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Capitão Fantástico (Captain Fantastic, 2016)

Capitão Fantástico é um dos longas mais feel good do ano… mas vai além.

Direção e roteiro: Matt Ross
Elenco: Viggo Mortensen, Frank Langella, Missi Pyle
Nacionalidade e lançamento: EUA, 2016 (22 de dezembro de 2016 no Brasil)

Sinopse: um pai decide dar uma criação alternativa para os filhos os ensinando a sobreviver na selva, caçando o próprio alimento e longe das tecnologias do mundo moderno. Além disso, ele mesmo passa a educação dos livros para as crianças. Contudo, acaba sendo confrontado pela família da esposa e outros membros da sociedade.

Interessante. Como não começar a crítica com esta palavra? E por dois motivos: pelo filme realmente possibilitar esse adjetivo, mas principalmente por ser a última vez que irei usá-lo em um texto. Isso graças a um belo diálogo dentro da trama de Capitão Fantástico. Diálogo este entre um pai e uma filha no qual a garota está analisando o livro Lolita, mas a figura paterna não se contenta com a análise superficial e sucinta, o famigerado “interessante”. Esse trecho também serve de metonímia para o filme como um todo. Normalmente as referências são focadas apenas na dualidade sexual homem mais velho e menina jovem. Aqui a questão é foco narrativo e como nos apegamos ao protagonista, mesmo que ele faça algo impróprio.

O começo de Capitão Fantástico é cru e belo. Vemos o ritual de passagem de um dos filhos de Ben Cash (Viggo Mortensen), onde o jovem tem que caçar um cervo com as próprias mãos. Logo em seguida somos situados como aquela família vive e qual a filosofia presente. Basicamente: uma revolução contra o sistema – seja ele religioso, educacional, moral… As cenas causam um estranhamento divertido na forma como é mostrado o choque cultural. “O que é refrigerante?”, um pequeno pergunta, a resposta vem de bate pronto: “água envenenada”. Ou então quando uma das crianças diagnostica: “todos ali estão doentes? Olha como são gordos”. Uma das melhores cenas se dá quando há uma crítica religiosa e depois eles usam esse elemento para desnortear outrem.

Em um primeiro plano, Capitão Fantástico é um road movie. Sendo que o objetivo é um funeral – o da mãe dos meninos. No caminho é onde eles são confrontados a questionar o jeito que vivem. Passam de um núcleo fechado no meio da selva em uma comunidade quase fantástica (no sentido lúdico da coisa), para observadores aterrados daquela realidade “doente”, chegando a um embate que coloca à prova o que acreditam. O principal opositor é  Jack, vivido por Frank Langella, o avô das crianças. Jack quer a guarda dos netos e considera o Ben um louco que viola o crescimento dos filhos. Neste momento o confronto de ideias é melhor realizado. Antes, basicamente a sociedade alternativa/natural era vista com olhos de endeusamento e os demais, os “civilizados”, com complexos de idiotas.

Outra inconstância é o desacordo entre o personagem transgressor e a narrativa familiar demais. Familiar em ambos os sentido: o de obviamente acompanharmos uma família e o de ficar preso a certos clichês e movimentos previsíveis. Ainda assim, apesar de perder força, não prejudica tanto no geral. Os personagens são mais interessantes que a narrativa. O roteiro evidencia uma contradição ao colocar na boca daquelas personas que “ações definem e não palavras”, mas a movimentação da trama é baseada em palavras de ordem – que têm algum impacto, mas são pouco efetivas. Esse ponto fica no limiar entre uma falha do filme e um caractere inerente àquelas figuras.

As crianças – cada uma com um nome e personalidades originais – são personagens fabulosos e os atores mirins dão conta do recado. A fisicalidade deles é ótima e a transição constante entre drama e comédia vai além das expectativas. Contudo, quem brilha, e brilha muito, é Viggo Mortensen. O já veterano ator entrega uma das melhores atuações masculinas do ano – ao lado de Matheus Nachtergaele em Big Jato e Omar Sy em Chocolate. A exótica figura paterna não ficaria em melhor mão. A confiança nos próprios pensamentos, a confusão e quase desespero e uma não caricatura daquele personagem fazem a atuação ficar grandiosa. Esse último elemento é o mais importante. A coisa poderia descambar para um pitoresca alegoria, mas o que vemos é uma seriedade e vigor. Indicação ao Oscar para Viggo? Creio que sim…

O terceiro arco é o mais genial e impactante. Até então, caso o longa não optasse por aqueles acontecimentos, seria apenas um filme “abrace uma árvore” e seria o filme mais “humanas” do ano. No final, a virada dá um peso considerável. Cenas como a da cantoria – dando uma nova versão a uma música bem famosa, canção que acaba tendo um sentido narrativo se considerarmos o viés da banda.

Se o ato final do longa é o melhor, tenho as minhas ressalvas sobre a cena final. Obviamente não darei spoiler, mas sinto que o filme poderia ter acabado momentos antes. Há uma cena em que se o longa termina ali seria altamente impactante. Ela não fecharia todos os arcos, seria então a desvirtuada que eu cobrei antes, porém mereceria aplausos. A opção derradeira não é ruim, longe disso, contudo perde em relação a que estou me referindo.

Capitão Fantástico, mesmo eu não dando nota máxima, é um dos grandes filmes do ano. Essa pequena contradição se deve ao que Capitão Fantástico poderia ter sido e não foi. Ainda assim se estabelecendo como marcante e possibilitando muitos diálogos pós-sessão. Sexo, literatura, educação, tudo merece uma reflexão. Se você tiver filhos, principalmente se você for pai, terá uma empatia forte com a proposta – seja negando-a ou se inspirando.

https://www.youtube.com/watch?v=YgRo_taGWPg%20

  • Nota Geral
4

Resumo

Capitão Fantástico, mesmo eu não dando nota máxima, é um dos grandes filmes do ano. Essa pequena contradição se deve ao que Capitão Fantástico poderia ter sido e não foi. Ainda assim se estabelecendo como marcante e possibilitando muitos diálogos pós-sessão. Sexo, literatura, educação, tudo merece uma reflexão. Se você tiver filhos, principalmente se você for pai, terá uma empatia forte com a proposta – seja negando ou se inspirando.

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