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#RochasEmDebate – “RAINHA”: Um banquete antropológico além carnaval.

“RAINHA” (P&B – 30′)

Ficha técnica:

Direção: Sabrina Fidalgo

Roteiro: Sabrina Fidalgo

Elenco: Ana Flavia Cavalcanti, Marilia Coelho, Bianca Joy Porte, Jerry Gilli, Ana Chagas, Marco Andrade, Felipe Frazão, Sabrina Fidalgo, Eduarda Teixeira, Gabriela Patrocínio, Vitoria Lima, Eugênia Branco, Cecilia Bueno e Julia Senne.

Nacionalidade e lançamento: BRA, 2016

Sinopse: Rita finalmente realiza o sonho de se tornar a rainha da bateira da escola de samba de sua comunidade, todavia ela terá que lutar contra forças obscuras internas e externas que surgem em seu caminho…

 

 

“RAINHA” é o sexto curta metragem da cineasta Sabrina Fidalgo. O filme, vencedor do edital de curtas-metragens do Projeto Usina Criativa de Cinema, estreou oficialmente em julho deste ano no Festival Ver e Fazer Filmes, em Cataguases – MG. Na ocasião, reinou absoluto e levou os prêmios de Melhor Atriz, Melhor Ator Coadjuvante, Melhor Som e Melhor Figurino.

 

No dia 04 de novembro (sexta-feira) fará sua estreia no Rio de Janeiro, na sessão das 21 horas do Panorama Carioca do Festival Internacional de Curtas do Rio de Janeiro – Curta Cinema. E, juntamente com os livros “A Negação do Brasil – O Negro na Telenovela Brasileira” de Joel Zito Araújo e “A Mulher e o Cinema” de E. Ann Kaplan e o artigo “A identidade cultural na pós modernidade” de Stuart Hall, o filme será objeto de pesquisa do meu artigo de conclusão da pós graduação em Estudos Culturais na UNIJORGE, a ser apresentado em fevereiro de 2017, cujo tema será “Rainhas da Resistência – A Mulher Negra no Cinema Brasileiro”.

 

O roteiro é um dos grandes méritos de “Rainha”. Sua estrutura conseguiu tecer uma unidade narrativa capaz de abordar, de forma orgânica e autoral, o tema principal e as discussões sociais imanentes a ele. O desejo comum de meninas negras, pobres e moradoras da comunidade de se tornarem rainha de bateria de uma escola de samba, personificado na protagonista “Rita”, vem arraigado com uma conjuntura social, econômica e étnica de um Brasil real e sem a fantasia exótica do paraíso.

 

Um dos traços históricos que ratificam as origens ancestrais da sociedade brasileira está na cena de abertura do filme, onde Rita é legitimada por sua mãe com uma oração em “iorubá” (língua trazida pelos escravos traficados na época da Escravidão). Junto com outros signos linguísticos e simbologias alegóricas essa demarcação cultural concede a obra uma autenticidade cinematográfica e uma identidade nacional ora íntima e real, ou distanciada e imaginária. A partir daí o leque narrativo é aberto e a saga da protagonista em alcançar o tão desejado posto de Rainha, exibe um panorama antropológico do Brasil perpassando seus mais variados níveis representativos.

 

Os bastidores das agremiações carnavalescas das comunidades cariocas é revelado em uma referência crítica às origens do seu surgimento nos primórdios do crime e da contravenção (como o jogo do bicho, por exemplo). Figura máxima e soberana desse território periférico e intencionalmente distanciado, o presidente é quem gerencia e “zela” pelo bem estar coletivo. Suas escolhas e predileções, mesmo que tendenciosas e autorreferenciais, predominam e explicitam os jogos de poderes ali instaurados.

 

Essa imersão nos meandros da indústria carnavalesca também é mostrada de fora pra dentro. A busca obsessiva pelo corpo perfeito, vendido na capa das revistas e na cobertura maciça feita por todas as mídias jornalísticas, como ideal, dita o comportamento das meninas e é severamente potencializado pela constante ameaça de “usurpação territorial” das atrizes, cantoras e personalidades da mídia que vem de fora e sem nenhum vínculo legítimo e identitário com a comunidade leva, sob a garantia de uma maior repercussão e de status midiático, o posto mais emblemático e empoderador da Escola de Samba.

 

 

Ana Flávia Cavalcanti (foto acima) é outro destaque da produção. Depois de brilhar no horário das 6 da TV Globo, na bem sucedida novela “Além do Tempo” e das atuações no curta “Personal Vivator” (crítica do filme no link: https://cinemacao.com/2015/10/12/rochass-18-personal-vivator-e-os-olhares-de-um-pais-colonial/)  da mesma Sabrina Fidalgo e no longa “A Morte de J. P. Cuenca” do cineasta homônimo, ela confirmou todo seu talento e versatilidade. Com a profundidade do olhar e um trabalho cênico na medida ela transmite com densidade e convicção todos os medos e paradoxos que perseguem sua personagem. Três passagens do filme simbolizam bem a força interpretativa da Ana, e as opressões subjetivas da Rita. “A tríade silenciosa” – nome que dei ao arco triangular de subtextos da personagem – que contrapõem uma trilha rítmica e emocional, é iniciada na primeira cena (mencionada no 3º parágrafo), vai na curva ascendente de predestinação da narrativa e é encerrada na emblemática cena final. Nesta, o clímax passa por uma bifurcação estrutural que começa na ação das algozes femininas – um híbrido de sonho e realidade ao gosto do público  – e finda-se no encontro da personagem com ela mesma.

 

Com “Rainha”, Sabrina amplia o recorte cinematográfico feito dois anos atrás em “Personal Vivator” ao erguer um banquete carnavalesco do Rio de Janeiro na época em que TODOS e TODAS  podem brilhar, das engrenagens políticas e sociais que movem as instituições e as manifestações ditas populares, e acima de tudo, rompe com ousadia o mito de uma democracia racial conquistada pacificamente pela generosidade dos brancos ao conceder-nos a abolição da escravatura em 1888 e a posterior gentileza em nos permitir brilhar de forma igualitária, ainda que uma vez  por ano num paradoxo esdrúxulo em uma nação onde há uma inversão de minorias e que comunga padrões, limites e anseios próprios.

 

Próximo #RochasEmDebate ✊

Dia 04/11 (sexta-feira)

Entrevista com Sabrina Fidalgo, diretora de “RAINHA”.

Aguardem!

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