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Crítica: Desculpe o Transtorno (2016)

Desculpe o Transtorno traz uma boa premissa e uma execução leve e descompromissada.

Ficha técnica:
Direção: Tomas Portella
Roteiro: Tatiana Maciel, Célio Porto, Adriana Falcão, Pedro Carvalhaes
Elenco: Gregório Duvivier,  Clarice Falcão, Dani Calabresa, Marcos Caruso, Rafael Infante, Luis Lobianco, Daniel Duncan
Nacionalidade e lançamento: Brasil, 15 de setembro de 2016

Sinopse: Eduardo tem uma rotina bem estabelecida. Mas após um trauma resgata uma personalidade reprimida desde a infância, o Duca. O vai e vem de ambas movimenta a vida dele(s) no trabalho, com amigos e principalmente afeta a relação com duas mulheres.

Na semana de estreia do longa Desculpe o Transtorno, Gregório Duvivier divulga na coluna dele uma carta aberta para a ex-companheira Clarice Falcão com o titulo “Desculpe o Transtorno, preciso falar da Clarice”. Além de expor a findada relação, Gregório foi criticado por gerar holofotes para o filme – onde, inclusive, faz par romântico com Clarice. Se ele está certo ou não cabe a cada um julgar. Fato é que muitos descobriram o filme depois do ocorrido (fato também que na sessão que eu estava só tinham 6 pessoas, em uma sexta à noite).

Atendo-se agora exclusivamente ao conteúdo apresentando no filme, Desculpe o Transtorno cai no limbo de um gênero um tanto saturado: o das comédias românticas brasileiras. Mas que teve dois bons resultados recentemente : Um Namorado Para Minha Mulher (último trabalho do já saudoso Domingos Montagner) e exatamente o Desculpe o Transtorno. Sendo este segundo um pouco inferior ao anterior.

Vemos duas faces, um tanto estereotipadas, do mesmo homem. Eduardo e Duca (Gregório Duvivier) dividem o mesmo corpo. Quando um assume o outro não se lembra de nada. Há uma sacada, no gatilho de transformação de Duca para o Eduardo que homenageia o clássico Feitiço do Tempo. Já para se transformar em Duca é necessário um estresse marcado na primeira cena do longa.

A proposta é pegar uma doença, o transtorno dissociativo de personalidade (a famosa dupla personalidade), e dar um verniz tragicômico – muito menos trágico que cômico, obviamente. Por exemplo, a personagem Bárbara (Clarice Falcão) leva o recém conhecido Duca a um grupo de apoio – e acabam seguindo e subvertendo as dicas aprendidas. Ela também cita Freud, Dostoiévski e Wikipedia com o mesmo grau de importância, mas o faz com comicidade e uma certa autoconsciência.

O trabalho de Eduardo é registrar patentes. Ou seja, avaliar e dar uma chancela a ideias alheias. Junto com uma relação opressora com Viviane (Dani Calabresa), onde ela decide tudo por ele, vemos um ser destituído de vontade própria e reduzido a condução de outrem. Sem pulso para sequer impedir que o colega, que mora de favor, ande de cueca dentro da casa onde moram. Duca, por outro lado, se mostra dono de si. Apaixonado pelo RJ, Eduardo quer morar em São Paulo, e por uma vida mais leve. Tocado pelas lembranças da casa da mãe.

O design de produção na casa da mãe, aliás, gera uma imediata sensação de antiguidade. Mas fica carregado demais com objetos que só poluem a tela ao invés de ter um cenário orgânico. A fotografia, um pouco sépia, dá um ar sujo e velho ao ambiente. A trilha tem letras que casam com a situação proposta, mas a balada soa muito monotônica. Tecnicamente é isso… sem grandes destaques e sem grandes falhas – uma síntese de Desculpe o Transtorno, aliás….

Vale a lembrança da dupla de amigos de Eduardo. Rafael Infante interpreta um folgado colega de trabalho (o tal que anda de cueca). Ele tem bons momentos como propor a “baratona”, uma maratona de bar, mas repete muito a piada e perde força. Enquanto Daniel Ducan traz um personagem que vive treinando para um show de stand up – o ator é humorista e faz shows nesse estilo o que pode tornar o personagem bem familiar.

Já o trio principal, Gregório, Clarice e Dani (a Calabresa), está muito bem. Cada um vai no limite que o personagem aguenta – roteiro aqui não é nada genial. Duvivier, em especial, exibe alguns trejeitos caros à figura que o ator já desenvolveu na trupe do Porta dos Fundos. Contudo isso tem um problema: eles, aí no casos os 3, não mostram nada que já não vimos eles mesmos fazendo anteriormente.

Desculpe o Transtorno não é um crime cinematográfico. Talvez não será lembrado ano que vem. Tem uma dose de absurdo (aceitável?), faz rir e sabe entreter, porém vai pouco além disso. Se em Um Namorado Para a Minha Mulher o clichê é trabalhado de forma inteligente, aqui falta viço nesse sentido – podendo gerar até um desinteresse, mas duvido que cause uma revolta maior que a fatídica carta…

ERRATA: eu havia escrito que as piadas do personagem do Daniel Duncan eram retiradas do show dele. Fiz confusão conforme alertado pelo humorista. O trocadilho é inevitável: “desculpem o transtorno”, mas eu poderia ter tentado confirmar a informação antes e não apenas confiar em uma falsa lembrança. 

  • Nota Geral
3

Resumo

Desculpe o Transtorno não é um crime cinematográfico. Talvez não será lembrado ano que vem. Tem uma dose de absurdo (aceitável?), faz rir e sabe entreter, porém vai pouco além disso.

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