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ūüĆą ROCHAS EM CORES ‚Äď ENTREVISTA ūüé¨ MARIA CLARA SPINELLI, ATRIZ.

Desde os prim√≥rdios da¬†Humanidade¬†a Arte¬†dialogava com os¬†paradoxos¬†do corpo e as formas de expressar curvas,¬†beleza e mist√©rios.¬†Hoje, na contemporaneidade de¬†apetite voraz e propor√ß√£o¬†industrial,¬†os discursos¬†da diversidade de g√™nero¬†rompem gradativamente o c√°rcere da censura e s√£o¬†debatidos com maior frequ√™ncia e¬†profundidade. O¬†¬†chav√£o popular de que ‚Äúator n√£o tem sexo‚ÄĚ e o sensacionalismo midi√°tico no ‚Äúgal√£¬†X¬†que¬†n√£o pode assumir, mas¬†√© gay!‚ÄĚ mostraram-se irrelevantes na discuss√£o que precisa ser feita √†s luzes das¬†quest√Ķes de identidade de g√™nero em uma sociedade cuja produ√ß√£o (Teatro, Cinema e TV) foi historicamente guiada por um sexismo cultural que corr√≥i as¬†estruturas de cria√ß√£o e limita o recorte narrativo e o poder de reverbera√ß√£o¬†das obras.¬†

 

O¬†equ√≠voco¬†na g√™nese de personagens homoafetivos¬†√©¬†autenticado na¬†constru√ß√£o de uma¬†alvenaria¬†vazia e superficial, que projeta os¬†gays¬†exaustivamente¬†sob a cartilha de estere√≥tipos da ‚Äúbicha-engra√ßada‚ÄĚ e do imagin√°rio extremista da¬†mulher masculinizada¬†ou da fantasia er√≥tica, no caso das l√©sbicas. Mais preocupante que essa¬†distopia narrativa¬†culturalizada pelos ve√≠culos de comunica√ß√£o,¬†vendida pelo mercado¬†e comprada pelo telespectador,¬†√© o sil√™ncio quanto aos transg√™neros.¬†Inclu√≠-los de forma org√Ęnica na conjuntura¬†da psique¬†da sexualidade¬†humana, e ao mesmo tempo expandir o¬†mercado atrav√©s de¬†oportunidades igualit√°rias¬†√© uma¬†luta √°rdua e¬†muitas vezes dolorosa, pra quem √© artista no Brasil.

 

A entrevistada da vez¬†√© uma das atrizes que simbolizam a visibilidade e¬†o espa√ßo conquistado por artistas trans nas produ√ß√Ķes audiovisuais brasileiras¬†nos √ļltimos anos,¬†Maria Clara Spinelli.

 

 

‚ÄúEscutei seu nome pela primeira vez na avalanche de not√≠cias¬†sobre¬†o¬†filme ‚ÄúQuanto dura o amor?‚ÄĚ. Comprei o DVD com tamanho desejo¬†que¬†nem lembrei que Blu-ray s√≥ funciona no aparelho espec√≠fico. Mais de 01 ano depois¬†e¬†amando¬†consegui assistir a obra do cineasta Roberto Moreira e eis que, enfim, pude conhecer a t√£o comentada Maria Clara.¬†O roteiro tinha uma premissa interessante, que se perdeu¬†em personagens mal constru√≠dos e¬†acima do tom e¬†rela√ß√Ķes for√ßadas.¬†A¬†salva√ß√£o e o melhor da hist√≥ria¬†foi a¬†atua√ß√£o dela, na pele de Suzana, uma¬†advogada que tinha um relacionamento amoroso com¬†Gil, personagem vivido pelo √≥timo Gustavo Machado¬†(a qu√≠mica entre eles¬†foi das melhores e torci por¬†um final feliz). O nu frontal em uma das suas cenas foi sens√≠vel, emblem√°tico, mas n√£o sobrep√īs seu talento da atriz. M√©rito do diretor e¬†da atriz¬†que a¬†partir da√≠ me encantou!‚ÄĚ.¬†(griphos meus)

 

 

Em 2013, ela¬†participou¬†da novela¬†‚ÄúSalve Jorge‚ÄĚ, como a traficada Anita, e hoje,¬†volta a TV no elenco da s√©rie¬†‚ÄúSupermax‚Ä̬†como a empres√°ria ‚ÄúJanette‚ÄĚ. (E confesso, que estava¬†na torcida pra que ela fosse a protagonista de¬†‚ÄúA Flor da Pele‚ÄĚ, pr√≥xima novela de Gl√≥ria Perez, que ter√° uma transexual como uma das protagonistas e¬†abordar√° de forma in√©dita na TV¬†a tem√°tica da identidade de g√™nero).¬†

 

#RochasEmCores  apresenta MARIA CLARA SPINELLI.

 

1.)¬†Em¬†‚ÄúSupermax‚ÄĚ,¬†s√©rie que marca a incurs√£o da¬†TV Globo¬†no g√™nero do terror, voc√™ dar√° vida a¬†‚ÄúJanette‚ÄĚ,¬†dona de uma rede de sal√Ķes de beleza. Ela¬†viveu uma inf√Ęncia de priva√ß√Ķes, teve que lidar com o alcoolismo e a n√£o aceita√ß√£o do pai e fugiu de casa. Seu processo de cria√ß√£o foi realizado sob quais refer√™ncias?

Todo personagem, em princ√≠pio, est√° dentro de n√≥s mesmos. O ser humano, no fundo, √© muito parecido. A busca pela aceita√ß√£o, o desejo de ser amado, a necessidade de criar v√≠nculos e conquistar seguran√ßa, etc‚Ķ O que muda, para mim, √© a forma com que cada pessoa (personagem) lida com tudo isso, juntamente com seus medos e traumas‚Ķ Tentar se colocar no lugar do outro n√£o √© t√£o dif√≠cil assim‚Ķ E, quando tentamos isso, descobrimos que h√° mais do outro em n√≥s mesmos do que imagin√°vamos. Janette n√£o √© uma mulher t√£o diferente das muitas que convivemos durante toda a¬†nossa vida‚Ķ √Č assim que eu a vejo. E, al√©m de tudo isso, tive a oportunidade (gra√ßas √†s coincid√™ncias da vida) de ter contato com uma mulher muito parecida com ela, profissional, social e emocionalmente, que me deu o ponto de partida pra criar a minha Janette.

 

2.)¬† Voc√™ √© de Assis, interior de S√£o Paulo, trabalhava no teatro e no funcionalismo p√ļblico e ganhou in√ļmeros pr√™mios no teatro e no cinema (Mapa Cultural Paulista ‚Äď 2003/2004, Festival Paul√≠nia de Cinema ‚Äď 2009, Hollywood Brazilian Film Festival e M√īnaco Charity Film Festival em 2010). Conquistar esse mesmo espa√ßo na televis√£o, onde os padr√Ķes ainda s√£o conservadores √© um trabalho √°rduo?¬† O que √© necess√°rio pra que a TV brasileira quebre barreiras e estere√≥tipos art√≠sticos?

Conquistar esse mesmo espa√ßo e reconhecimento na televis√£o, onde os padr√Ķes ainda s√£o conservadores, √© um trabalho √°rduo. √Č natural que o novo assuste, incomode‚Ķ Eu, particularmente, tamb√©m sou uma pessoa conservadora, como a maioria. E por que n√£o seria? Muitas pessoas me olham e esperam de mim posi√ß√Ķes fora dos padr√Ķes de comportamento social vigente. Talvez essas pessoas se esque√ßam que tamb√©m fui criada na mesma sociedade e cultura que elas‚Ķ Eu aprendi, e estou aprendendo, a vencer meus pr√≥prios preconceito, e¬† o medo do novo tamb√©m. Estou aprendendo porque vivo na pele a exclus√£o emocional e social, mesmo que velada, porque sou uma mulher branca, de classe m√©dia, com forma√ß√£o superior‚Ķ Mas que tamb√©m nasceu transexual. Portanto, talvez o meu caminho seja muito mais dif√≠cil‚Ķ Porque n√£o venho, nem me sinto pertencer, a uma classe marginal, embora me sinta exclu√≠da pela sociedade em que nasci‚Ķ E, embora exclu√≠da, √© esta a sociedade da qual eu quero fazer parte. Mas n√£o como uma mulher de segunda categoria, nem como uma atriz de segunda categoria, nem como uma cidad√£ de segunda categoria. As barreiras e estere√≥tipos j√° est√£o sendo quebrados‚Ķ

 

3.)¬†¬†Atualmente existe uma discuss√£o muito forte em torno dos g√™neros narrativos, Enquanto uns defendem uma reinven√ß√£o, ‚Äúserializando‚ÄĚ a f√≥rmula tradicional das telenovelas, outros s√£o adeptos da teoria de que ‚Äúnovela √© novela‚ÄĚ. Voc√™, como telespectadora, acha que √© poss√≠vel a linguagem de ‚ÄúSupermax‚ÄĚ ser absorvida pelas novelas?

N√£o sei‚Ķ Se quando se fala em novela, estamos falando em um produto destinado √†s grandes massas, talvez ‚ÄúSupermax‚ÄĚ seja demais para p√ļblicos de todas as faixas et√°rias,¬† por exemplo.¬† Mas n√£o acho que uma coisa tenha que necessariamente ser absorvida pela outra. H√° quem possa¬†gostar de uma, outra ou de ambas.

 

4.) Para além da pesquisa, você, como telespectadora, tem assistido alguma produção do gênero o terror/suspense? Quais nos indicaria?

N√£o s√£o g√™neros que me agradem¬†em especial. Neles, ainda fico com os cl√°ssicos. Mas tamb√©m amo s√©ries, como ‚ÄúHomeland‚ÄĚ ou ‚ÄúOrphan Black‚ÄĚ.

 

5.) Al√©m da s√©rie ‚ÄúSupermax‚ÄĚ, tem mais algum projeto para este ano?

O telefilme ‚ÄúA Felicidade de Marg√ī‚ÄĚ, dirigido por Maur√≠cio E√ßa, com roteiro de Paulo Garfunkel e Theo Garfunkel, baseado em cr√īnica de Dr√°uzio Varella. Filme este que participa de um projeto envolvendo nove pa√≠ses que falam o idioma portugu√™s, onde cada pa√≠s produziu um filme. Todos os filmes ser√£o lan√ßados simultaneamente nos nove pa√≠ses. No Brasil, deve ser exibido pela TV Brasil.

 

 

Acompanhem a Maria Clara Spinelli como ‚ÄúJanette‚ÄĚ na s√©rie ‚ÄúSupermax‚ÄĚ, todas as ter√ßas-feiras, √†s 23h, na TV Globo.

 

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