eu pensei? Nos dias de Hoje???? Meu Deus, eu estava certo‚Ķ pois queria com ‚ÄúBRUTA FLOR‚ÄĚ poder ajudar aos novos dando um pouco de esperan√ßa em um t√ļnel longo e quase sem respostas quando aceitamos ser feliz como devemos ser.¬†N√£o fiquei pensando em outras coisas a n√£o ser fazer um espet√°culo interessante para o p√ļblico em geral.¬†Tivemos uma primeira temporada de um p√ļblico LGBT muito grande, por√©m o publico em geral foi maior, o que me deixou muito feliz pela receptividade e do entendimento necess√°rio da discuss√£o dos temas que estamos propondo a discutir.¬†O mais dif√≠cil foi levantar um espet√°culo com tantos profissionais envolvidos sem nenhum aporte financeiro.¬†Percorri mais de 45 empresas e descobri o quanto existe PRECONCEITO no temos que estamos falando.¬†Mesmo assim consegui apoio de profissionais maravilhosos como a da cantora e atriz Cida Moreira que buscou montar uma trilha fant√°stica sem se preocupar em retorno financeiro, mas apenas pelo amor do teatro e por acreditar no meu trabalho. N√£o existe pre√ßo para esses grandiosos gestos de amizade. Irm√£os do Teatro se ajudam e sempre!¬†Muitos patrocinadores me disseram se o espet√°culo fosse mais LIGHT eles poderia ajudar em algo, muito deprimente em um pa√≠s que se diz TOLERANTE nas quest√Ķes de diversidade sexual.¬†Mas no final ter o p√ļblico ovacionando de p√© nosso elenco e todos profissionais envolvidos n√£o tem pre√ßo.
4.) Voc√™ j√° atuou em in√ļmeras novelas em diferentes emissoras de TV, e al√©m de ator e diretor tamb√©m trabalha como produtor. Conhecer os outros lados do processo alven√©rico da cena art√≠stica, seja no teatro, no cinema ou na TV, contribui de maneira significativa pra um trabalho de dire√ß√£o mais humano e enriquecedor? Qual foi o m√©todo utilizado com os atores do espet√°culo?
Acredito que conhecer todos os lados da moeda, ajuda muito‚Ķ¬†Tenho uma hist√≥ria diferente pois morei por mais de 20 anos fora do Brasil e minhas refer√™ncias acabam virando um grande ‚Äúcaldeir√£o cultural de ideias e valores‚ÄĚ.¬†Me coloco sempre no lado de todos para entender suas quest√Ķes, n√£o que isso seja f√°cil e menos doloroso‚Ķ mas no processo global, acaba facilitando muito.¬†Em BRUTA FLOR, eu fui chamado apenas para dirigir inicialmente, e durante os ensaios acabamos perdendo o produtor que tamb√©m iria fazer um dos personagens principais, com essa perda e tao pr√≥xima a estreia, tivemos que mudar a rota do GPS e recriar todo o processo de trabalho o que acabou fazendo que a nossa equipe se tornasse mais unida e forte, pois tivemos que recome√ßar sem dinheiro e focamos apenas na vontade do grupo: montar um espet√°culo necess√°rio nos dias de hoje sem medo de ser feliz.¬†Trabalhei os atores no processo de pesquisa de ideias, e muito trabalho de mesa antes de levantar as marca√ß√Ķes.¬†
 
 
5) Quais seus projetos pra 2017? Devido a grande repercussão do espetáculo em SP, existe a possibilidade de uma turnê nacional? 
Vou iniciar trabalhando muito, mesmo sem patrocínio voltamos para nossa segunda temporada de 6 semanas com novo elenco: Pedro Lemos, do elenco original continua firme, forte e brilhante no papel do engraçado e cativante Miguel, a talentosa Walkíria Ribeiro entra no lugar da fantástica Lidi Lisboa, que tem trabalho na TV em 2017 e ficaria difícil conciliar com nosso projeto, e teremos no papel de protagonista o querido e talentoso Fabio Rhoden que vai dividir o papel com Adriano Arbol que fez na primeira montagem o personagem Lucas.
Estamos agora em um teatro mais perto da zona sul de SP, estamos felizes de ter sido convidados a ir para o Teatro Viga Espaço Cênico, eu não conhecia o espaço e fiquei encantado pelo teatro e pelos curadores. Lindo e agradável o local é perto da Avenida Paulista, mais precisamente logo na saída do metro Sumaré (Linha Verde) na Rua Capote Valente 1323, as quartas e quintas as 21 horas. Depois vamos continuar por SP e Interior do Estado em turnê. Seguimos para o Rio de Janeiro no segundo semestre de 2017. Fomos sondados por duas distribuidoras para transformar nosso espetáculo em cinema…. e estamos pensando na direção, texto, já que temos produtor, rs.

Frame do filme ‚ÄúDESERTO‚ÄĚ de Guilherme Weber.

6) E como ator, quais os planos para 2017? Teatro, TV e no Cinema, algum trabalho à caminho?
Como ator, estou fechando minha participa√ß√£o em um seriado de TV e no teatro tamb√©m volto aos palcos em SP no primeiro semestre, dirigido pelo Eduardo Martini, ator e diretor que respeito muito e que tenho a felicidade de chamar de amigo nessa carreira que acabei de completar em dezembro 35 anos de profiss√£o.¬†No cinema, vamos lan√ßar no circuito, DESERTO filme Guilherme Weber (debut pol√™mico cinematogr√°fico), o qual tive a honra de fazer e viajar por alguns festivais internacionais, onde ganhamos v√°rios pr√™mios e fui indicado como melhor ator em Catalina Film Festival ao¬†lado do grande Lima Duarte. No filme acabei me deparando com¬†um personagem que tem que lidar com a nudez em v√°rias cenas do filme.¬†Precisei ficar um ano fora da TV para descansar pois o Bazunga de ‚ÄúI Love Parais√≥polis‚ÄĚ al√©m de ter sido um presente na minha carreira foi muito cansativo por ter tido que fazer a novela e tocar a minha produtora de audiovisual, a ‚ÄúTr√™s Tons Visuais‚ÄĚ que nesse momento tem dois filmes em desenvolvimento, o ‚ÄúSanta Conex√£o‚ÄĚ, comedia rom√Ęntica que vai ser dirigido pelo Charles Daves e o drama LGBT¬†‚ÄúMa Adolesc√™ncia‚ÄĚ, com texto e dire√ß√£o do premiado diretor Hsu Chien. Ambos est√£o sendo feitos em co produ√ß√£o com Afinal Filmes, do Rio de Janeiro.

 

Servi√ßo: ‚ÄúBruta Flor‚ÄĚ

Onde: Teatro Viga Espa√ßo C√™nico¬†‚Äď Sala Irene Ravache

Quando: Quartas e Sextas às 21h (ESTREIA: Dia 18/01)

Espet√°culo de: Carlos Fernando Barros e Vitor de Oliveira

Com: Pedro Lemos, Walkíria Ribeiro e Fábio Rhoden 

Direção: Marcio Rosário

Cen√°rio e Figurino: Maureen Miranda

M√ļsica: Cida Moreira

Produção Executiva: Marina Trindade

Coordenação de Produção e Palco: Rogério Queiroz

Express√£o Corporal: Rodrigo Eloi Le√£o

Preparação Vocal: Marcelo Boffat

Maquiagem e Cabelos: Eli Rodrigues

Assessoria de Imprensa: Renato Fernandes

Mídias Sociais: Angel Jackson

Realização: Três Tons Visuais

Fotografia: Ronaldo Gutierrez

Fotos da Montagem: Rogério Queiroz

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