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Crítica: The Siege of Jadotville (2016)

The Siege of Jadotville tem uma simplicidade grandiosa e é mais um tiro certeiro da produção original Netflix.

Ficha técnica:
Direção: Richie Smyth
Roteiro: Kevin Brodbin
Elenco: Jamie Dornan, Mark Strong, Michael McElhatton, Danny Sapani, Jason O’Mara
Nacionalidade e lançamento: Irlanda, África do Sul, 2016 (07 de outubro de 2016 no Brasil, lançado diretamente na Netflix)

Sinopse: Começo da década de 60 o Congo vivia uma guerra civil, em meio a disputas da Guerra Fria. O país acabara de sofrer um golpe. Jovens militares irlandeses são enviados pela ONU para a região, como forma de instituir a paz. Com pouca experiência e pouco apoio das Organizações das Nações Unidas eles são obrigados a se sustentar ante um exército local e mercenários franceses.

A Netflix estreou a produção própria de longas metragens com um belo (e pesado) filme sobre guerra, o Beasts of no Nation. Após ter se consolidado com outras produções em diversos gêneros, a empresa volta à temática. Se no Beasts of no Nation o país onde a ação se passa é indefinido, aqui em The Siege of Jadotville a trama fica bem marcada no Congo. Apesar de local, as situações reverberam em diversas nações e principalmente por conta delas. O papel de cada um dos países, a saber: EUA, URSS, França, Bélgica, Irlanda, fica desbalanceado no longa.

Na parte política há algumas passagens pelas grandes potências, mas na linha de frente os irlandeses é que são o foco aqui – com eles seguimos por toda a história. The Siege of Jadotville é na realidade uma compensação histórica para aquele grupo. O país foi escolhido para representar a paz por ser considerado neutro e nunca ter se envolvido em guerra contra outras nações soberanas. Mas exatamente essa falta de experiência reverbera no campo de batalha, principalmente na figura do líder Pat Quinlan.

O primeiro arco serve para contextualizar aquele batalhão. Vemos desde os preparativos, com cenas leves e descontraídas. Até a movimentação deles na base em Jadotville. Criamos rapidamente laços com aqueles personagens a partir de conversas em bares, com a família e entre eles no campo de batalha. Notadamente o grupo é unido e carismático. A obra portanto é bem eficaz na introdução, mas sem muita ousadia.

Algumas cenas valem o destaque. A inexperiência e o quão aquele grupo não está familiarizado com o local fica evidente quando alguns soldados temem uma cobra não venenosa. Logo em seguida vemos, à distância, um nativo praticamente se camuflando entre as matas, em uma clara contraposição. E tal qual na Guerra Fria, que serve como plano de fundo e cenário principal, várias situações geram uma tensão, prestes a explodir, e não se concretizam. Sendo uma boa rima histórica-visual.

Os imbróglios políticos são apresentados em diversos níveis. Quando um francês em uma provocativa conversa (“bebida de verdade é esta, um conhaque francês”) rejeita uma estratégia de um alemão, o General Pat Quinlan alfineta: “Franceses detestam estrategistas alemãs. Eles só levaram duas semanas para tomar o seu país”. Rejeição também é dita quando o próprio Quinlan é informado que não são bem-vindos ali no Congo. Interesses econômicos, disputas de poder e ideologias também são postas em telas, neste caso em graus mais macros. Mas que reverberam na tentativa de sobrevivência do enxuto efetivo irlandês.

E a sobrevivência ante os percalços do cerco é que é o foco no longa. Mais do que um documento universal, vemos um filme de guerra com todos os clichês do gênero bem utilizados e funcionando de maneira efetiva. O (des)preparo. Alguma coincidência aqui e acolá. Explosões. Dramas ocasionados pela guerra, como o da família distante. Etc.

E a compra dessa proposta também é ajudada pelos elementos técnicos. Eles permitem uma imersão necessária. O som, por exemplo dos tiros, está bem vívido e a mixagem não deixa a desejar em nada em relação aos outros filmes do gênero. A trilha sonora é pesada, como tinha de ser, algumas batidas vilanizam os adversários como forma de dar mais heroísmo aos protagonistas. A montagem em prol de um filme mais suscito deixa de explorar com tantos detalhes os outros lados, mas não chega a prejudicar. Foi apenas uma opção de recorte.

Já a fotografia, tal qual em Beasts of no Nation, está espetacular. As tomadas escolhidas foram muito precisas e reforçaram a ideia da bela frase inicial: “Uma vez ouvi que na África o Sol é como uma fornalha ou ele te derrete ou te molda”. O reflexo daquele local é sentido visualmente nos caracteres dos personagens. E não só: o design de produção também ajuda a “sujar” os ambientes e, junto com a paleta de cores, somos convencidos que estamos em uma guerra.

Aquela frase é a síntese de todo o longa. O General Quinlan, por exemplo, tem momentos que é “derretido” e em outros “moldado”, positivamente, pelas situações. Vemos nele força e fraqueza. Titubeio e perspicácia. Liderança e desnorteamento. Essa volubilidade também é sentida em outros momentos e personagens, mas em especial com ele. Isso é permitido graças à bela atuação de Jamie Dornan (sim, ele mesmo… o Christian Grey de 50 Tons de Cinza).

Indo muito além de tiros e uma ação desenfreada, com alívios cômicos bem pontuais e um drama histórico-social presente, mas sendo fundamentalmente um filme de guerra, The Siege of Jadotville para quem gosta do gênero e está cansado do foco americano ou quer conhecer um pedaço da história que só há pouco veio à tona é mais uma excelente opção da Netflix.

  • Nota Geral
4

Resumo

Indo muito além de tiros e uma ação desenfreada, com alívios cômicos bem pontuais e um drama histórico-social presente. Para quem gosta do gênero ou quer conhecer um pedaço da história que só há pouco veio à tona, The Siege of Jadotville é mais uma excelente opção da Netflix.

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