Ícone do site Cinem(ação): filmes, podcasts, críticas e tudo sobre cinema

Crítica: Doutor Estranho

Com Doutor Estranho, as possibilidades para o universo Marvel se tornam infinitas – dentro e fora das telas.

Ficha técnica:

Direção: Scott Derrickson
Roteiro: C. Robert Cargill, Jon Spaihts e Scott Derrickson
Elenco: Benedict Cumberbatch, Chiwetel Ejiofor, Rachel McAdams, Benedict Wong, Michael Stuhlbarg, Scott Adkins, Benjamin Bratt, Mads Mikkelsen e Tilda Swinton
Nacionalidade e lançamento: EUA, 2016 (03 de novembro de 2016 no Brasil)

Sinopse: Doutor Estranho”, da Marvel, é a história do mundialmente famoso neurocirurgião Dr. Stephen Strange, cuja vida muda pra sempre após um terrível acidente de carro impedir que ele possa continuar utilizando as mãos. Quando a medicina tradicional fracassa, ele é foçado a procurar cura, e esperança, em um lugar improvável – um enclave misterioso conhecido como Kamar-Taj. Ele rapidamente descobre que esse não é apenas um centro de cura, mas também a linha de frente de uma batalha contra forças ocultas do mal determinadas a destruir nossa realidade. Em pouco tempo Strange – armado com recém-adquiridos poderes mágicos – é forçado a escolher entre retornar à sua vida de riqueza e status ou deixar tudo para trás para defender o mundo como o feiticeiro mais poderoso que existe.

A sensação que se tem depois dos 20 minutos iniciais de Doutor Estranho, mais nova adaptação para os cinemas de um personagem dos quadrinhos Marvel, é a de estar justamente folheando uma história em quadrinhos. Assim que a nova vinheta da Marvel Studios termina, nos segundos iniciais, já partimos para um conflito importante da trama, sem “preparação” – de forma grosseira até -, sem se preocupar em situar o espectador. Entra em cena Kaecilius (Mads Mikkelsen) e seus aliados; um mago “dos bons” é decapitado, o vilão rouba uma página de um feitiço importante e, em poucos minutos, estamos numa perseguição por uma cidade, com os prédios e o ambiente sendo distorcidos fisicamente, literalmente desdobrados conforme a vontade de seus manipuladores. Esta sequência, impressionante  visualmente – e bem cinematográfica – é diferente do que já vimos no cinema de ação e dita o tom visual de toda a obra, pegando o público de surpresa pela sua inventividade e preciosismo técnico.

Logo em seguida, alguém lava as mãos de forma quase ritualística ao som de Shining Star do Earth Wind and Fire, clássica música funk (não o funk carioca, derivado do Miami Bass) oriunda dos anos 70. São as mãos de ninguém menos que Stephen Strange (Benedict Cumberbatch), o protagonista da história. E, com pouco tempo em tela, nessa estética de apresentação apressada de quadrinhos clássicos, fica bem definido quem é o personagem: arrogante e narcisista, Strange é um famoso e requisitado neurocirurgião, uma espécie de Tony Stark suavizado e mais responsável. Se Stark é um gênio da tecnologia, Strange é um gênio da medicina. Todas as informações necessárias nos são dadas através de diálogos expositivos que soam, novamente, quase como um quadrinho clássico da era de prata. É como se fosse uma recapitulação, um clipe de “melhores momentos”, completo com o narrador de voz eloquente.  Se esse efeito é culpa de um roteiro apressado e – como já virou corriqueiro dizer – que segue uma fórmula no melhor estilo Marvel, não sei, mas sei que ele ainda assim funciona.

Devido a um momento de imprudência, Strange sofre um terrível acidente, perdendo os movimentos das mãos, suas maiores ferramentas de trabalho (é um neurocirurgião, pelo amor de deus). Desesperado para encontrar um tratamento, o doutor viaja até  Katmandu, no Nepal, e encontra um templo chamado Kamar-Taj, lá descobre que o local não é apenas um centro medicinal, mas também a linha de frente contra forças malignas místicas que desejam destruir nossa realidade. Ele passa a treinar e, no processo, adquire poderes mágicos, mas precisa decidir se vai voltar para sua vida comum ou defender o mundo.

O Universo Marvel agora também é mágico

Se no primeiro Thor, lá em 2011, percebíamos uma certa “vergonha” da Marvel em incluir a magia em seu universo, com as explicações do deus do trovão ressaltando que “o que no mundo de vocês é mágica, no meu é ciência“, em Doutor Estranho estúdio chuta o balde logo na já citada e psicodélica cena inicial. Não existem mais tais explicações, e como a Anciã, personagem interpretada pela sempre excepcional Tilda Swinton (e que nos quadrinhos é um homem), explica para o doutor – e para o público – em determinado momento, “nem tudo tem que fazer sentido”. O momento, existencial e interessante, abre de vez as portas para o mágico, o interdimensional, o fantástico no Universo Cinematográfico Marvel sem firulas e sem medo. É a Marvel finalmente largando as explicações e entrando de cabeça em um novo canto de seu vasto universo.

Formuláico, não genérico

O que mais se escuta (de mim, inclusive) de negativo sobre o Universo Cinematográfico Marvel no cinema é o caráter genérico de suas obras. As narrativas sem pesos, acovardadas em adentrarem, parafraseando Doutor Estranhonas infinitas possibilidades que tais figuras heroicas possuem; aquela “fórmula” de histórias inofensivas, mas eficientes, que servem como uma boa diversão escapista, mas são extremamente esquecíveis. Por mais que sujeitos como os irmãos Russo James Gunn estejam tentando mudar isso, não muda que é um argumento, realmente, contundente sobre tais filmes. É interessante então, que o que mais se tem lido sobre Doutor Estranho é justamente que a produção cimenta ainda mais essa “Fórmula Marvel”; que é um filme “genérico”. Por um lado, a afirmação da fórmula Marvel é até verdadeira, mas, por outro, é um filme que segue caminhos ainda não abordados no cinema da produtora e que difere demais do que já foi visto nestes longas, não cabendo ser categorizado apenas como “diversão escapista e genérica”.

Não há nada de errado em ser formulaico, tanto que o enredo é até parecido com o primeiro Homem de Ferro (e não só pela personalidade parecida de Stark com Strange). O diferencial desta obra com as demais deste universo é que ela faz algo parecido com o que Guardiões da Galáxia fez: uma trama que pega a fórmula, a Jornada do Herói e a povoa com personagens interessantes (mesmo que existam problemas nas junções do segundo e terceiro ato) e visuais fantásticos e diferentes.

Um filme independente no Universo Marvel

Uma das vantagens de se ter um filme de origem nesse universo compartilhado de tramas entrelaçadas e personagens conectados da Marvel é justamente a “independência” que tais filmes possuem, sem a necessidade de se conectarem a todo instante com o resto do universo. Se em projetos como Homem-Formiga a decepção prevalece justamente pelo potencial e, novamente, possibilidades que uma figura como o diminuto herói renderiam serem parcialmente desperdiçadas, aqui não ocorre tal decepção. É claro que o famigerado “gostinho de quero mais” existe, mas a sensação de potencial aproveitado – no quesito visual – prevalece, as referências ao resto do universo, inclusive, não são tão óbvias como as feitas no filme do Formiga. Vemos a torre dos Vingadores, algumas menções escondidas e é isso: os Easter Eggs são recompensadores e devem deixar os fãs felizes.

Já que falamos de independência, vamos voltar à “apresentação” de Strange. Começando com a estranha inclusão da já citada Shining Star, que atribui uma personalidade toda particular ao filme e ao personagem (da mesma forma que Blue Da Ba Dee do Eiffel 65 atribuía à Homem de Ferro 3, qualidade do filme à parte), assim como a excelente trilha instrumental de Michael Giacchino que evoca Pink Floyd, com seu rock progressivo e psicodélico, e combina perfeitamente com os estranhos (desta vez sem trocadilho intencional) visuais e efeitos especiais criados pela Industrial Light and Magic.

E esse é o maior diferencial de Doutor Estranho: o seu uso de imagem e som, trabalhando juntos para mexer com seus sentidos e te dar aquela impressão psicodélica (e daí vem as piadas envolvendo LSD), dando ao mesmo tempo uma sensação de deslumbre oriunda das melhores produções da Sessão da Tarde. Não há nada de genérico nos visuais, e as comparações com A Origem perdem força no “desdobramento” do primeiro prédio, a primeira viagem de Strange nas diferentes realidades e cosmos é excelente, e mostra o quão acertada foi a escolha da Marvel de contratar um diretor oriundo do terror, Scott Derrickson (responsável por O Exorcismo de Emily Rose, A Entidade e Livrai-nos do Mal), que conduz a sequência (e o filme) com segurança. Esta cena em específico é quase uma atração de parque de diversões e já vale o ingresso, de preferência num cinema IMAX e, obrigatoriamente, em 3D.

As atuações e personagens são eficientes, com um deslize aqui e ali. Alguns fãs de quadrinhos devem torcer o nariz para algumas escolhas, em especial na mudança étnica do personagem Ancião, que nos quadrinhos é um velho monge tibetano e nos cinemas é interpretado pela britânica Tilda Swinton. A escolha da atriz é discutível, mas é inegável que o personagem fica mais complexo com a “androgenia” da atriz, adquirindo até uma certa complexidade apenas pela presença da mesma, fora que a atuação de Swinton é excelente. O Barão Mordo de Chiwetel Ejiofor, que nos quadrinhos é um vilão, se não é tão bem desenvolvido como poderia, pelo menos é interpretado com eficiência por Ejifor, e após um tempo passamos a admirá-lo por sua fidelidade à Anciã e ao Stephen Strange de Benedict Cumberbatch, que possui o mesmo efeito de Robert Downey Jr. e seu Tony Stark: ele simplesmente é o Doutor Estranho, e o vozeirão do ator ecoa como uma música pela sala do cinema enquanto o mesmo conjura feitiços. O outro “Benedito”, dessa vez Benedict Wong é quem serve de alívio cômico, com piadas que funcionam e algumas que não têm o êxito pretendido, mas nada que cause tanta estranheza.

O roteiro de C. Robert Cargill, Jon Spaihts e Scott Derrickson é inteligente em “podar” o romance de Strange com a enfermeira Christine Palmer (Rachel McAdams) provando que a Marvel aprendeu com filmes como os dois Thorque se focavam num desinteressante romance água com açúcar e tiravam o tempo de tela de questões mais importantes, ainda assim, a personagem é interpretada com eficiência por McAdams. Para Mads Mikkelsen, um ótimo ator que aqui interpreta Kaecilius, não resta muito a não ser servir como exposição de roteiro, já que seu personagem é o “capanga” do real vilão, que não é lá muito presente na narrativa.

No fim, a Marvel Studios entrega, em Doutor Estranho, um filme que possui todas as características da maior parte de sua filmografia, para o bem e o mal (a diversão, tom aventureiro; mas também a falta de tensão e a natureza formulaica), porém que se diferencia pelos excelentes visuais e pela trilha sonora, assim como a de ter uma personalidade tão forte quanto a de seu personagem principal. Você deve ter percebido todas as citações e comparações aos filmes anteriores do Universo Marvel ao decorrer deste texto. É difícil não fazê-las, pois Doutor Estranho é um filme que nos faz olhar para o passado deste universo e contemplar seu futuro, com as portas e possibilidades narrativas que se abrem. O futuro para a Marvel parece promissor, dentro e fora das telas. Realmente, as possibilidades são infinitas.

*Há duas cenas adicionais durante os créditos, como já é tradição com os filmes do estúdio.

  • Nota Geral:
4

Resumo

A Marvel Studios entrega, em Doutor Estranho, um filme que possui todas as características da maior parte de sua filmografia, para o bem e o mal (a diversão, tom aventuresco; mas também a falta de tensão e a natureza formuláica), mas se diferencia pelos excelentes visuais e trilha sonora, assim como uma personalidade tão forte quanto a de seu personagem principal.

Sair da versão mobile